Menina-passáro (por Laura Ribeiro)

Lá, presa, sentia-se solitária. A menina-pássaro. Ela era linda. Eu gostava de ficar observando-a os dias inteiros. Não queria ouvi-la cantar, ela não era apenas um pássaro, era minha menina. Não sabia que espécie ela era, mas dava gosto de ficar encarando-a, com aquelas lindas penas azuis-bebê e os grandes olhos negros. Ficava corado quando ela me notava. Podia, afinal, um garoto bobo, apaixonar-se por um simples animal?

– Queria que você fosse livre – sussurrei, certo dia, para a Menina. Ela surpreendeu-me com um belo canto, uma melodia de fazer os olhos lacrimejarem. Nunca havia visto a Menina cantar. Jamais cantou para meus pais, seus principais donos. Mas agora, ali estava ela, enchendo a sala com seu canto. Imaginava uma garota em seu lugar. Queria tirá-la dali e fazê-la voar, mesmo que para longe dali; Amor é querer ver quem ama feliz.

Imaginei-me dançando com a bela Menina. Quando me dei por conta, estava inventando mil e uma desculpas para meus pais por ter soltado a Menina. Não me importava mais, queria vê-la feliz. Abri delicadamente a gaiola, e ela me olhou, deitando sua cabecinha um pouco para o lado. Estiquei minha mão e ela saltou para meus dedos, animada. Ergui os dedos e caminhei em passos curtos até a janela. Olhei para a Menina e ela olhou para mim, depois decolou voo. Magnífica, pensei. Observei a Menina transformar-se em um pequeno pontinho azul-bebê e sumir no horizonte. Jamais me esqueceria daquela melodia, daquele olhar. Pássaro de fazer apaixonar. 

Estava lá, parado feito bobo, quando a campainha me despertou. Corri para atender a porta, meio desajeitado. Mas, quando abri, quis congelar o tempo. A mais bela obra de Deus, além da Menina, estava parada ali, na minha frente. Uma linda menina, de longos cabelos louros e olhos azuis-bebê, como os da Menina, me encarava, meio tímida.
– Oi, sou nova no bairro – cumprimentou ela. Sua voz era doce de dar gosto, parecia a melodia da minha Menina. – Meu nome é Lacy. Soube que você estuda na mesma escola que vou estudar... A Sant'Ana.
– Ah, sim, sou eu sim – respondi, gesticulando para que a Lacy entrasse em casa. – Meu nome é Leo. Precisa de ajuda?
– Eu só quero ficar por dentro das matérias – respondeu ela. – Se quiser me ajudar...
– Mas é claro! – sorri, radiante diante daquela belezura chamada Lacy. Seria um milagre de Deus, minha Menina mal ter saído de casa, e Deus ter me mandado sua reencarnação em forma de mulher? A expressão "borboletas no estômago" me resumia naquele momento. – Sabe, você me lembra muito um pássaro que eu tive... – Corei. – Seu nome era Menina.
Lacy sorriu.
– Ah, sério? Pois você também me lembra muito um pássaro que eu tive... Seu nome era Menino.




Escrito por Laura Ribeiro, do Unlocked Land



Comentários

  1. Ai, a Laura tem palavras doces <3 Esse encontro e desencontro com encontro parece até enredo de cinema, ficou maravilhoso, tanto pelo entendimento filosófico por trás da cena quanto pela beleza ilustrada no texto.

    Lindo.
    xoxoxo
    !?!

    ResponderExcluir
  2. Parece legal e também parece um bom texto. Mas, "não gostei". Como só deixar um "Não gostei!" poderá cair na regra por analogia ("adorei o texto") enumero pelo menos estes itens abaixo que me fez, desgostar do texto.

    "Lá, presa, sentia-se solitária" - É juízo de valor que não é possível medir.
    "Nunca havia visto a Menina cantar" - Procurei achar uma figura de linguagem ou figura de construção para encaixar a frase, no entanto, é, só um vicio de linguagem.

    ...

    Além de não ver relação de causa, evento e acontecimento.

    ResponderExcluir
  3. Que coisa mais doce de conto, fiquei até arrepiada! Imaginei perfeitamente o passinho saindo das mãos do menino e alcançando o horizonte, tão lindo...

    Beijos =*

    ResponderExcluir
  4. Me sinto muito honrada em ter meu texto postado aqui, vulgo Emilie! <3 De verdade: Obrigada! E estou simplesmente apaixonada pela ilustração.
    Beijos || Unlocked Land ❤

    ResponderExcluir
  5. Nossa, li o comentário do Adão e achei muito duro e rígido. Devo lembrar que, apesar de ser literatura, isso ainda é um blog? Pois bem. Todos os contos postados aqui passam por mim (até os do Felipe), então vamos considerar: Eles combinam com o Emilie Escreve em certos aspectos - e são variados (o que é ótimo). Agora, sobre esse texto: Beatriz, ali, falou que é doce. Concordo. É simples, pueril e doce.

    ResponderExcluir
  6. Que linda forma de escrever, se expressar e desenvolver um possível romance!
    E comparando com a doçura do canto de um pássaro!

    ResponderExcluir
  7. Gente, que texto mais gracinha! Confesso que não esperava esse final, fiquei empolgadinha igual pirralha da 5ª série. Adoro esses textos e histórias que fazem a gente sentir uma coisinha pular no peito! Fofíssima a relação do Leo com a Menina - me lembrou uma frase que encontrei aí na internet uma vez, "letting go is also one way of saying 'i love you'", e não é verdade? :D Mais legal ainda é que ele foi "recompensado" pela sua atitude no final, né não? Lindo, lindo texto!

    ResponderExcluir
  8. eu juro que a primeira vista achei que a história seria sobre, literalmente, uma garota pássaro. Mas a metáfora faz sentido.

    ResponderExcluir
  9. Que coisa mais bonitinha! Fiquei encantada com o rumo que a historia tomou, não esperava por essa metáfora. Lindas e delicadas palavras, parabéns! (:

    ResponderExcluir
  10. Adorei as idas e vindas no decorrer do texto, a forma como a Laura de fato nos prende até o fim da leitura. Moça, escreve muito bem.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  11. Awn gente! Quando uma pessoa tem dom para escrever não tem quem o tire, não é mesmo? Adorei o texto, apesar de ter me parecido mais uma crônica huehue Sério, ficou muito kawaii, o tipo de história que faz com que a gente passe a noite inventando um final ^^

    Com carinho, Essie || Blue Leaves ∩( ・ω・)∩

    ResponderExcluir
  12. Um amor de texto! Acompanho o trabalho da Laura pelo Unlocked Land há algum tempo, e sei o quanto ela manda bem com as palavras... Desta vez, ela descreveu a história de tal modo que consegui ver nos olhos da Lacy o mesmo brilho do olhar da Menina...

    Comentado com carinho, Jeito Único

    ResponderExcluir
  13. Ai gente, que fofo! Eu amei o final. A ironia do pássaro, da prisão que os dois, o Menino e a Menina estavam. Mas a reação dele quando a garota aparece à porta, fiquei imaginando, e só posso classificar como "Ai que coisa mais fofaaaaaa, mds, vem cá deixa eu te morder" hahahaha bjs


    Alessandra / http://dosdiascorridos.wordpress.com

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Teste de Coragem

Dois gatos

Teto de verniz