Bebida Misteriosa

DISCO FEVAAA by fuckitznikki
As luzes balançavam com a música eletrizante das caixas de som. Samanta pulava, deixando seus longos cabelos alcançarem os ares - apenas para voltarem e baterem no seu rosto suado. O vermelho, o azul, o roxo, o amarelo a confundiam. Tudo de uma vez, brilhando e enlouquecendo sua mente. Um gole de uma mistura estranha. Uma pílula branca mesclada com um líquido quente. “Cara, o que você pôs no meu drink?”. “Relaxa, gata, logo você vai ver o barato”. Ela piscou centenas de vezes, o salão rodava. Se apoiou no balcão do bar...na cadeira...no chão. “Alguém...me ajuda..”, falou com a voz silenciada pelo barulho. A moça sentada ao seu lado riu. Vira a mesma reação um milhão de vezes. O homem sorriu para a mulher que observava Samanta no chão. Ergueu uma sobrancelha, cumprimentou com o copo levantado. “Tem mais dessa droga misteriosa?”. “Apenas para os novatos, princesa”. 

Samanta teve um déjà vu  – como da vez em que caiu da escada – sua vida passada na sua frente. “Vou morrer. Meu Deus, vou morrer, me salva. Me ajuda. Não...”. “Eu te ajudo”. - disse um rapaz alto - “Não tem vergonha, Rodrigo?” - enviou um olhar furioso para o homem que serviu o “veneno”. Era hábito de Rodrigo drogar as garotas para abusar de seus corpos. Somente as novas  demais para resistiram à substância. “Olha, moça” - direcionou a face dela para ele - “Te darei algo pra combater isso. Vai ficar na minha casa até amanhã” - falou devagar. Samanta conseguiu centralizar nos olhos do estranho rapaz - “O-obrigada”.

No dia seguinte, ela acordou num sofá de couro e cercada por paredes de vidro. “Aqui, toma” - o estranho ofereceu café. Por um instante parou e encarou o líquido. “Haha, não tem droga aí”. “Como vou saber...?”. “Me dá um desconto, eu te salvei”. Vários minutos foram intercalados pelo silêncio e estupefação de Samanta. Onde estivera? O que aconteceu com seu pobre corpo...? “Você não abusou de mim, abusou?” - puxou o cobertor. “Não. Mas poderia. E aquele cara que te ofereceu um drink teria te estuprado”. Ela se encheu de vergonha e arrependimento. “Pois é, mas deixemos isso pra lá. Tome um banho e me dê seu endereço. Deixarei você em casa”. 

“Espera. Qual o seu nome?”. “Gabriel”. “Como o anjo”. O rapaz soltou um riso alto. “Não. Nada a ver”. “Se você me salvou mesmo, és um anjo”. “Ok, moça, vamos parar por aqui? Seja mais atenta na próxima e não vai precisar de ninguém pra te resgatar de caras estúpidos em baladas”. O fato era: Gabriel era dono do lugar e vistoriava a movimentação a cada hora. Rodrigo era um covarde que não valia um tostão e fora expulso inúmeras vezes do local. Ontem fora um acontecimento feliz ele poder impedí-lo

♤♤♤

Já tentaram compor ouvindo música? Eu nunca, porque sempre atrapalhava o meu fluxo de pensamento. Hoje fiz isso ouvindo música pop. (Ah, a Yuu disse que minhas histórias careciam de desfechos. Confesso que deixava as coisas "no ar". Estou mudando isso( ´∀`). 

Comentários

  1. Lendo alguns de seus contos percebe-se que as coisas ficam no ar mesmo. Mas eu não acho um mal. Quer um exemplo? No Cyberconto ficou perfeito aquele final. Acho que finais devem terminar daquele jeito, narrativamente falando, com uma única frase, de efeito aliás, que seja poderosa e lembrada, tal como a frase de início (que no lugar de lembrar, mantêm o leitor no texto).

    A única coisa que me incomoda é a narrativa cinematográfica, que mais parece um roteiro de audiovisual que um texto literário mesmo. É algo que os escritores hoje em dia dificilmente evitam, até porque é difícil e parece fazer parte de algo maior do século, uma nova cultura literária. Nem eu escapo. Infelizmente o texto acaba por perder valor literário e se torna aquilo que "ficaria melhor se fosse um audiovisual". Não é uma crítica, já que não posso apontar nada nesse aspecto a não ser avisar para almejar algo exclusivo da literatura. Ou seja, quando escrevo os meus contos, tento fazer algo que nenhuma outra mídia (cinema, quadrinhos, jogos) consiga imitar. Alan Moore faz a mesma coisa com as HQs dele, por isso Watchmen e V de Vingança, os filmes, são horríveis.

    Na parte em que você escreveu

    "Era hábito de Rodrigo drogar as garotas para abusar de seus corpos. Somente as novas demais para resistiram à substância."

    Acho que seria mais interessante se essa informação fosse passada por diálogo. Remete um pouco àquela questão do "Não conte, mostre". Por outro lado, isso agilizou o conto (se esta era a intenção). Como tem bastante uso de diálogo, sei lá, creio que ficaria legal contar logo por diálogo.

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  2. Eu gostei muito do texto, talvez porque esse é um assunto muito delicado pra mim: estupro e culpar a vítima. E essa situação do texto é muito frequente, muitas meninas passam por isso mas sequer contam porque há sempre o discurso de que elas deviam ter se cuidado. E elas acreditam nisso. O álcool condena as atitudes da mulher e justifica a dos homens...

    Mas enfim, eu realmente gostei muito do texto, só a parte dos diálogos que eu achei que estava faltando algo. Não sei dizer bem o que, pois não sou nenhuma escritora rs. Talvez eu tenha achado os diálogos um tanto frios para um assunto que é delicado para mim. De todo modo o texto é ótimo!

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  3. Optar por não dar um desfecho e deixar a historia no ar sao duas coisas bem diferentes. Acho que as vezes o desfecho ficava em aberto nos seus textos sim, mas isso não fazia com que eu sentisse que "faltava alguma coisa". Sempre os achei muito bons, incluindo esse atual. Bem, se o texto fosse meu, o estupro teria acontecido, mas nao é. Na verdade, eu passei a leitura toda achando que Gabriel era na verdade o estuprador, e estava enanando totalmente a protagonista rs
    Gostei do texto. Foi inesperado, pra mim, e como sempre, muito bem escrito.

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  4. Concordo com a Mari, os finais do seus contos geralmente ficam em aberto e, particularmente, essa opção enriquece o seu texto, não subestima o leitor. Acontece que a ampla maioria está acostumada a ler histórias redondas que tenham um início, meio e fim bem definidos, assim como nos filmes.

    Concordo em partes com o Lucas, a literatura e o cinema são artes complementares. Atualmente, é inevitável que ao assistir a um filme não imaginemos como seria o livro ou vice e versa. Por exemplo, eu não acredito que um romance perca o seu valor literário quando é adaptado para um roteiro cinematográfico. Apenas é uma outra forma de enxergar a mesma coisa. Claro que erram mais nas adaptações do que acertam, mas acho que isso só expande o valor da obra.

    Sobre o conto, diálogos ágeis, narrativa frenética, descrições precisas e sucintas, e um estilo que sempre me prende nos seus textos Emilie. Esperava por um final mais pessimista, mas isso é um gosto pessoal que não diminui em nada a qualidade do seu texto.

    O Mundo Em Cenas

    Beijos

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  5. Acho que é mais fácil dizer que os quadrinhos e o cinema são complementares. Em quadrinhos é até comum fazer uso de narrativa cinematográfica, já que os storyboards de cinema são histórias em quadrinhos por si só. Ainda assim, é questão de campo de arte, mídia e exclusivismo de mídia. Certas coisas só o cinema pode fazer, só os jogos podem fazer, e por aí vai... Um exemplo disso são os próprios animes e filmes de computação gráfica ou desenho animado: algo simples como uma batalha intergalática de mechas (um robô gigante) jogando galáxias um no outro seria inconcebível para filmes, que são mais pautados na realidade e exige mais esforço do público na suspensão de descrença.

    Mas é evidente que desde o surgimento ele influenciou vários outros campos de arte. Eu ouso dizer até que "maculou" os outros campos, pois tudo parece estar condicionado a se tornar filme. Entende? A finalidade é virar filme, tornar-se audiovisual. Não é um mal tornar-se audiovisual, seja ele um longa-metragem, um curta ou um desenho animado. É que eu vejo os escritores que escrevem narrativas cinematográficas como aspirantes a cineastas mas preguiçosos demais para comprarem uma câmera, estudar técnica de gravação e, enfim, passar por todo o trabalho que um diretor passa e fazer uso apropriado daquele roteiro. No fim o texto se transforma quase em um roteiro literário, subordinado a um cineasta para dar vida, forma, ao enredo e aos personagens, e é como disse acima, vira algo que "seria mais bonito nas telonas." Tem poder imagético, poder ativo (ação) e apresenta formas e conceitos criativos e interessantes, mas não funciona no meio que foi feito, no texto.

    Tem até uma frase que não lembro se é atribuída ou não ao Hitchcock, mas que sumariza tudo isso que eu estou dizendo: "Se o livro é ruim, dará um bom filme."

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    Respostas
    1. Como você disse, tornar-se audiovisual não é demérito algum. É inevitável que, com a consolidação do cinema na indústria de entretenimento, qualquer história seja passível de sofrer adaptações cinematográficas. Apesar disso eu não vejo escritores escrevendo histórias com o exclusivo intuito de se tornarem filmes, por exemplo: (sem puxar o saco) eu não acho que o texto da Emilie ficaria melhor no audiovisual, para mim o valor literário dele está intacto. Ao meu ver, o conto é autossuficiente.

      Há inúmeros exemplos e contraexemplos, mas eu não me lembro de um livro ruim que se tornou um bom filme.

      Bom, de qualquer forma, acho muito interessante essa relação livros x filmes, e agradeço o debate saudável.

      Abraços

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    2. Fiquei de conferir os comentários depois e.......achei que o Lucas foi rude.

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  6. Acho que deixar as coisas no ar não é necessariamente algo ruim. Tudo depende do tipo de mensagem ou impressão que se quer passar, às vezes a única forma de terminar um conto com chave de ouro é deixando o final implícito. Mas falando agora a respeito do conteúdo desse conto, tenho que dizer que me lembrou exatamente o que minha mãe me dizia quando era mais nova, "nunca aceita bebida de estranhos numa festa, pois pode ter algo ali que vai te desorientar e ele pode daí se aproveitar de ti".

    Mudei a url do meu blog: aguardandoocamaleao.blogspot.com

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  7. Ah, Suzi! Sinto muito se você me entendeu mal. Eu não quis dizer que suas histórias careciam de desfecho - eu sempre gostei da maneira como você escreve, e volto aqui justamente porque a sua característica de deixar pontas soltas, para instigar a curiosidade do leitor, me fisgou. Perdi a conta de quantas vezes fiquei imaginando as possibilidades das sequências dos seus contos. O que eu quis dizer em relação às lacunas em branco da última vez, foi isso. As duas meninas foram mencionadas, e os nomes me chamaram tanto a atenção, que fiquei curiosa quanto ao papel delas na história. Mas eu entendo que o fato de isso não ter sido explicado faz parte do recurso narrativo que você utiliza. Por favor, não altere a sua escrita por minha causa, eu me sentiria péssima! Gosto dos seus contos da maneira que eles são. Os temas, inclusive. Às vezes me dou conta não penso muito nos cenários que você aborda. Sobre este, por exemplo, tenho minha opinião formada que qualquer tipo de abuso é abominável. Mas, infelizmente, haverá um ou outro "ser" que vão praticá-los. Fiquei feliz pelo seu conto ter tido um final do bem. Pode ser raro, ou podemos não enxergá-las com a mesma frequência, mas pessoas com caráter existem, e renovam nossa fé na humanidade. Adorei! :) Continue fazendo o que fazes, menina. Beijinhos. ♥

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  8. Infelizmente esse texto reflete uma realidade presente - e alarmante nos dias de hoje. Aproveitadores que drogam as bebidas para abusar das mulheres. É triste, mas ocorre. A história bem fluida, com diálogos bem intercalados. Curta, mas com uma mensagem pertinente. O fim fica no ar, mas isso é muito bom, o tema favorece.

    Gostei!

    Sentia saudades...

    ps: fiquei afastado por conta da faculdade, mas estou de volta rs

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  9. Poxa, eu na verdade acho que a "falta de desfecho" é um charme. Porque parece uma fotografia: foi tirada naquele momento, e a gente nunca vai saber o que aconteceu antes, depois... temos um momento, e é isso aí. Haha! xD
    Achei o texto bem rápido - mas considerando o local e o que está acontecendo, acho que faz sentido que aconteça rápido demais e fique até confuso. Mas gostei que o final foi feliz. Isso me surpreende: acho que a maioria dos textos seus que e leio, sempre terminam bem de alguma forma, pra alguma das personagens. :D
    Sobre compor com música, só consigo escrever algo se estiver ouvindo algo inspirador. XD Acho sucesso! Espero que você consiga mais momentos assim ♥

    Beijo!

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  10. Vai ter continuação? Fiquei curiosa. Achei que o Gabriel tinha estuprado a menina, mas não. Achei ele suspeito HAHAHA. Muito bem escrito, me fala que vai ter continuação, sim?
    Beijos!
    http://www.canseidesernerd.com/

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  11. Ficou massa! Me "soou" como um capitulo do dia-a-dia, como se fosse um amigo contando a história de um amigo dele, ou como se estivessmos vendo de um 3º ponto o desenrolar diante dos olhos.
    Deixar o desfecho aberto é bom pra quem gosta de deixar a mente ir longe, mas ruim para quem quer tudo pronto. Maneiras de ver a vida, não se sinta obrigado a fazê-lo sempre... não precisamos ter as respostas de tudo nem pra viver, que dirá para escrever. Escreva para alimentar sua alma, não o volume de elogios [nunca haverá agrado unanime], se me permite o "conselho". Sou suspeito para falar sobre compor com musica pois até série de textos inspirados por música tenho [coincidencia até você ter comentado em algumas oportunidades neles, perguntando o quão ficcional eram. São 80%, geralmente :)].

    Excelente 2015 pra ti!

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