Não existem príncipes encantados - Capítulo 2: A Donzela


Crianças jogavam pelada na rua. As mães suplicavam para que tomassem cuidado. Não cuidado com os carros ou com estranhos. Cuidado com a vidraça do vizinho, porque ninguém está afim de pagar o prejuízo. A garotada não liga, quer aproveitar enquanto a segunda não vem. Mas a Pelota tem uma ideia diferente. Ela adora estragar a brincadeira mudando de direção e acertando a janela da Dona Chica em cheio. Os risos param. Só se escutam os cacos. E começa a gritaria. O dono da bola é o primeiro a sumir. E o resto vai atrás. Menos o Pedrinho. O Pedrinho perdeu tempo demais no “choque”, e quando viu estava sozinho para escutar os sermões. Já estava aos choros antes mesmo da senhora abrir a boca. E quando abriu, o mundo despedaçou. Foi apenas escutar o “Vou contar para sua mãe”. Mais uma cintada para a coleção. Ou será chinelada dessa vez? Só de pensar...

– Algum problema, milady? - Darc, montada em seu cavalo estralado, diz para a senhora irritada.

– É esse maloqueiro aqui - reclama Dona Chica - Já não basta badernar na rua, agora vem quebrar minhas coisas. Aposto que quebrou minha janela pra ficar mais fácil de entrar e roubar algo mais tarde, né? Seu bandidinho!

– Perdão, Milady... que janela quebrada?

– Ora, além de ter mau gosto pra roupa, é cega? Essa daq- -

Dona Chica se vira apenas para encontrar a janela intacta, como se nada houvesse acontecido. Ousaria dizer que estava mais bonita e limpa do que no dia em que seu falecido marido a instalou. “E depois tomamos refresco sentados no chão empoeirado...” pensou ela alto. A dona ficou calada olhando para o reflexo do sol brilhante naquela superfície. Entregou a bola para o menino e voltou para dentro de sua casa com a cabeça baixa. “Há mais corações para curar do que eu esperava,” pensa Darc consigo mesma. A cavaleira chama a atenção do garoto, ainda pasmo com a situação.

– Eu lhe ajudei, pequeno cavalheiro. Agora me responda... Onde vive a donzela chamada Joana?

– A psora? Ela vive aqui mesmo, na casa em frente.

– Obrigado - a loira joga uma piscada pro garoto e se despede - Celeste!

O cavalo escuta seu nome e relincha. Dá um salto impossível para o alto. Ainda no ar, Darc pula de seu companheiro em direção a janela escancarada da residencia. “MILADY!”. Joana, apenas de camisola, leva um susto e grita “TARADO!”. Darc procurou por quem ousaria invadir a privacidade da moça desse jeito... Até cair a ficha.

– Sinto muito, Milady... - diz a cavaleira - Não deveria ter entrado assim. Por isso - ela tira uma adaga com um crucifixo vermelho na lâmina - Arrancarei meus olhos como punição!

– Mas o q... NÃO! - Joana pula na loira e segura seu braço - Você pode ser doida, mas não quero que se machuque!

– Milady... É tão bondosa com seu servo.

Darc se ajoelha, pega o pé da moça e o beija. Joana sente um arrepio. Os pés eram seu ponto fraco. Reagiu involuntariamente, tropeçando na cama e puxando a loira.

– Jana, eu encontrei... - Gilles entra no quarto e encontra a vaqueira debruçada sobre sua melhor amiga, semi nua e com o dedão na boa da cavaleira.

A feição da ruiva mudou de “Espantada” para “Joana, sua safada” em um piscar de olhos. Só restou para a morena esconder o rosto avermelhado com as mãos, enquanto Gilles fechava a porta ainda observando tudo - e a loira ainda com o pé em sua boa. Joana chutou e pensou em expulsá-la. Respirou fundo. Se acalmou. Lembrou do que ela fez pelo seu aluno. As crianças eram a coisa mais importante pra ela. Sua única chance de mudar este mundo cruel. Convidou a loira para tomar café com elas, como agradecimento. De alguma forma, Gilles não achou a vaqueira nenhum pouco estranha. A recebeu como uma irmã. Darc contava das várias aventuras e seres que encontrou cavalgando no espaço. Gilles contou todos os segredinhos da melhor amiga. Como quando praticaram beijo juntas no Ensino Médio. E que até hoje ainda assiste sua série favorita infantil. Também contaria sobre os pés, mas isso já foi descoberto há alguns minutos. E Joana ficou apenas com o rosto apoiando na mesa e pensando “Por que?”. Então Gilles soltou um “Devíam sair juntas”. Só de pensar Joana ficou enjoada. Fez a cavaleira prometer não ser tão... “pegajosa” e respeitar o espaço dela. E ele foi respeitado. Joana não sabia para onde levar a misteriosa, então deixou ela escolher. Subiu no cavalo estrelado e foram para o campo. Chegaram tão rápido que nem pareciam ter ido à cavalo. “O bichano é rápido”, refletiu consigo mesma. Joana perguntou por que foram para lá. “Você vai cavalgar”, respondeu a vaqueira. Joana ficou pálida. Ela está de brincadeira ou o que? Nem concordou e já estava tremendo. “Celeste é o melhor cavalo que existe. Você nem vai sentí-lo cavalgar”, explicou a loira. E não sentiu mesmo. A viajem foi tão rápida que nem lembrava de estar no cavalo. Mas não era a mesma coisa. Dessa vez ela estaria sentada nas costas do cavalo, segurando as redeas. Já estavam lá de todo jeito, então... “Sim”. Prendeu o cabelo com uma presilha guardada em sua bolsa e subiu no cavalo. Nem precisou de ajuda, o próprio cavalo sentou para ela subir. “Só me faltava essa, o pangaré também tem complexo”. Ficou um momento examinando as estrelas no cavalo. Ainda não acreditava que era parte dos pelos dele. Tinta permanente? E na distração não percebeu que o cavalo estava correndo faz tempo. O medo virou adrenalina. A adrenalina virou alegria. E um sorriso enorme se abriu, enquanto atravessava a planície passava por ela e o seus cabelos eram jogados pela brisa. Quando viu já estava na praia. Uma praia vazia naquela época... Milagre.

– Sobreviveu? - Darc já a estava esperando, encostada numa árvore solitária. Como chegou antes do cavalo, ninguém sabe.

– Sou mais forte do que pareço - diz ela fazendo uma pose - IIAH!

Darc dá uma gargalhada e volta a olhar para o mar. Joana se junta a cavaleira, ainda pensando na viajem. Não se sentia assim desde a última vez que saiu para fazer loucuras com Gilles. Ela ainda sai com a melhor amiga, mas...

– Eu sou muito idiota, sabe... - disse Joana

– Milady?

– Eu... Esqueci disso. Gilles tentou me arrastar para aventuras várias vezes... Desde que crescemos, e eu sempre evitei. E minha própria amargura não me deixava enxergar que ela também estava com dores. Geralmente ela se mostra bem forte e alegre, mas é mais frágil que eu às vezes. Por dentro pelo menos. Ela só quer me ver feliz, mesmo que ela mesma não seja o motivo disso. Você está aqui por isso, certo?

– Estou aqui por todos os corações que precisam voltar aos trilhos da felicidade.

– É muito bonito da sua parte... Desculpe por te achar doida. 

– Então... meu trabalho aqui está feito.

– Como assim? Pensei que veio me ajudar, seja você uma alucinação ou algum tipo de semi deus irônico. Espera mesmo que um passeio a cavalo resolva tudo isso? Não estamos num filme, moça!

– Eu não vim salvar você. Vim salvar a donzela aí dentro - respondeu apontando para o peito da morena - A Joana sonhadora e sem medo de amar. A Joana que sabe quem ela realmente ama, mas nunca teve coragem de falar. A Joana que vai salvar esse drama.

– Então você não é o herói da história no fim das contas?

– Eu só vim mostrar as estrelas, ligar a constelação é com você.

– Ora essa, eu nem cheguei no céu ainda...

– Então vá, seu paraíso está esperando.

Darc subiu no cavalo e cavalgou sobre o mar, desaparecendo no horizonte. “É bom isso ser um sonho, mesmo porque, não faço ideia de como chegar na casa dela daqui”. Checou a bolsa para pegar o celular. Sem sinal. Malditas operadoras. Tinhas uns trocados no bolso. Fez algumas perguntas e encontrou o caminho. Um caminho demorado. O celular ainda estava de pirepaque, então restou subir as escadas e tocar a campainha.

– Ué, achei que você - - 

Gilles é interrompida por um beijo.




CONTINUA ...

Essa imagem também foi bem preguiçosa. Peguei uma tirinha sobre a Hermes Costello e coloquei um óculos na pessoa. Quem quiser ver a imagem original (aqui

Comentários

  1. Confesso que de todos os textos que li aqui, esse tem a escrita um pouco mais confusa, alguns erros de digitação e tal... Escreveu no celular, ou com pressa, ou qualquer coisa do tipo? Acontece, eu também vivo cometendo erros rs
    Quanto à história, estou curtindo, dá vontade de saber o que vai acontecer depois, e eu amo contos gays <3 kkkk

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    1. Nem percebi, perdão -_-"

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    2. Na verdade, eu deveria ter revisado antes de postar. Acabei não fazendo o serviço por algumas questões.... enfim, finalmente, editei. SORRY por isso.

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    3. Bah, mas eu devia prestar mais atenção também né :\ você já é bem ocupada

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  2. E ela julga a criança sem conhecer? Ou seja, quem brinca na rua do ponto de vista da senhora é... bandido, maloqueiro? Triste realidade.
    E a sua cavalheira se considera a serva dela? Interessante, pois a Joana não a vê assim!
    Adorei o conto gay! :D
    Mas no final, a intenção era resgatar a Joana sonhadora? Quando li essa parte, fiquei com a impressão de que ela estava sonhando e que tudo até agora não passa de um sonho.
    Aguardo a continuação para saber mais sobre esse beijo e o que acontecerá! :D

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  3. Estou adorando o desenvolvimento da história, está indo por caminhos que eu não esperava. Tudo bem que eu já deixei qualquer ideia do que eu achava que aconteceria de lado, é bem melhor para aproveitar o conto assim, me surpreendendo. Dei altas risadas na parte em que Darc entra no quarto gritando "Milady" e Joana devolve um "Tarado", haha, muito bom.

    Mas tenho que concordar com a Mari Mari, tem alguns errinhos durante o texto. Nada que atrapalhe a leitura, claro, deve ser só a pressa na digitação (faço isso o tempo todo, rs).

    =*

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  4. Vamos aos cometários (porque a parte três está a espera pra ser editada também. rs): Nunca que eu pensaria na Gilles como par romântico pra Joana. Mas faz sentido: a pessoa que está do seu lado acaba sendo a mais importante pra você (o problema é que quase nunca percebemos que não precisamos buscar muito pra encontrarmos "aquela pessoa especial"). Agora que desvendamos o motivo da cavaleira ter vindo, fica fácil prever o final. Gostei da forma narrativa do ínicio. Você disse que não consegue escrever do mesmo jeito que eu (de modo simples, eu acho), mas acabou fazendo isso de um jeito muito legal no começo (e quando a Joana está no cavalo, sorrindo). Sério, realmente curti a história.

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    1. Fico muito feliz em saber ^^ Eu achei bem genérico, mas gosto do que faço

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