Não existem príncipes encantados - Capítulo 1: O herói


Cavaleiros numa armadura reluzente. Galanteadores corajosos. O mocinho da história. Coisas em que costumava acreditar, a tal da Joana. Eram as histórias favoritas dela. O cara que salva todo mundo no fim e fica com a mocinha. Ela os adorava, mas não queria ser salva. Ela não era nenhuma ridícula como as donzelas em perigo. Na verdade, algumas situações eram tão idiotas nos filmes que ela saía coçando a cabeça. Ela queria ser forte também, como eles. Como a Joana D’arc, sua personagem favorita. Ela nunca foi. Só herdou metade do nome, e menos da metade da força. Não era uma loira determinada de armadura e pele branquíssima, mas uma míope de cabelo ruim e pele negra. Bem diferente de sua melhor amiga, Guilhermina, a ruiva raivosa. Ou como gostava de chama-la, Gilles. Quando as coisas estavam ruins, Gilles sempre estava lá para apoiá-la. Metade da sua juventude, sua amiga a defendia dos garotos birrentos que queriam grudar chiclete em seu cabelo. Na outra metade, a companheira fazia um esforço extra pra afastar os adolescentes de hormônios em chamas apaixonados de perto da garota. 

O jeito meigo e doce da Joana acabou sendo vítima de muitos maus amores. Algo que não mudou na faculdade, nem depois dela. Parou de criar expectativas. “Não existe príncipe encantado” virou seu lema. Cansou. Continuava saindo com pessoas, mas no fim acabava sendo só mais uma “dormida” pra elas. Virou alguém totalmente diferente. Ao menos tentava parecer. Depois de dar aula, saia e fumava encostada na mureta. Assoprava um monte de fumaça e olhava pros pedestres com enorme desinteresse. E ai se algum mané olhasse torto pra ela, Joana fazia uma cara de matadora e os homens saiam correndo. E apesar de tudo isso, no fundo, ainda havia um pedaço da antiga Joana. A joana apaixonada, sufocada no meio das nuvens cinzentas. Gilles não desistiu daquela joana. Sempre a chamava para festas ou um “rolezinho” no bar. Joana ou recusava, ou ia mas logo saía quando percebia o que estava acontecendo. Ainda eram melhores amigas, de toda forma.

Então, em uma virada do ano, algo inesperado aconteceu. Algo dos filmes. Algo dos contos de fadas. Algo da Joana criança. Gilles arrastou a amiga para mais uma festa, como sempre. Era reveillon mesmo, ela foi. A festa mal tinha começado e lá estava, sentada na sacada, fumando e olhando pra lua com a maior cara de tédio. Gilles puxou a outra cadeira.

– Você não cansa de assustar todo mundo com esses olhos de morta? - diz Gilles para a amiga.
– Você não cansa de chamar todo mundo de volta? - responde Joana
– Eu cansaria, se não gostasse de você demais - ela abraça a estressada forte
– Ah, me deixa, já basta a gritaria que vou ter que aturar daqui a pouco...
– Ué, veio por que então?
– Talvez eu goste de você também... Sei lá.
– OWNT... - ela então vê um risco reluzente passando e sumindo novamente - Uma estrela cadente! Há quanto tempo não vejo uma...
– Vai desejar o que?
– Hum... Eu desejo que você conheça alguém que vai te adorar completamente, a pessoa mais apaixonada que já existiu.
– Ugh... me arrependi de perguntar. Aposto que o primeiro cara que eu conhecer no ano será outro babaca.
– Precisa ser um cara? Por isso mesmo pedi por uma pessoa. Pode ser qualquer um. OW, A JOANA VAI SE APAIXONAR ANO QUE VEM HAAAAAAAHAHAHAHHA
– Calaboca...

E o ano virou. Joana voltou para casa exausta e bêbada, mas não bêbada o suficiente pra levar alguém com ela, fora a própria Gilles, que foi a primeira e desmaiar na cama. Joana sorriu por um momento, a cobriu e beijou sua testa. Depois ficou observando as estrelas e rindo do pedido da amiga. Foi quando uma estrela agiu diferente. Brilhando intensamente, parecia chegar cada vez mais perto de Joana e a observar. A luz se moveu para o horizonte e sumiu. “Devo ter bebido demais”, pensou ela. Deitou abraçada a Gilles e dormiu. O ano começou do mesmo jeito de sempre. Ao menos foi a impressão que Joana teve. A criançada de férias enquanto ela adiantava tudo pro começo das aulas, que não demoraria para chegar. O mês voou e surgiram rumores de alguém de roupas engraçadas montado num cavalo, procurando por alguém. Não sabia dizer quem. “Cada uma que esses jovens inventam”, resmungava ela enquanto ia para o trabalho. 

O primeiro dia de aula. Foi um dia daqueles. Um problema dali, um puxão de orelha daqui, um “guarda o celular”. Eles nunca aprendem. O sinal toca, e a manada corre para fora. Joana estava se dirigindo para a sala dos professores até perceber uma comoção. Correu para fora e encontrou um pai dando uma surra em um dos alunos com um soquete. As mães não faziam nada além de gritar e ficar assustadas. Ela empurra os curiosos inúteis e tenta parar a briga. O pai a joga longe, irritado. “Ninguém vai me impedir de punir meu filho. É o que ele merece por inventar de ser chamado para a diretoria depois de tudo o que fez no ano passado, logo no primeiro dia de aula”. Ela levantou e foi tentar parar aquele massacre quando...

– Que coisa mais feia bater nos pequeninos - uma loira vestindo uma mistura de armadura medieval com botas e chapéu de cowboy, montada num cavalo com várias estrelas pintadas em seu corpo, interrompe a briga. Todos estavam tão distraídos que não viram a cavaleira entrar.

– Não tenho tempo para palhaços. Sai ou te bato também - respondeu o pai furioso.

– Um duelo então? - a mulher misteriosa desce do cavalo e pega uma borracha de apagar que caiu do material da vítima - Minha arma contra a sua então.

O pai limpa o soquete, desfere um soco na mulher e se vira pra continuar a “punição”.

- Vai precisar de mais do que isso para machucar alguém que foi queimado vivo - a vaqueira chama a atenção dele de volta - Minha vez.

Ela aperta a borracha com a ponta dos dedos, que voa em alta velocidade e acerta o homem em cheio, nocauteando-o. O povo ainda está paralisado. Ela verifica se o garoto esta bem e o coloca confortavelmente no cavalo. Se vira em direção a Joana, se ajoelha e beija a mão dela.

– Finalmente lhe encontrei, Milady. Procurei por tanto tempo. Por você, que me invocou num céu estrelado. Eu estava cavalgando pelos universos e senti um formigamento no meu coração, então contornei e atravessei galáxias até encontrar este globo belíssimo, onde a minha amada se encontrava. Meu nome é Darc.

– Erm... Prazer? - responde Joana, confusa.

– Felizmente cheguei a tempo de protegê-la daquele ogro. Nada ameaçará você e quem você amar enquanto eu respirar. Agora preciso ir, aquele jovem necessita de cuidados. Nos vemos em breve, Milady.

A cavaleira monta no cavalo, ajeita o garoto, e cavalga cuidadosamente para não derruba-lo. Sobe na curva da esquina

– Mas o que...

CONTINUA...

Senti falta de escrever Web Séries falidas, então aqui vai uma fresquinha que pensei nesse começo de ano. Sobre a imagem: É na verdade uma figura do Gyro Zeppeli, personagem do manga "Steel Ball Run". Só tirei a barba dele e me aproveitei do fato que ele parece uma moça na imagem. Quem sabe nas próximas partes faço algo mais ORIGINAL pra variar. Logo tem mais pra vocês... Se vocês gostarem né.

Comentários

  1. Estou estarrecida e orgulhosa de você. De alguma forma, suas histórias conseguem me prender e me surpreender. Vamos por partes: 1. Essa imagem é de um mangá? Pensei que fosse de um quadrinho americano...e eu nunca iria perceber que é um personagem masculino com a barba retirada no photoshop. rs. 2. "Precisa ser homem?", eu ri nessa parte. E, claro que amei o inesperado: ser um mulher num cavalo branco. Vai contra o que o leitor espera. 3. Seria estranho dizer que me identifique com a Joana? Apenas esperando a sequência da narrativa. P.S.: Uma mulher usando armadura não chega a ser tão chocante quanto um menino apanhando em público. Gostei da importância dada à coisas realmente relevantes.

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    1. Sim, é de um Mangá. Estranhamente, nesse mangá os caras parecem mais moças mesmo. Não posso dizer que estava pensando em você quando criei a Joana, mas não acho estranho não. A sequência da história ficou mais doida que isso. Fico feliz que esteja orgulhosa, não achei nem que eu conseguiria dividir tudo em tres partesinhas, mas deu certo. Meu sonho ainda é conseguir escrever contos como os seus, mais casuais e sobre coisas reais. Não que eu deteste o que eu escrevo, mas queria pelo menos uma vez na vida escrever algum romance ou drama que não tenha um alienígena robô ou fantasma ou seja lá o que for no meio de tudo. O bicho da vez é a Darc, a cavaleira solitária defensora do amor. Vamos ver o que ela vai fazer na próxima parte ;)

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  2. Príncipes encantados não existem, por isto mesmo é que são idealizados, desejados e sonhados! Tanto quanto princesas que necessitem serem salvadas de dragões ferozes e encasteladas são as mais procuradas e também idealizadas

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  3. Muito interessante e inusitado, gostei principalmente da naturalidade de um amor sem gêneros, apenas de pessoas, seu texto me fez visualizar todas as cenas enquanto lia, e a parte surreal da chegada de Darc no sentido da vestimenta, cavalo branco deu um colorido especial e lúdico, amei a arma usada pela cavaleira ri muito ao imaginar a cena.
    Parabéns ao autor por tanta leveza na escrita. Achei bem interessante o conceito e a criatividade do blog. Aguardando a continuação :)

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  4. Muito envolvente o conto, principalmente o modo como descreve a Joana em trechos como: "Não era uma loira determinada de armadura e pele branquíssima, mas uma míope de cabelo ruim e pele negra"..."E apesar de tudo isso, no fundo, ainda havia um pedaço da antiga Joana. A joana apaixonada, sufocada no meio das nuvens cinzentas". Ótimas sacadas que enriquecem o texto e o tornam prazeroso de ser lido.

    Desde já esperando pela continuação...

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  5. O conto ficou bom, e ao mesmo tempo com um bom tanto de originalidade, não esperava por esse final que houve.

    aguardandoocamaleao.blogspot.com

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  6. Os principes sempre viram sapos! :)
    Vou gostar de acompanhar Joana em sua saga para desvendar o mistério da cavaleira.
    Eventos inusitados no conto, também por isso a curiosidade!
    Beijus,

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  7. Felipe, você escreve muitíssimo bem. Posso dizer que me identifiquei com a Joana, sim. Espero que a “defensora do amor” possa ajudá-la. Gosto de histórias assim, que misturam realidade com fantasia.
    Ansiosa pela continuação!

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  8. Como assim, "continua"? Quero o restante! <3

    Adorei a história, o enrendo, e principalmente a inversão dos papeis, digamos assim: o salvador da pátria ser uma salvadora é tão mais legal! A narrativa é muita boa, me prendeu desde o comecinho. E muita boa, também, foi a ideia de pegar essa imagem de um mangá - que eu não conhecia!

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    1. Steel Ball Run é uma história interessante, sobre um paraplégico que recebe treinamento para voltar a montar cavalo e participar de uma corrida que o presidente dos EUA está promovendo. É um shonen cheio de bizarrices, mas diverte. Tá recomendado pra quem quiser ler (coffcoff Suzi )
      http://i18.mangareader.net/jojos-bizarre-adventure-steel-ball-run/3/jojos-bizarre-adventure-steel-ball-run-1090703.jpg

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    2. Eu ia conferir de qualquer jeito, Felipe XD... Mas não sabia que era o mangá de Jojo's Bizarre Adventure (tô enganada?).

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    3. Sim, é a parte 7 de Jojo. Mas se passa num universo alternativo, então tu não vai morrer se não ler as partes anteriores. Pode ler a vontade.

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  9. Aaaaaa, escreve mais <3 Achei estranho o outfit da Darc, mas fazer o quê, nada nela parece fazer muito sentido... huahauha

    beijinhos ;*
    Nighght

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  10. Gente! Adoro esses contos que começam quase como uma fatia do dia-a-dia (que parecem ser de alguém que vi no metrô) e de repente viram algo... uau! HUHSHUHA
    Fiquei tão maravilhada com a história da imagem que o conto já me ganhou ali, logo no começo. Embora não seja bem um conto, pelo que entendi, mas okei, eu li, gostei e é isso o que importa ♥
    Um beijo, Felipe! :*

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  11. Aguardando pela continuação. A imagem combinou muito com a história. A narrativa bem fluída. Escreves muito bem. Sucesso com a Web Séries. Beijos.

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  12. ADOREEEEEEEEEEEI, já estou aguardando a continuação <3
    Eu me identifiquei TANTO com a Joana que tive vontade de entrar dentro do monitor e viver com ela e Gilles.

    P.S.: antes de ler até o fim, eu já estava shippando Gilles e Joana, me julgue HAHAHAHA

    Burlesque Suicide

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  13. O "Precisa ser homem?" foi a parte mais engraçada. E encantadora, justamente por mostrar que podemos nos surpreender. E por um momento pensei que a Gilles seria a parceira dela... Mas pelo visto não.
    E realmente, depois de um certo tempo, ficamos nessa de não existir príncipes ou princesas, de que a vida é diferente dos contos de fadas e aos poucos nossa esperança de encontrar alguém especial vai se apagando... Até que alguém aparece e essa chama reacende. Acho que parte disso ocorre também por conta de como as pessoas vêem relacionamentos hoje em dia, sem limites nem pudores. Antigamente as coisas transcorriam de maneira mais natural, devagar... Hoje no primeiro encontro já rola praticamente tudo, senão tudo. Uma lástima.

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  14. Mas era pra Joana ficar com Gilles xD
    Sério que na imagem "era" um homem??? Andrógeno!

    Beijos!

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