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Mostrando postagens de Agosto, 2015

Focinho

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O fato é: segunda pela manhã terei trabalho e não poderei ir. Quem sabe minhas patas possam digitar uma ou duas frases, e as pessoas me reconheçam ao olhar no fundo dos meus olhos. 
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Não há diferença entre terças, agosto, tarde ou manhã. Acordo, faço minha ronda à procura de comida, corro de veículos, me afasto ou me aproximo de humanos. "Humanos...". Onde está a humana que fui? Na dúvida não sou nada agora que não posso distinguir se é sexta ou sábado.
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É dia. O sol bateu no meu rosto, e encontrei um filhote. Mantive-o junto a mim.
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"É óbvio que emagreci, pequeno. Essa pelugem esconde meu corpo."
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Achei uma caixa, pus o pequeno e adormeci junto a ele. 
- Ela tá bem?
Humanos me encaravam com curiosidade. Crianças apontavam pra mim. Adolescentes riam. O filhote não parava de miar. Tentei falar, como fiz outras vezes onde o resultado eram pensamentos e nenhuma palavra audível, e algo aconteceu. Era a minha rouca voz novamente. Percebi, enfim, que estivera…

Teto de verniz

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Desbotado. Sem cor. Quase transparente. “Dá para ver o azul celeste daqui. Venha Juan, veja isso”, ela aponta. O teto de verniz. Sem pintura. Apenas passado verniz, dando um aspecto incomum. Vidro. “Imagine só, dá para ver mesmo”, diz fingindo estar surpreso. “Isso dá assunto para uma de suas histórias”. “Não confunda inspiração com falta de ter o que fazer”. “Insensível”, ela resmunga. “Não posso tirar inspiração disso, Keite”. “Você é chato!”. “Keite vá ajudar a mamãe e me deixe trabalhar”. “Mamãe está no jardim. Ela não gosta que eu a ajude”, diz olhando para os pés. “Isso porque você sempre dá um jeito de matar as flores dela”. “Mas é que elas são muito frágeis... Não é culpa minha”. 
“Keite, estou tentando me concentrar”, diz passando o polegar e o indicar de ambas as mãos nas têmporas. “Eu já disse que o teto de verniz é uma boa ideia...”. “Keite....”. “Eu já vou sair..”, ela sai e fecha a porta com cuidado. Fica na ponta dos pés. Como pode ser tão pequena tendo quatro anos? Mam…