Íris

Um lugar pacífico escondido atrás dos montes verdes. As árvores criavam sombra para as crianças deitarem depois de cansarem de correr e se sujarem. Os pássaros cantavam nos telhados das casas. Tão poucas casas que se podia contar nos dedos. Os jovens estavam fora namorando ou estudando longe. Os adultos cuidavam da casa ou trabalhavam nas plantações. Os anciões sentavam do lado de fora, observando o horizonte e aguardando os que foram pra cidade e prometeram voltar. Eles veem uma figura se aproximando. Primeiro olharam com estranhamento. Depois uma ansiedade surgiu. Teria alguém retornado? Não, só mais um turista curioso mesmo. Um moço bem vestido, com um fedora na cabeça e câmera pendurada no pescoço. As moças como se não estivessem ocupadas com outra coisa, logo correram e fizeram um círculo em volta do visitante. Algumas faziam pose, outras puxavam-no. As que sobraram apenas observavam com admiração. Ele já esperava um grupo de pais zangados aparecendo, querendo alguma satisfação, porém apenas surgiram dois ou três para umas quarenta moças. Isso sem contar os que estavam fora, os homens e as crianças. Haja vitalidade. Conversou com os velhos e explicou que estava apenas ali de passagem, fazendo fotografias para uma revista. Deixaram ele fotografar à vontade, desde que não invadisse a privacidade dos moradores, nem incomodasse as solteiras... A não ser que conversasse sobre casamento.

Começou o trabalho cedo. Às vezes sentia como se estivesse sendo seguido. Às vezes realmente era seguido. Por olhos carinhosos. Por olhos suspeitos. Por olhos preocupados. E os olhos dele continuavam na câmera. Até se desviarem para outra coisa. Uma mulher. Uma cadeirante. A cadeirante mais elegante que ele já viu. Provavelmente não morava na pequena vila. Na verdade, não parecia morar em lugar algum. Uma mulher sem tempo e sem lugar, em sua cadeira olhando o sol como se fosse sua joia mais preciosa e única, apenas dela. Ele se aproxima. Ela mexe no cabelo e sorri. Um colar em seu pescoço. Nele escrito “Íris”. O homem levanta a câmera e a fotografa. Ela não resiste e posa como pode para as fotografias. Ele está hipnotizado e se aproxima. Tem algo sobre ela que é irresistível. Os instintos dominam. Ela segura o rosto dele e o beija. Escuta uma voz o chamando. Está tudo escuro. Um empurrão e ele acorda, deitado na grama. Uma das moças da vila o encontrou e ficou preocupada. Um sonho? Ele verifica se a câmera está sã e salva e depois cuida de si mesmo. Fez fotos o suficiente. Se despediu dos moradores e voltou para o “apertamento”. No quarto escuro ele revela as imagens. Sente uma coceira no olho esquerdo. Um ponto negro aparece em sua visão. O ponto aumentava de tamanho a cada hora. Lavava e limpava o olho e a mancha não saia. Decidiu ir dormir. De manhã iria ao médico ver o que está acontecendo.

Ele acorda, e já não vê mais uma mancha. Ele vê a mulher cadeirante, só que diferente. Ela está trajada em negro, de ponta cabeça. No lugar de seu rosto há um sorriso enorme de dentes afiados. O fotógrafo leva um susto e levanta gritando, mas não importa onde vá a figura o segue. Então ele escuta uma gargalhada dentro de sua cabeça. “Você realmente acha que pode escapar? O que você vê é na verdade uma projeção. Eu estou dentro do seu olho. Tenho livre controle sobre a luz, então consigo fazer essas coisas. Quando a projeção cobrir sua visão completamente vou te devorar de dentro pra fora. Nada pessoal... Antigamente eu costumava sugar veias e me esconder nas sombras, como todo vampiro. Até resolver estudar e vencer minha fraqueza sobre o sol. Perdi minha força e agilidade, mas ganhei algo interessante em troca. Agora entre em desespero enquanto aguarda a própria morte, é o mínimo de diversão que mereço”.

Correr não adiantava. Tentou ficar no escuro. Fechar os olhos. Pedir ao médico para examinar. Fotografar o próprio olho. Nada adiantava. Quando tinha vontade, a vampira ficava invisível. E Toda vez que tentava prestar atenção em outra coisa ela ria da cara dele. Tudo era um passeio no parque para ela, enquanto ele perdia a razão a cada minuto. No final do dia a projeção já estava com a boca aberta, quase engolindo sua visão toda.  Ninguém acreditava nele. Não conseguia mais sair de casa. Não conseguia se concentrar em mais nada além daquelas presas enormes se aproximando. Então ele tomou uma decisão. A primeira ideia que passou pela sua cabeça, mas não teve coragem de tentar pela primeira vez. Pegou um garfo em sua cozinha e ficou em frente ao espelho de seu quarto. Achou que a criatura tentaria detê-lo, porém tudo o que ela disse foi “Você vai se arrepender. Estou te oferecendo uma morte rápida e indolor”. Ele respira, hesita e, desesperado, finalmente perfura o olho e o arranca fora. A dor é insuportável. Ele desmaia e acorda no hospital no dia seguinte. Seu grito agonizante foi tão alto e inesperado que a senhora que vivia no apartamento ao lado achou que fosse um maluco invadindo e chamou a polícia. Perdeu um olho, no entanto sorria. O pesadelo acabou. 

Uma enfermeira entra e traz o café da manhã, acompanhada do médico. O mesmo informa que recuperaram o olho dele. O dano foi grande, então não existe motivos para guardá-lo. O fotógrafo responde que tudo bem. O médico coça o olho. Parece estar incomodado. Diz que desde a noite anterior tem sentido essa coceira irritante no olho. Nesse momento o fotógrafo repara numa figura sentada dentro do olho do doutor. Quer gritar, mas já é tarde demais. Em um piscar de olhos a cama está em chamas e o paciente sumiu. O fogo azulado desenha um corpo no lugar onde ele estava deitado e depois apaga, sem deixar um traço. Nem mesmo as cinzas dele ficaram para trás. A enfermeira grita e sai correndo. O médico, paralisado de medo, não percebe a mulher atraente e bem vestida se retirando da sala. Uma multidão entra tentando entender o que ocorreu. No corredor abandonado, uma cadeirante levanta e sorri sarcasticamente

“Meu ataque não tem fraquezas...”


♤♤♤

Disse pra a Emilie que iria voltar a escrever meus contos de horror tradicionais, mas acabei escrevendo uma carta de fã para mulheres psicóticas que devoram homens no café... vai entender. E este parágrafo final é só pra avisar que a imagem nada original lá no topo é de minha autoria. Tchau!

Comentários

  1. Eu leio seus textos e fico um bom tempo pensando no que escrever (hahaha). Primeiro porque você é o meu ~protegido~ (◡‿◡), segundo porque tem sempre algo que deixo escapar nas minhas interpretações (*´ο`*). FIRTS (!): Irís = íris do olho (todo mundo com um pinguinho de inteligência deve ter feito a mesma conexão. rs). O curioso é que sou fiz essa co-relação depois que cheguei ao desfecho (so dumb, lol). Deu pra ver como a mulher dominou a vítima. O interessante é que ela se disfarçou de alguém indefeso (vamos dizer assim) para atrair o homem. Uma víbora mesmo (nem tanto vampiro). Essa coisa de destruir de dentro pra fora meio que abre para outras leituras: teria ele enlouquecido? Nah, claro que lá pelo final essa suspeita se desfaz( ´∀`). (A imagem que você elaborou ficou muito boa, aliás).

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    1. Obrigado, o photoshop mas mal feito que fiz. Quero tentar fazer disso um costume, ando sempre editando porcarias pra outros sites então porque não pra cá? Eu ia explicar que ela tava na cadeira porque depois de um tempo começa a definhar por dentro e o corpo fica fraco. Por isso que ela devora pessoas. Mas o texto já tava TÃO grande que eu pensei "bah, watevur". Depois tu me deixa de castigo por essa. Meus textos ainda parecem confusos? Talvez seja por isso que tu perde algumas coisas durante a interpretação. Vai saber. Já to adiantando mais algumas coisas aqui. Espero que adiantar meus textos se torne um costume :3 MAMIS!!!!

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    2. Não parecem confusos, eu que sou uma coisa meio medonha para comentar. rs! Anyway, sobre ela ficar mais fraca...Acho que a parte em que ela diz que costumava agir feito um vampiro (será que errei ou imaginei isso?) dá a entender que a personagem enfraqueceu. Portanto, não careceu de uma explicação. (P.S.: nem manjo do photoshop ._.)

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  2. Meio chocada em como a história começou quase bucólica e no final... Hahahahahaha. Eu também só fiz a conexão de "íris" depois de terminar de ler o texto, sou lentinha. Me lembrou um pouco a mulher no espelho, que aparece em qualquer superfície refletora, no caso, no olho do médico. Eu achei que ele fosse a próxima vítima, sou daquelas que sempre acredita que o protagonista vai se salvar no final eheuheuhe mas não foi bem assim D:


    http://dosdiascorridos.wordpress.com

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  3. Eu nunca acho que meus comentários são dignos quando se tratam dos teus textos... Sério, você escreve com uma propriedade e tem um jeitinho só seu de escrever que nos prende à leitura e nos satisfaz com finais surpreendentes e incríveis.
    A ilustração está linda e reproduz perfeitamente o texto. Se você gosta de analogias - meu caso -, pode ligar a mulher a pessoas que te elvolvem e no fim acabam te "devorando"... Sendo como for, um dos seus melhores textos. Amei, de verdade. Parabéns!

    Beijos, www.empirekawaii.net

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  4. Mas homem, que bizarro! É gostoso esses contos que a gente lê e consegue imaginar a cena direitinho, embora esse não tenha sido tão gostoso de imaginar, tenho uma aflição particular em falar de olho.
    Obviamente só fiz a conexão, também, depois, lerda? Magina.
    E tua imagem ficou muito melhor que as minhas, mesmo tendo tido um baita semestre de photoshop


    http://www.novaperspectiva.com/

    ps: tava com saudades de passar por aqui

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    1. Eu tento. Pior que as imagens que fiz pra um conto futuro deram menos trabalho ainda. Agora que vou fazer Artes Visuais talvez eu melhore mais. Sempre quis fazer uns desenhos originais de personagens que eu criei.

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  5. A repentina mudança de tom no meio do texto me sugou totalmente, gosto muito dessa imprevisibilidade narrativa.

    O Mundo Em Cenas

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  6. Uma história de horror não tradicional, isso posso dizer, gostei do texto, por isso. Talvez porque para mim é meio difícil ver algo que siga essa linha sem ser meio clichê. Enfim, parabéns pelo conto e continue escrevendo!

    aguardandoocamaleao.blogspot.com

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  7. Simplesmente digno de filme! AMEI essa estória :D

    Beijos!

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  8. Essa história...uau
    Tipo, quando eu li "Íris" me veio na mente primeiro o arco-íris, depois a deusa grega do arco-íris que se chama íris, mas depois que me dei conta conta que era a íris do olho (olha só a lerdeza da pessoa)
    Amei mesmo esse conto, super diferente e original. Achei que o cara tava mesmo é louco mas depois do final, baah não tava pirado não haha
    Meu ataque não tem fraquezas... Essa vampira sambou, divou e lacrou hahahah
    Continue escrevendo mosso! Abraços, Pattiency.blogspot.com.br

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  9. Originalidade é pouco; a história ficou tipo muito, muito maneira! O melhor é que pude sentir todas as emoções que a narrativa me passou e, caramba, que agonia! Juro que do meio em diante continuei lendo com a mão em um dos meus olhos, porque meus olhos estavam quase doendo e coçando e vislumbrando uma vampira também. Meeeedo.

    p.s: a imagem do começo... perfeita!

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  10. Um começo tão tranquilo e bucólico que eu imaginei um conto de amor. o.O A virada é bem interessante e surpreendente. Fiquei angustiado com a forma usada por Iris para "devorar" a sua vítima. Aliás, não sou muito versado em histórias de vampiro, mas achei muito interessante o plot da vampira que superou a fraqueza do sol, ainda que com consequências desagradáveis.


    -Distante do Sol-

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  11. Fiquei surpresa com o desfecho da história, pois o começo de forma alguma parecia indicar isso. Vi "terror" na TAG, de forma que já me preparei para isso desde o começo, mas ainda me surpreendi com a trama apresentada. Eu honestamente suspeitei, por um momento, que tinha alguma coisa bizarra no vilarejo, e que ele seria assassinado lá (eu sei, viajei), e adorei estar completamente errada. Mesmo sendo um relato "curto", conseguiu me prender em todos os momentos, me deixando apreensiva até o fim. E meu Deus, ele enfiou uma faca no olho, que desespero! D:
    Parabéns, ficou realmente incrível *---*

    Confissões de um Leitor

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