Focinho

O fato é: segunda pela manhã terei trabalho e não poderei ir. Quem sabe minhas patas possam digitar uma ou duas frases, e as pessoas me reconheçam ao olhar no fundo dos meus olhos. 

...

Não há diferença entre terças, agosto, tarde ou manhã. Acordo, faço minha ronda à procura de comida, corro de veículos, me afasto ou me aproximo de humanos. "Humanos...". Onde está a humana que fui? Na dúvida não sou nada agora que não posso distinguir se é sexta ou sábado.

...

É dia. O sol bateu no meu rosto, e encontrei um filhote. Mantive-o junto a mim.

...

"É óbvio que emagreci, pequeno. Essa pelugem esconde meu corpo."

...

Achei uma caixa, pus o pequeno e adormeci junto a ele. 

- Ela tá bem?

Humanos me encaravam com curiosidade. Crianças apontavam pra mim. Adolescentes riam. O filhote não parava de miar. Tentei falar, como fiz outras vezes onde o resultado eram pensamentos e nenhuma palavra audível, e algo aconteceu. Era a minha rouca voz novamente. Percebi, enfim, que estivera pelada. Cobri-me com o papelão e pedi ajuda. 

No outro dia acordei no meu corpo original, e uma sensação de perda. Minha memória converteu o ocorrido em sonho? Quis colocar à prova. Fui ao beco onde costumava ficar, e lá estava uma bolinha de pelos. Sujo e faminto. Levei-o para casa. 

Imagem: 春, por S

Comentários

  1. Depois de um texto desses eu fico até sem saber o que comentar, de verdade. Sempre gostei muito da forma como você monta suas histórias, cria os cenários e desenvolve os enredos. Nada é o que parece a primeira vista, e acho isso incrível. Era uma gata, uma moça? Nada disso? Só sei que eu sempre fico um bom tempo pensando no que te escrever quando termino de ler. Seus textos sempre ficam comigo por um bom tempo, mesmo depois que fechei a aba do navegador. ♥

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  2. Amei o texto! Amei a escrita, a história, a linguagem, amei o gato. Além de amar escrever e ler, eu estudo veterinária; então você me cativou por coisas que amo muito. Estarei te acompanhando sempre.

    Abraços no coração!

    http://www.borboletra.com/

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  3. Você é muito hábil em criar histórias curtas e, ao mesmo tempo, densas, Emilie. Li rapidamente, mas a reflexão permaneceu na minha mente. Além de muito inventiva a estrutura do texto para representar a perspectiva do felino.

    Abraços!

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  4. AMEI esse conto! Infelizmente, como sempre, eu não sei colocar em palavras o porquê, mas adoro como você sempre me surpreende com suas histórias, e como sempre me deixa curiosa e ansiando por mais - afinal, eu sou naturalmente curiosa e fico criando mil teorias mirabolantes na minha cabeça. Como ela viro um gato? Como ela desvirou? E o que as pessoas acharam, que ela tinha desaparecido? Sido sequestrada? Será que todas as pessoas que desaparecem na verdade viraram gatos? Muitas perguntas pra minha cabecinha :0

    Beijos <3

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  5. meu post favorito até agora. Com poucas linhas vc conseguiu me transportar pro lugar do conto e fui acompanhando tudo aqui, imaginando cada cena. E esse final? <3 muito amor

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