Vista Turva

Starsleep by eatmeupinside
       Os olhos ardem. Que liquido é esse? Por que não consigo comandar o meu corpo? Ele faz parte de mim, mas não me obedece. Acalme-se.  Não se entregue tão fácil. Aguente firme! Logo isso passará. “O tempo”, como dizem ,“é o melhor para essas coisas”. Que conselho estúpido! Nunca poderemos saber por quanto tempo nossos olhos arderão numa torrente de lágrimas. Por que não me obedecem? Não consigo parar. Mesmo se eu fechá-los, as lágrimas escaparão pelos cantos. Alguém me ajude, estou afundando! “Alguém ,alguém!”, diz num grito desvozeado. Por que ninguém me nota? Eles fingem não saber. Ignoram aquilo que não entendem. “Deixe-a sozinha, ela se cura”, é o que dizem pelas minhas costas. Falsos! Ninguém me entende! 

            “O que a Maria tem hoje, mãe?”. “Dor de cotovelo”. “Ela se trancou no quarto...mãe, o que é dor de cotovelo?”, diz Anna de apenas quatro anos. “É quando você gosta de alguém, mas esse alguém não gosta de você.”. “Vixi. Nunca quero gostar de alguém então...”. “Por quê?”. “Ficar chorando pelos cantos. Ela está triste, mãe?”. A mãe fez que sim. A menina ficou pensativa. Puxou a saia da mãe e disse: “Mãe, eu vou ver se ela quer ajuda”. A mãe sorriu, passou a mão na cabeça da menina. “Você não pode ajudá-la. Às vezes, as pessoas precisam ficar sozinhas”. Mesmo contra o conselho da mãe, ela vai ao quarto. “Mana, abre”. Lúcia abre a porta. Está com os olhos vermelhos. A pequena Anna dá os braços. Lucia entende e a abraça. “Mana, onde está doendo?”. Ela a abraça com mais força ainda. As lágrimas correm soltas, sem pudor.  A menina não compreendia as coisas do coração, mas preocupava-se. Alguém se importou. 

***
Gostaria de comunicar três coisas: 1. Obrigada aos leitores-amigos que sentiram minha falta ♥, 2. O cronograma do blog mudou: a submissão de contos está suspensa (por ora), e os dias de postagem ficaram mais distantes (porque estou voltando aos poucos), 3. Esse conto é antigo. 

Comentários

  1. Esse conto é lindo! Ele me lembrou um trecho de uma história em quadrinho do Neil Gaiman. As vezes a gente esquece o quanto um abraço pode confortar as pessoas que sofrem grandes e pequenas aflições. As vezes a gente esquece que muitas vezes as pessoas não querem que nós resolvamos os problemas dela, elas querem apenas que nós as confortemos um pouquinho.

    Cheros, Pandora.

    E sim, vou deixar o trechinho de Gaiman, porque acho ele tão bonito e combina tão bem com o sentimento que o texto me despertou.

    "Ele só queria.
    Ele só queria alguém que se importasse com ele.
    Alguém que lhe desse um abraço.
    Alguém que lhe aquecesse.
    Ninguém queria.
    Quando eu te abraço no escuro, o escuro não vai embora.
    Coisas ruins continuam a existir lá fora.
    Os pesadelos ainda caminham.
    Quando eu te abraço não é mais seguro, mas é melhor.
    "Tudo bem", a gente sussurra.
    "To aqui amor".
    E mentimos: "Nunca vou te deixar".
    Por apenas um instante o escuro não é assim tão ruim.
    Quando te abraço."
    (Neil Gaiman, Abraço, pg. 24 In: Dias da Meia-Noite, pg. 100)

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  2. Olá, Emilie, bom dia!

    Estou meio perdida, sem saber o que falar, porque ainda estou tentando absorver todo o conto. É breve, mas causa um grande impacto. Não consigo nem contar quantas foram as vezes que não me sentia bem, que estava triste por algum motivo, e precisava de um conforto que nunca vinha. Às vezes você não quer - ou mesmo não sabe como - falar, mas só de saber que alguém está ali, que alguém se importa, já faz uma mega diferença.
    E acho triste como muitas pessoas tendem a negligenciar a tristeza ou o sofrimento dos outros, julgando por si mesmos o quanto a pessoa está sofrendo e o quanto ela é capaz de aguentar por conta própria. "Deixa disso, é besteira, vai ficar mal por uma coisa dessas?". Desde quando somos juízes para determinar por qual motivo uma pessoa pode ou não ficar triste? Ou por quanto tempo ela pode se retirar para lamber as feridas, sem chamá-la de fraca ou covarde? Posso parecer dramática ou exagerada, mas tenho uma amiga que sofreu e muito por causa desse tipo de julgamento, e não desejo isso para ninguém.
    Parabéns pelo conto, ficou muito bom <3
    Beijos e ótima semana!

    http://confissoesdeumleitor.wordpress.com/

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  3. Hey u! Antigo mas eu não havia lido... Preciso ser breve, achei o conto maravilhoso mas, vou destacar um trecho que traduz ele todo "Alguém se importou", isto me jogou numa reflexão intensa sobre como esse é o detalhe mais reconfortante da vida, não? Até tive que reler o texto para ver se eu o havia interpretado da forma certa, mas cada um vê ao seu modo rs e isto soou e, cada vez que penso, continua soando de forma tão encantadora *.*

    Ah essas palavras <3

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    1. Haushausaj, antigo, sim. Mas saiu num blog igualmente velho (e inexistente hoje) - duvido que alguém tivesse o feed daquilo guardado. :>

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  4. Tem momentos que a gente não precisa se compreendido com palavras, um bom gesto de carinho - como um abraço - consegue curar bem mais coisas do que um discurso cheio de palavras ensaiadas. Conforto, acalma e nos faz sentir protegidos e queridos. Acho que poucas coisas na vida são tão boas quanto um abraço. Ah, e pra não perder o costume: lindo texto!

    (e como assim? nem todo mundo lê antes de comentar? que diabos!)

    Beijo, beijo!

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  5. As pessoas dizem coisas como "ela precisa de um tempo, ela se cura sozinha" e fingem que realmente acreditam nisso, mas a verdade é que todo mundo só quer empurrar a sujeira pra baixo do tapete e fingir que não é nada de mais. As pessoas querem se poupar do "trabalho' de tentar ajudar. Triste, mas real. Antigo ou não, amei o conto!

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  6. Ah que lindo... Estou meio sem cabeça hoje para comentar sobre as coisas do coração mas vou logo dizendo, que o texto abordou de uma forma tão legal o modo que o sentimento de uma pessoa não pode ser mudado por outras tão facilmente mas as outras pessoas podem dar certo conforto as que sofrem desse mal (dor de cutuvelo), mesmo com simples gesto de uma pessoa tão inocente. Muito lindo.

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  7. Quando uma pessoa está mal, ela nunca precisa ficar sozinha, pelo contrario, o que ela mais precisa no momento e de alguém que possa estar ao seu lado, não tentando reconfortar com palavras, mas o simples fato da pessoa estar lá... Já é maravilhoso.
    Abraço.

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  8. Depois de um longo tempo, eu estou de volta. E fico feliz em retornar a ler o seu blog. Que maravilha de conto. Já me senti muito assim. Aliás, eu acho que todo ser humano já se sentiu assim. É tão bom ter alguém ao lado nesses momentos difíceis da vida. Beijos.

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  9. Oe! :) começando o comentário pedindo desculpas pela IMENSA demora a responder o teu <3

    A tua Anna me lembrou a Anna de Frozen, quando ela bate na porta da Elsa convidando pra brincar na neve <3
    Mas é real, às vezes os melhores conselhos parecem estúpidos quando colocamos em prática, pq só depois que sara ficamos sabendo que são os melhores conselhos. A carne trabalha de forma diferente da mente.
    Adorei o conto, mesmo sendo antigo!

    Um beijo!

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  10. Suzi, o primeiro parágrafo do teu texto poderia muito bem ser uma descrição de como eu me senti inúmeras vezes nessa vida. Não pelo motivo apresentado no segundo parágrafo, mas mesmo assim, sei bem o que é ter uma visto turva. Outra diferença é que eu não sei se fui motivo de debate do outro lado da porta e também não tive ninguém que batesse nela para saber como eu estava. Cachorros não precisam fazer isso. Então, o que eu posso dizer? Seu texto é extremamente sensível, e eu adorei isso. Beijinhos. ♥

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  11. Muitas pessoas, ao testemunhar o outro sofrer, omitem-se ou discorrem aforismos superficiais: "Isso passa, não se preocupe... Nada como um dia após o outro." Elas não gostam de se envolver nos problemas alheios, não querem ser "contaminadas" por uma melancolia que não suportariam lidar. Não querem que a pessoa que está sofrendo estrague a falsa felicidade delas. Por isso que não é de se surpreender que a iniciativa de se importar com a angústia alheia tenha partido de uma criança, de uma pura e sincera criança.

    Seu texto foi muito feliz em captar a banalização da solidão e do sofrimento de uma pessoa que realmente precisava de um verdadeiro abraço e não de conselhos recicláveis.

    Beijos Emilie

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  12. Meu Deus, que palavras lindas! Muitas pessoas não entendem exatamente, ou simplesmente acham que tudo aquilo é besteira, que "vai passar". Nesse momento o que mais precisamos é de uma atenção, de alguém que nos entenda. Neste caso, não foi alguém que entendesse, mas que estava realmente a fim de ajudar, com um ato tão simples mas que ajuda bastante ou até totalmente. Você interpretou muito bem. Você tem bastante talento. Estou simplesmente amando seus textos. Beijos, Emilie >3<

    http://gave-wrong.blogspot.com.br/

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  13. Ai, eu chega me emociono com textos assim. Me identifiquei bastante e até fiquei assustada por ser tão "eu". Você tem inspiração demais, como arranja tanta assim?

    sugar-purry.blogspot.com

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  14. Você descreveu exatamente como a maioria das pessoas agem hoje em dia em relação a qualquer tipo de dor, de tristeza.
    A mãe significa nossos amigos, nossos irmãos e até mesmo nossos próprios pais, que ao estar numa situação dessas, prefere "deixar" a pessoa que se encontra com o coração partido (seja lá o porque) sozinha.
    Esse texto demonstrou o tão egoísta são as pessoas que se iludem pensando que o melhor a se fazer nesse tipo de situação, é deixar o alguém sozinho.
    A criança, a tal Anna, é a maior prova que a solidão não cura tristeza, não cura coração partido; pois quem cura tudo isso, não são conselhos também, mas sim um abraço sincero.

    Como sempre, texto lindo!
    Beijos, Emi.

    @blogamandismo | Amandismo

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  15. Seus contos sempre têm uma reviravolta, na minha opinião, e eu acho que é justamente esse fator que os fazem tão interessantes. O mais legal é que não deixa de ter uma continuidade, então de fato é muito mágico ♥ Também adoro as imagens que você escolhe! Ai, nossa~

    Sobre o conto em si, achei... curioso. A princípio (como sempre) imaginei um cenário totalmente diferente, que foi mudando com o passar das letras. A personagem mais interessante pra mim foi a mãe, pois a princípio me deparei com uma mulher mais dura, que não ligava muito pros draminhas adolescentes da filha, mas depois concluí que ela é, na verdade, uma mãe muito carinhosa, mas que talvez não saiba lidar com as demandar da mais velha simplesmente por não conhecê-las. O que me faz pensar que às vezes queremos que as pessoas nos deem algo, e eles não dão só porque não pedimos, né?

    Fiquei feliz que a pequenina Anna foi determinada e conseguiu "salvar o dia", haha! ♥

    Um beijo :*

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  16. Eu estou completamente sem palavras, que conto maravilhoso que eu acabei de ler. Compreendi a mensagem principal, ou creio ter interpretado como uma lição. Nos momentos mais depressivos, precisamos sempre de alguém ao nosso lado para nos manter "de pé", para ser o alicerce para que não desabemos. Eu estou profundamente grata por ter compartilhado este conto tão belo connosco, realmente tocou o meu coração. A inocência e pureza de Anna, gostaria de ter uma Anna na minha vida. O conto está bem elaborado, é rápido e dirige-se logo ao ponto, a introdução transmitiu muito bem as sensações da Lucia. Tal como este conto explica: existe sempre alguém que se importa. Muitas mais pessoas deveriam lê-lo!

    Criei uma conta no Bloglovin apenas para segui-la pois não encontrei o sítio habitual.

    fume,
    SD.

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  17. Senti vontade de chorar nesse post. Já passei por uma situação um pouco parecida, mas eu não tive a sorte de Lúcia de ter uma irmãzinha como a Anna na minha vida.

    Acho que o que tornou esse conto especial foi o fato dele ser bem pequeno e significar tanto. E como crianças tem uma visão tão enxuta do mundo, elas não enchem de problemas tudo que a gente vê, como a maioria das pessoas fazem quando crescem. Para elas, um abraço já é uma solução para todos os problemas. E se realmente esse ato não for a solução, ameniza pacas a dor no momento.

    Enfim, um ótimo conto.

    Beijos Emilie

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  18. Você escreve bem demais, menina... De um jeito delicado e tocante! Gostei muito!
    Beijos!

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