Última Sessão



Os pés doem por causa do salto alto. A escada não ajuda. “Por que não colocam um elevador?”, ela reclama. Derruba as chaves. Suspira. Pega elas e destranca a porta. Casa. Lar. Alívio. Arranca os torturadores dos pés ali mesmo na entrada, nem quis sentar primeiro. Assim que pisa com os pés descalços no chão, sente algo estranho. Tira de cima e encontra um envelope. Sem remetente. Não deve ser uma bomba, então não custa nada abrir. Dentro do envelope havia um convite. Não, não um convite. Um ingresso. Dizia “A Aventura Bizarra de Lola. Última Sessão. Data: Assim que possível”.

“Só pode ser brincadeira” dizia ela mesma, a Lola, a si mesma enquanto lia o que provavelmente seria alguma pegadinha de um vizinho. Talvez as crianças. Ou algum colega de trabalho engraçadinho? Guardou no bolso. Sem paciência nem corpo para ir até a lixeira jogar fora. Se joga no sofá. Medita. Estala os ossos. “Quero só um banho”. Levanta, com preguiça. Se despe no banheiro e entra no chuveiro. Banho tão bom que a alma deve ter sido lavada também. Faz uma armadura de toalhas. Fica um longo momento olhando para a própria  monocelha no espelho. Deixa as roupas onde estão e abre a porta. Leva um susto. O apartamento todo sumiu. Do outro lado havia apenas estrelas e o vácuo do espaço. Parecia coisa de série de ficção científica ruim. Saiu do transe e pensou um pouco. “Se estou mesmo no espaço, porque não morri ainda?” Pois não é como se o banheiro dela fosse produto da NASA. Toma coragem e pula pra fora do cubículo. Estranhamente, ela pisou em algo como um chão. Porém não avia chão, apenas o espaço. O banheiro foi se distanciando até sumir no escuro infinito. “É, acho que vou ter de fazer aqui mesmo”. Ela se encolhe no suposto piso e espera as necessidades saírem.

“O que pensa que está fazendo?” alguém diz, dando um susto na moça. “Desculpe, é que eu to apertada e...” Lola pausa e vê uma senhora de bengala com uma monocelha familiar. “Perdão, por um momento você parecia alguém que conheço”. “Não aja como se não conhecesse a si mesma, Lola” - respondeu a idosa. As coisas eram o que pareciam, pela primeira vez. De repente cai a ficha de que ela está nua perto e uma senhora e fica com vergonha. “Ora essa, já vi isso tantas vezes na frente do espelho que nem ligo” exclamou a Lola velha. “Vamos, estamos atrasadas pra sessão”. Lola... a NOSSA Lola, desistiu de questionar o que baralhos estava acontecendo e acompanhou a senhora. Quando viu, estava numa espécie de sala de cinema. “Espécie” porque a única coisa que denunciava “cinema” nisso tudo era a tela gigante flutuando e os vários assentos, já ocupados por diversas outras Lolas. Que bagunça. A Lola criança que não parava de correr, derrubou a pipoca e bebida no chão. Começou a chorar e fazer birra. A Lola adolescente brigou com a criança e ficou reclamando. A Lola adulta dormia no banco da última fileira. Lola e Lola velha arrumaram um lugar pra elas, perto da Lola da dimensão negativa. A Lola Negativa não tem monocelha. Estranho. A telona acendeu e todos ficaram em silêncio. 

O filme, para a surpresa de ninguém, era sobre a Lola. Todas elas. Alguém filmou momentos de cada uma delas e fez um filme. No começo parecia que ninguém se surpreenderia. Entretanto, conforme o filme seguia, houveram surpresas e carinho com cada cena. “Não esperava por isso” “Por essa perspectiva não parece tão mal” “Eu sou tão idiota assim?” “Ainda quero a minha pipoca” dentre outros comentários foram as reações. Pena que não teve final. Acho que o diretor não quer revelar algum final trágico. Ou será que vai ter parte 2? Hoje em dia todo diretor faz isso, vai saber. A vovó se despediu e agradeceu a companhia. Nossa Lola dividiu o resto de pipoca com a Lola Criança. Lola adolescente foi twittar sobre o filme, acabou esquecendo que não tem sinal no espaço. Lola Negativa saiu mais cedo pra escrever uma crítica em seu blog. Lola adulta ainda dorme. Nossa Lola encontrou o caminho de volta ao banheiro e foi dormir. “Que filme chato... Preciso mudar minha vida”.

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Imagem: CBS News

Comentários

  1. Se a vida fosse de fato um filme, mini séries, penso que, não teríamos o poder de mudar o roteiro, o script. Mas, é desejável. E, é como a vida de Lola, somente depois de ver, a interpretação e a nós mesmos em ação, é que, se deseja mudar o possível final deste nosso filme.

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  2. Interessante perspectiva para mostrar que devemos parar de olhar para o nosso umbigo apenas e pensar no que ocorre ao nosso redor e meditar se precisamos mudar ou não. E tomar essa atitude quando necessário. Por um momento cheguei a pensar que ela estava sob influência de drogas, rs. Por outro pensei que era uma ficção científica envolvendo realidades paralelas e que estavam fazendo um experimento nela... =x

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  3. Não tive como não gostar dessa história inusitada, pois é, tantas coisas para pensar a respeito de nossa vida e bem, acaba se chegando à conclusão que a vida está chata.

    thoughts-little-princess.blogspot.com

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  4. Adorei! Como seria bom poder dar uma olhada em todos os nossos "eus" pra poder acordar de uma vez e mudar completamente nossa vida. Muito bom!

    Beijos,
    Fer - http://viciosemtres.blogspot.com.br/

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  5. Eu sempre sento para responder os comentários da semana no sábado de manhã, as vezes consigo durante a semana, mas sábado de manhã é o meu momento pra isso. Hoje foi meio triste. Entrei em um blog que adoro e lá também estava proclamado o Hiatus. Entrei em outros tres que também acompanho direto e não haviam posts novos desde o inicio de setembro, agora venho aqui e você também? :/

    Espero que tudo melhore por ai e que você volte logo (:

    Beijo

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    Respostas
    1. Na verdade,eu nem deveria aceitar seu comentário porque não está falando do conto. Mas, doeu no meu coração e acabei me emocionando. O hiato não foi algo previsto, foi forçado. E está sendo duro. Eu amo o Emilie Escreve. Deu trabalho manter e fazê-lo crescer. Voltaremos em breve (eu espero). ;__;

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  6. Nossa, é uma viagem na mente, no abstrato imaginário que há em nós. No fundo é um navegar dentro do nosso próprio filme. Não deixa de ser uma importante reflexão.
    Interessante, mas muito curioso a maneira retratada.

    Ei, voltem logo. :/

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  7. Seus textos ficam cada vez melhores e sempre dá uma sensação de "quero mais". Os detalhes, o enredo em si... tudo ótimo. Na verdade, você me inspira demais! E essa Lola pode ser todos nós quando olhamos para trás e decidimos que devemos mudar algo... E não nego, que adoraria ver todos os meus "eus" juntos haha Enfim, muito interessante!
    Beijos, Ó, tô em dúvida...

    ps.: Melhoras, viu ♥

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  8. Eu amei essa história, mutio interessante e criativa. Achei bem legal a ideia, precisamos mesmo olhar para como somos. ou como éramos, em busca de mudar, para melhor claro.
    Beijoooos <3
    Espero que voltem logo :\
    http://shake-de-morango.blogspot.com.br

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  9. Oi Emilie!

    Eu não tinha as músicas no meu celular, mas as escutava no youtube, pelo computador . Mas agora eu já as tenho baixadas ^^ desculpe a demora a responder :c

    Poxa que pena que o blog tá em hiatus ;-;

    Esse texto faz qualquer um refletir um pouco, nossas vidas realmente são como filmes, é bom às vezes relembrarmos as cenas de nosso próprio filme, como Lola. Mas queria que Lola tivesse visto algo positivo no seu, mesmo que tenha sido um "filme chato". Mas deve ter sido bom pra Lola começar a pensar em melhorar sua vida. E nossa, se me botassem numa sala com todos os meus "eus" eu enlouqueceria, não sou fácil de lidar uahhusahuash

    Beijos, volte logo e melhoras Emilie!!

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