Crítica de cozinha extrema dos anos 90


A cozinha está limpa e preparada. Lenços nas mesas. A gerente em pessoa aguarda a chegada do crítico. Ele já destruiu vários restaurantes. Vidas e reputações arruinadas para sempre. Aquele era o melhor restaurante de comida asiática da cidade e ela não deixaria qualquer um acabar com o lugar. Foi passado de familiar para familiar. Seria uma desonra gigantesca perder clientes. 

Ele chega atrasado, mas com cara de quem tem todo o direito de aparecer quando quiser. As ombreiras gigantescas quase não deixam ele passar pela entrada. O cheiro intragável do charuto chegava até a cozinha. A gerente se aproxima do cliente especial. “É proibido fumar no restaurante”. O homem olha para a gerente com olhos de quem já matou. A gerente responde igualmente. O crítico larga o fumo e pisa nele com sua bota, como que pisando numa barata. “Vamos logo com isso, tenho mais restaurantes para arruinar”, exclama o visitante. “Este será o último”, diz a gerente ao puxar a cadeira. Ela entrega o cardápio. 


O silêncio preenche o salão. Os funcionários se escondem atrás do balcão. O crítico pede uma sopa de macarrão e uma soda diet. A gerente em pessoa se dirige a cozinha. Os cozinheiros estão tremendo. Ela ordena que saiam. Uma manada de branco passa pelo crítico, que sorri sarcasticamente. A gerente põe todos os ingredientes na mesa. Pega uma faca, joga os legumes no ar e os corta numa velocidade espetacular. A sopa estava pronta em pouquíssimos minutos.


O jantar está servido, sem derramar um pingo de suor. O crítico procura esconder a surpresa. “Demorou...” diz ele. A gerente tira poeira do kimono e responde “Excelência exige tempo e dedicação”. O jantar parece levar horas. O crítico demora em cada porção, fora o tempo que ele leva pra mastigar e brincar com a comida dentro da boca. O pote está vazio. “Que sopa mais aguada... Quase não senti os ingredientes”, reclamou ele. “Talvez seu estômago seja medíocre demais para saborear o verdadeiro poder da minha comida”, respondeu a gerente “Sem soda para você”. “Façamos o seguinte... Você sai comigo com esse vestido maravilhoso e eu vou TALVEZ considerar uma pontuação boa. Afinal, suas pernas foram as unicas coisas boas de se ver no restaurante”. A gerente diz com desprezo “Minhas pernas são umas das poucas coisas que você deveria temer”. “Que seja então” o crítico levanta, respira fundo e saca uma arma. A gerente chuta a pistola para o outro lado do salão e uma batalha épica se inicia. Cadeiras voam, mesas se partem. A gerente joga todos os talheres afiados que tem de forma precisa no crítico. Ele responde dando tiros com seu braço mecânico especial. O crítico, com um monte de colheres de prata fincadas em seu torso, continua lutando como se nada tivesse acontecido. A munição acaba. Os talheres também. A gerente tira uma katana da (censurado) e se joga no inimigo. O crítico usa o braço mecânico pra se defender, mas não tem espaço para atacar. Ela é rápida demais. Uma brecha surge e ele a chuta longe. A gerente cai no que sobrou da mobilia do restaurante e é morta perfurada por estacas de madeira.

“Você não era meu tipo mesmo” diz o crítico. Ele sai do restaurante e entra em seu robô gigante. Prepara um canhão para destruir o que sobrou do lugar. “VOCÊ NÃO VAI DESTRUIR MINHA HERANÇA!” alguém grita. Era a gerente. Ela faz uma pose. Seus olhos se tornam vermelhos e ela se transforma numa mulher demônio gigante. O robô dispara inutilmente contra ela, que empurra o gigante contra outros edifícios. Horas de batalha passam. A cidade já se tornou ruínas. Um desfere golpes contra o outro inutilmente. Estão exaustos. O crítico desativa o armamento da máquina e exclama “Sete e meio, Bom”. A gerente demoníaca pensa um pouco e responde “Fechado”. Os dois apertam mãos e se dirigem a caminhos opostos, deixando o que foi uma grande capital do mundo.

•••

Imagem: Cable, por Rob Liefeld

Comentários

  1. Por onde começo? Sabe que só agora – depois de tanto tempo – percebi que você desenvolveu um jeitão próprio de escrita? Assim, já sei o que esperar (mais ou menos), porém sempre me surpreendo com o desenrolar da narrativa! Fica como um elogio (porque, na verdade, eu queria postar “tu és foda” e fechar a essa aba com satisfação). Sobre o conto: O personagem (a aparência dele) me lembrou de Vingador do Futuro, RoboCop - e ainda, Gundam: por causa do robô. Eu ri do “censurado” (deve ter pensado em mim nessa hora, né?).

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    1. Pensei ESPECIALMENTE em você, lógico. E ao mesmo tempo também é algo que parodia os anos 90. Se tem uma coisa que apelavam muito na época era o sexo e a violência extrema. Principalmente no Ocidente. Nos gibis então. Só o Japão que é exceção porque lá já faziam umas coisas bizarras lá pros anos 70. Tipo Devilman, que eu to lendo e inspirou a trasformação que fiz pra gerente do restaurante XD

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    2. Resumo dos gibis nos anos 90: Ombreiras e armas gigantes

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    3. AH É, E obrigado pelo elogio \o/

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    4. Ouvi falar de Devilman. (E, sim, eu amei as referências).

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  2. Mano, que história doida e bem desenvolvida *-*
    Sua gerente me lembrou um desenho que eu fiz de uma índia demoníaca >3<
    || Zombies Vegetarianos ||

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    1. Hum... Índia demoníaca... Taí uma ideia espetacular de história. Eu sempre penso em escrever algo com conteúdo indígena, ou sobre fabulas do BR. Mas os unicos folclores que me interessam é Curupira e Mula Sem Cabeça. Principalmente a Mula. Ainda escrevo uma história com ela.

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  3. Caramba, que texto bacana, adorei! Gostei principalmente da forma como a gerente do restaurante respondia as ironias do crítico, rs.

    below ✿ average

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  4. Oie,
    Quando comecei a ler, pensei "ok", mas depois fiquei tipo, "o que ?"
    Hahaha adorei o texto. O censurado foi o melhor :)
    Bjoos
    http://www.azul-calcinha.blogspot.com/

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  5. Eu comecei a ler achando que seria uma coisa e no final foi outra completamente diferente [?????]
    Felipe, você é DEMAIS! HAHAHAHA Eu ri muito, principalmente de onde a gerente guardava a katana.

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  6. R.: E foram mesmo "supridas", há coisas que prefiro deixar em código encriptado ou não desenvolva o assunto em questão por só dizer o que considero essencial para controlar o sistema nervoso.

    Concordo contigo acerca da solidão, há alturas que ela é essencial e noutras alturas é necessário abstrair dela.

    --

    Gostei do desfecho da história ser inesperado. No início dá a impressão de ser um documentário e depois é como estivesse imaginar a história em desenho animado ou filme.

    Acho interessante os factos em que foi baseada para ser criada.


    Obrigado pelo comentário e o "espero que tenha alguém que seja o seu salva-guarda".

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  7. Me lembrou os mangás em que as lutas são iniciadas sem motivos ou por motivos que valem apenas para iniciar uma luta. Queria saber de onde surgem essas ideias, mas que movem um universo inteiro de aficcionados!
    Beijus,

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  8. Realmente, como foi citado, esse clímax inesperado me lembrou um mangá/anime, com uma batalha tão grande por um motivo tão pequeno. Muito divertido ler seu conto. Sua escrita é excepcional. Continue assim!

    Beijos ~ www.empirekawaii.net

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  9. Concordo com a Luma, realmente me passou essa ideia de "briga random de mangá", e eu achei simplesmente fantástico. Achei a premissa criativa e me peguei imaginando um universo onde restaurantes são destruídos se servem comidas ruins - seria bem mais fácil encontrar os bons restaurantes, hehe. E achei a gerente simplesmente fantástica, ela é um mito, mesmo depois de morta continuou zelando pela honra de sua herança. O único pesar foi ter chegado ao fim, conseguiria continuar facilmente lendo esse conto *-*
    Beijos e ótima semana!

    http://confissoesdeumleitor.wordpress.com/

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  10. No começo, parecia que eu estava lendo uma versão japonesa de "Ratatouille", mas, daí, o texto dá um giro de 180 graus, vira uma puta viagem digna dos animes mais insanos e... deliciosos.
    Haja criatividade rapaz!!

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  11. A minha imaginação não trabalha dessa forma há anos! Um excelente exercício pro cérebro! Imaginei cada detalhe, simplesmente magnífico :D

    Beijos!

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  12. cara essa história é perfeita! Começa de um jeito termina de outro... e olha a criatividade! Amei essa gerente :3 como assim eles destruíram uma capital? o.o shuahsuahsuhaushau

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