Teto de verniz

Desbotado. Sem cor. Quase transparente. “Dá para ver o azul celeste daqui. Venha Juan, veja isso”, ela aponta. O teto de verniz. Sem pintura. Apenas passado verniz, dando um aspecto incomum. Vidro. “Imagine só, dá para ver mesmo”, diz fingindo estar surpreso. “Isso dá assunto para uma de suas histórias”. “Não confunda inspiração com falta de ter o que fazer”. “Insensível”, ela resmunga. “Não posso tirar inspiração disso, Keite”. “Você é chato!”. “Keite vá ajudar a mamãe e me deixe trabalhar”. “Mamãe está no jardim. Ela não gosta que eu a ajude”, diz olhando para os pés. “Isso porque você sempre dá um jeito de matar as flores dela”. “Mas é que elas são muito frágeis... Não é culpa minha”. 

“Keite, estou tentando me concentrar”, diz passando o polegar e o indicar de ambas as mãos nas têmporas. “Eu já disse que o teto de verniz é uma boa ideia...”. “Keite....”. “Eu já vou sair..”, ela sai e fecha a porta com cuidado. Fica na ponta dos pés. Como pode ser tão pequena tendo quatro anos? Mamãe costumava dizer: “essa menina não é normal”. Pequena e inteligente. Tinha os olhos graúdos e ávidos para os livros. 

“Sobre o que escrevo?”, pensa com o lápis no queixo. “Ah, já sei! È perfeito! O titulo será: Teto de Verniz”. Ele começa: Qual a cor do seu teto? O meu é de vidro. A cor? Verniz. Não tem cor definida. É transparente. Sincero como as sugestões de minha irmãzinha e frágil como as flores da mamãe. Deve estar pensando que qualquer coisa pode atingi-lo e quebrá-lo, não é? Pode sim, mas antes disso as pessoas o admiram e esquecem de atirar a pedra. Ficam encantadas porque podem ver o azul celeste. Meu teto é de vidro, assumo [...]. 

“Humm...será que isto está bom?”, pensa, “Bem, a professora pediu para que escrevêssemos sobre qualquer coisa. Talvez isso sirva...”. Guarda o rascunho na gaveta. Sai do quarto. Dá uma ultima olhada para a gaveta, como que para assegurar de que o texto está protegido. Surge um sorriso em seu rosto. “Keite, esse texto é seu”. 

Comentários

  1. Emile

    É admirável que até um Verniz, uma pintura, um teto, algo sem nenhum atrativo serve de inspiração para quem gosta de escrever.

    É isto! Eu admiro isto. Eu escrevo o que gosto, o que quero, quando quero, e quando posso escrever, nem sempre quando quero, pois, as vezes, quero escrever, e o que tenho para escrever, é não ter algo que penso "ser útil e gostoso de escrever".

    As vezes, muitas vezes, queremos escrever algo surpreendente, algo inimaginável, e, a inspiração é somente escrever sobre o cotidiano, um evento, um causo.

    Penso que todo que temos vontade de expressar por meio da escrita, pensamos: isto não é interessante. Mas, quando escreve aquilo, isto, quem lê, acha interessante o que foi escrito e causa admiração em quem escreveu: alguém gostou e respondeu!

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  2. Ficou muito bom; uma sutileza nas descrições que poucos conseguem. Só achei desnecessário o monólogo interno no último parágrafo. Não serviu em função de deixar a personagem mais profunda, ou de torná-la mais conhecida para os leitores (expondo suas opiniões ou inseguranças). Bem, talvez eu que não saquei direito qual é a da personagem...

    "É transparente. Sincero como as sugestões de minha irmãzinha e frágil como as flores da mamãe. Deve estar pensando que qualquer coisa pode atingi-lo e quebrá-lo, não é? Pode sim, mas antes disso as pessoas o admiram e esquecem de atirar a pedra."

    Isso aqui ficou muito bom, tenho que comentar.

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  3. Emilie, a favorita, a outra é a poeta rs...saudade, mas tou sem net, e a que consigo, alguns blogs, infelizmente não tenho acesso, como o teu...Os grandes vazios existenciais e criativos, acho que estamos sempre dentro de um não fazer, um não inventar, até que explode esta necessidade que tenho de escrever, me expor, exorcizar as dores ou amores...Keite para mim é a consciencia ou inconsciencia, uma espécie de desejo contido, que não se sabe o que é ou de onde vem, mas está ali, nos provocando. Teto de vidro, teto de verniz, tão ali e tão distante, quase imperceptível. O jardim e as flores, tão delicadas, tão frágeis, como sentimentos, que habitam o interior do interior humano. Gosto do que leio aqui, gosto de tentar entender de onde vem a inspiração, o que é inspiração ? Querida Emilie, teus escritos me encantam, me possibilitam uma felicidade estranha, acho porque gosto de te ler, me perder e me encontrar nas tuas histórias. Agora vou sair e dar uma última olhada neste conto, so para ter certeza de que li e ele estará aqui, guardado no teu blog. Divaguei rs...gosto disso.
    ps. Carinho respeito e abraço.,

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  4. Depois desse texto incrivelmente sútil e delicado, e de todos esses comentários super bem pensados, fico até com vergonha de escrever qualquer coisas - aqui ou no blog, haha. Gosto da forma como você escreve, faz parecer fácil e acho que isso só vem com o dom. Para aqueles inspirados, qualquer tema se desenvolve em texto, parece que cria vontade própria. Um beijo!

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  5. Os textos espontâneos, que surgem despretensiosos, são os melhores! Você acaba fazendo as palavras funcionarem juntas, palavras que parecem não terem conexão nenhuma mas que no final adicionam umas as outras. Ficou lindo. <3

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  6. Acho extremamente admirável e doce a espontaneidade e a inocência das crianças. Simples ações as fazem ter um mar de inspirações e viajar em um mundo inimaginável. Conforme crescemos, perdemos, em parte, essa essência, mas elas estão aí para continuar a nos lembrar desse fato. E elas transpiram inteligência, criatividade e inspiração, igual foi relatado em seu texto. E que texto... As belas palavras que você usou despertou em mim algo que ainda não consegui definir. Beijos, Light As The Breeze

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  7. Que gracinha de tema, Emilie! Consegui imaginar o teto com tanta clareza... Para mim era um daqueles tetos inclinados de sótão, sabe? Não sei por quê, mas sempre imaginei que os melhores estúdios e escritórios ficariam na parte de cima de uma casa. Keite é uma fofura de personagem, apontando com sua inocência um tema para a escrita, que depois dá certo. Perspectiva infantil é uma coisa mágica. As crianças prestam atenção nos detalhes simples que fogem aos nosso olhos treinados, demasiadamente inteligentes. Estava com saudades dos seus textos e da sua presença. <3 Beijinhos, se cuide.

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  8. É delicioso arrancar inspiração do nosso entorno e mesmo dos temas que, conscientemente ou não, as pessoas nos sugerem. Ah, é delicioso escrever!

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  9. Adorei o texto. E realmente, quando a pessoa tem aquela mente toda criativa, ela consegue tirar inspiração de qualquer coisa, do teto, de um lustre, de um lápis caído no chão. Para quem tem a mente tão aberta e tão liberta qualquer coisa pode se tornar um grande e magnifico texto.

    http://www.agindodiferente.com/

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  10. Olá, Emilie! Como você está? Primeiramente: QUE TEXTO É ESSE? QUE LINDOOOOOOOO! Você é tão criativa com textos! Como pode criar algo tão bem escrito sobre um simples teto? Estou realmente impressionada! Espero que você continue com os textos por aqui, porque eu quero ler mais <3.

    Com carinho, Liv.
    // n-found.blogspot.com

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  11. Sempre acho que seus textos são de uma sensibilidade incrível. Eu gosto da simplicidade e do sentimento presentes na sua escrita, e seus personagens são sempre tao soltos. Simpatizei com Keite, ela poderia ser eu há alguns anos atrás. Escondendo seu texto na gaveta e por algum motivo, temendo que ele não esteja mais lá. Como se nunca tivesse ido pro papel de verdade. <3

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  12. E apesar de ele não querer admitir, ela o inspirara. Bacana isso. Pelo menos no final ele reconhece a inspiração! Ficou lindo teu texto e por um momento, pensei que era o pai da Keite escrevendo, mas ao que parece, é o irmão.

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  13. Que terno! Adorei a sensação de ler esse texto, um pequeno fragmento bonito da história de dois irmãos! Queria ler mais dos dois...

    Pandora
    O que tem na nossa estante

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  14. Que texto mais amorzinho, Emilie! Como sempre, eu começo imaginando um cenário, você vem e muda ele todo. Será que foi você quem me viciou nos plot twists? Hahaha XD
    Não pude deixar de pensar que a Keite (tenho uma prima com nome parecido, mas o dela é Keitty) é uma menininha muito esperta pra idade dela e, com o incentivo certo, ela poderia ser ainda mais quando crescer. Coisas de gente que estudou superdotados por tempo demais na faculdade :x
    Um beijo :*

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  15. Quem tem uma mente aberta, encontra a inspiração em qualquer lugar. Tudo que parece inútil para alguns, não será para os olhos mais aguçados. Acredito que a inspiração humana não sobrevive só do óbvio, mas também de tudo aquilo que vai além das possibilidades. Adorei a história dos dois irmãos. Parabéns pela qualidade do texto. Beijinhos...

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