A roda da saia


Mordia os lábios e sorria, levada. Seu Raciocínio dava um adeus de longe. Fugiu do salão. O jardim parecera cômodo. Sempre a mais perfeita lady, agora... Seu corpo de menina, só atraía aos mancebos daquela noite. Um deles estava a sua frente com cara de bobo, mas que nada tinha desse adjetivo... “Coisas estranhas acontecem em noites de lua cheia...”, convida Melissa. “Percebo...”, diz a tomando pela cintura. Os lábios convidativos se abrem em sinal de um beijo. Ele entende e encosta os seus. O primeiro beijo... pedido, suplicado? Não. Oferecido. Por que se privar agora que se descobriu mulher e, sobretudo, desejada? Brincaria um pouco mais... Faria gracejos pueris e sorriria, ludibriando sua vitima adolescente. Como uma bruxa, uma víbora. Atacaria no momento certo (poderia ser a qualquer instante... quem sabe? Quando lhe desse na telha!). Fugira de regras de conduta, padrões, modelos. Deixe-me em paz consciência, quero viver, me arrepender, me arriscar, amar, cair em desatino... por que não? Só porque você quer? Por que é o melhor para mim? Ora, regras! Deixe-me, essa noite é minha! “... O que houve com você?”, pergunta o garoto. Só agora reconhecera, se tratava de seu colega de classe. Justo aquele que senta atrás, aquele que ninguém percebe, mas que gosta da gente. Lembra dele? Acorda, Melissa, vais cometer um desatino como tanto quer... vais magoar um pobre garoto. Vai se arrepender como deseja, contudo, não é aconselhável... perder a inocência com alguém que mal conhece...Ganhará apelidos horríveis no colégio, ficará mal falada... “Quero me arriscar... só por hoje...”.
 ...
Vozes ao longe gritam seu nome. Ecoam, chegam aos tímpanos e a despertam de seu desvario de menina... Quase na hora agá. Eles emudecem e escondem-se atrás de uma árvore... Ele já estava pensando no tamanho da bronca que levaria dos pais dela. Sorrira, ao vê-la próxima, com o coração na mão. Valeria a pena por ela. 

Teve de dar explicações falsas. Sim, descobrira que mentir poderia não ser tão mau... Revelara seu lado selvagem. Instintiva, como um bicho enjaulado durante muito tempo - solto. Era preciso se adaptar a essa nova realidade – já era uma mocinha. Mais do que isso, era mulher; com vontades, quereres e... A roda da saia rasgou, mostrando parte de sua perna. Não teve jeito, passou uma costura. “Ficou feio...”. Nunca mais seria a mesma.... No dia seguinte, a cabeça doía. Tomara bebida de adultos. Haviam lampejos de memória. 

Segunda, pela manha, sentou no lugar de sempre. O garoto de trás sorria. Gostaria de saber o por quê...

Êêê, mais um conto do meu arquivo pessoal. Dos velhos, porque passei a semana tentando consertar meu netbook. Um aviso: nas próximas semanas o Felipe irá postar uma história que ele esteve compondo. Comentem, viu? Percebi que o número de comments no post dele caem. Saibam que eu retribuo todos os que caem nesse blog. 

Imagem: Skirt by miimork

Comentários

  1. Nunca vou conseguir escrever algo como isso. Me familiarisei. As descobertas... São boas, mas ao mesmo tempo estranhas. Foi o que senti. Amo essas "velharias" que anda postando, quero ver muito mais

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  2. PS: Eu já vi esse desenho em algum lugar... hum...

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  3. Ai meu Deus, genial. Ah, a juventude, podia durar pra sempre, né? Tenho medo danado de largar essas loucurinhas pra trás.
    O conto ficou lindo, tem aquele gostinho de suspense adolescente do começo ao fim, e ao esmo tempo uma maturidade que só se encontra em texto de gente grande, principalmente das grandes de alma.

    http://www.novaperspectiva.com/

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  4. Sua descrição da garota é admirável Emilie. Pude perfeitamente imaginá-la com o seu tom provocante, a insinuação da volúpia, o embate com a consciência... Enfim, uma descrição física e psicológica rica e envolvente.

    O certo é que ela jamais será a mesma.

    Beijos

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  5. Primeiramente, o conto ficou magnificamente bem escrito. Deu para sentir bem ambientação e os sentimentos da personagem. As primeiras descobertas, ainda mais nessa fase da vida, são inesquecíveis. Beijinhos.

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  6. Adorei o conto, como sempre! Amo as palavras incomuns utilizadas por aqui sempre :) É bom pra relembrar de algumas palavras que vem sendo esquecidas no dia a dia :}

    Beijos!

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  7. Esta história relembra-me os livros antigos que obtive que retratam a etiqueta que seria recomendável ter para disfarçar alguns pensamentos "proibidos". E alguns livros juvenis que são mais atuais por descrever pensamentos de um adolescente.

    Cumprimentos e boa continuação de trabalho, http://raiosqueparta.blogspot.pt

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  8. Bela definição do que é crescer, posso dizer que apesar de ser um texto curto, foi bem escrito. E vou ficar de olho por aqui para comentar nos próximos posts :)

    aguardandoocamaleao.blogspot.com

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  9. EU não vou dizer que o conto ficou bem escrito, pq isso já deve ser um clichê aqui no blog. Se bem que, elogios são sempre bem vindos, então vale dizer que seu texto ficou do caralho, como sempre. Me lembra Lolita, não pelo tema, mas pela narrativa, a criança que brinca com seu próprio recém-descoberto poder. Muito bom, mesmo.

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  10. Achei um amorzinho o conto, e super divertido - mas fiquei imaginando primeiro uma coisa de décadas atrás e depois uma cena atual, daí me perdi na linha temporal da coisa toda. Pode ser só porque sou lerda mesmo. D:
    De qualquer forma, gostei da temática, hahaha! Mas fiquei com dó do garoto - não dó, assim, mas me identifico com ele, então acho que fico do lado do rapaz. Poxa Melissa, não quebre o coração do guri. :<
    (Daí você resolve fazer uma continuação e ele na verdade é cachorro, HAHAHAH, é minha cara me identificar com personagens assim -q)

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    1. É que, na verdade, deveria ter sido um conto "datado" (você percebeu que a linguagem começou de um jeito e terminou de outro)...porém, ele acaba mudando na metade da história. Sorry pela confusão :'D

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  11. Gostei dessa garota. Parece ser forte, decidida, não se prende a regras e valores ultrapassados. Mas será que ela só estava assim por causa da "bebida de adultos". Espero que não.
    -Distante do Sol-

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  12. Que amor de conto! É o primeiro texto deste blog que eu leio, e já me apaixonei pelo blog. Emilie, sua escrita é tão leve e gostosa... Deus, que conto bem escrito! Parece até o prólogo de um livro. Gostei da coragem da protagonista, só foi triste isso de ela não se lembrar de nada na segunda de manhã. Colegas de classe apaixonados, tão fofos <3
    Vai ter continuação? Espero que sim!
    Vou ler o 1º capítulo da história do Felipe agora.
    Beijos ♥

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  13. Faz lembrar a astuciosa Lolita. Tão sutil, tão voraz.

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  14. Só uma frase: seus textos são muito muito, muito bons! ♥

    Me apaixono toda vez que venho aqui. Às vezes não comento mas é porque não comento sem ter algo para falar de verdade, mas sempre tô lendo aqui, tanto que teu blog tá no meu blogroll desde a primeira vez que vim aqui.

    Eu não sei porquê, mas eu me identifiquei tanto com a menina do conto ♥ kkkk

    Beijos!

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  15. Hahaha, o álcool e suas malezas. Por um lado fico triste porque o garoto espera que ela se lembre e ela não se lembrará tão fácil, presumo. E assim ele talvez vá sofrer.
    E ela se descobrindo, aproveitando da descoberta... De deixar as regras sociais de lado e deixar seu lado selvagem dominar... É algo bacana de ser explorado! Adorei tua narrativa!
    A propósito, perdão pela demora em vir aqui comentar. :(

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