Fuga

Confesse, você tem medo de mim!”. “Não tenho”, diz ela se esquivando do assunto. “Sou aquilo que mais teme, o que menos espera e o que mais te surpreende”, ele ri, “Nunca vai saber a data da minha chegada e isso te assusta. Te faz querer ser superior. Aquela sobre todas as coisas”. “Mentira. Está blefando para que me sinta frágil e desprotegida para assim me possuir... como se eu não tivesse vontade própria”. “Sabe que o que digo é verdade. Por que mentir? Eu não minto. Nunca”. 

“Por que sempre arranja um jeito de me machucar? De rir de mim?”. “Nunca te feri. Quero o seu bem, sabes disso. Não queres aceitar que és menor que eu”. “Sou mais forte que você!”. “Venha, abrace-me. Está na hora de se entregar. Não me negue. Seja minha...”, se aproxima dela. Assustada, ela encosta-se à parede. Sem saída, fecha os olhos. “Não...”. Havia adiado tanto aquele dia. Por que deveria ser daquele jeito? Negaria até o fim. Sufocá-lo-ia até a morte. Seria mais fácil.

Seu rosto muda de expressão. Ruguinhas aparecem nos cantos dos olhos, seus lábios se alargam num sorriso. “O que é isso agora? Que expressão é essa?”, ele diz incrédulo. “Vai me negar de novo? Quantas vezes tenho que voltar para que você me aceite?”. “Não volte...”, ela diz em lágrimas. “Eu não quero me machucar...por favor, vá embora”, ela senta com as mãos sobre os olhos marejados. “Acalme-se. Apenas me deixe abraçá-la. Será melhor...”, ele a envolve. “Amor, por que tem que ser tão insistente ? Deverias ter ido quando pedi”, sua expressão é outra, está aflita. “Só quero o teu bem...”


Imagem: via emo diaries. by ~complejo on deviantART

Está na hora de admitir que não escrevo nada de novo há séculos. Tenho postado contos que compus quando tinha 18 anos. Não curto tanto meus escritos antigos. Mas, ultimamente estou com aquela sensação de que não escrevo nada que presta, saca? 

Comentários

  1. Sobre o texto!

    Este relato bem cabe numa frase e tema que sempre, também repito: A sensação que tenho é que as mulheres só são felizes quando sofrem por amor, por um homem, por sua família, por seus traumas, SOFRER por algo, parece ser a suprema virtude do gênero.

    Quanto a observação final: Isto não é novidade! Já no passado, muito no passado, veja a idade, do tempo de Salomão, que escreveu algo para a Bíblia já se dizia: Não há nada novo debaixo do sol.
    Te serve de consolo saber isto? Então, consola-te!

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  2. Sabe, não é a primeira vez que sinto que a Morte está dialogando, talvez seja o fato de eu simpatizar com esse tipo de ideia, a última conversa, o último instante antes do último suspiro, sabe? Enfim, também soa como algo íntimo, mas para quem interpreta como observando de fora, só cabe a conclusão de que cada um constrói a cruz que irá carregar.

    Isso aí.
    xoxoxo

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  3. Identifiquei que o texto falaria do amor desde o início, acho que por ter tido tal discussão com ele a alguns anos atrás, quando mais nova. rs

    Adorei :)

    Beijos,
    Fer - http://viciosemtres.blogspot.com.br/

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  4. Olá!!

    Eu sabia da existência daqui, mas não sei por cargas d'água que nunca a visitei!!

    Interessante o conto. Parece-me que é o amor falando com "ela" enquanto "ela" tenta desvincilhar-se por não querer sofrer. Infelizmente, no amor a dor e o sofrimento andam juntos com todas as coisas boa que o sentimento traz... Sei lá, foi assim que eu interpretei.

    Você disse que está preferindo contos antigos a atuais. Já tentou espairecer para que a criatividade aparece do nada? rsrsrrs

    Até mais

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  5. Que gracinha o texto. Fiquei inspirada *~*
    A gente tem a mania de fugir das coisas, mas até que ponto fugir ajuda?
    Eu não sei...
    Quanto mais temos medo mais a "coisa" nos persegue, pelo menos essa é a sensação que eu tenho.

    Rib~
    cronpirata.com

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  6. Olha, não sou muito a garota das histórias da amor, mas achei o texto bem legal!
    As sensações de não estar fazendo nada que preste e não estar fazendo nada fora da zona de conforto são muito comuns aos escritores. Eu mesma me sinto assim grande parte do tempo. Pior que essas sensações, só a de que o que você não está à altura do que está fazendo, de que sua ideia seria melhor executada por outrem.
    O que você tem que fazer é não parar. Continue escrevendo, continue fazendo o que você faz e se aprimorando!
    Obrigada pela visitinha ao Kakumei! Acho que meu outro blog, o Para de sonhar, menina (https://paradesonharmenina.wordpress.com/) faria mais o seu estilo, mas, enfim, agradeço!
    Boa sorte com as escritas!
    Kisus!

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  7. Muito bom conto!
    Quanto ao "agora", pode ser o medo de falhar (ah, como o conheço!) ou mesmo uma mudança no seu estilo de escrita, mas não acho possível que seja mau, depois de ler o que li. Isso não acontece :)
    Beijinhos

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  8. Maravilhoso! O final foi surpreendente, mas melhor que isso, acabando a surpresa sobre esse final, eu tenho que se reconhecer que é assim que a gente se sente milhares de vezes quando sabe que não deve haver um tipo de sentimento, mas ele persiste. Quem nunca?
    http://www.canseidesernerd.com

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  9. Dentre tantas interpretações possíveis, vi a imagem dela refletida no espelho. Uma conversa entre ela e ela mesma se não fosse a palavra "ele" no texto. Daí tive que reler várias vezes até descobrir o tal... Muito bom! Gostei!

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  10. Menina, gosto muito da sua escrita! Acho tão leve e delicada... Parece algo muito íntimo, mas ao mesmo tempo que dialoga com nossas próprias experiências.
    Entendo bem essa crise da escrita... Costumava escrever muitos contos também, mas de um tempo pra cá não consigo mostrar pra mais ninguém. E é sempre um parto quando decido postar no blog... Enfim. Crises são crises.
    Beijo!

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  11. Oi, Emilie!
    Existe um ditado que diz: "Você somente descobre que é forte, quando ser forte é sua única escolha". Talvez o contrário também proceda e diante de algo mais forte, o melhor é se redimir e tentar tirar o melhor da situação.
    Não tenho medo de amar e talvez por isso não sofra ou me torne mais forte para saber identificar o amor das emoções mais baratas. Vai saber? Mas o melhor é mesmo viver em toda a sua integralidade e o amor é um ingrediente primordial!
    Beijus,

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  12. Lindo. Seria a morte?

    Fiquei com vergonha depois do teu comentário na foto da piscina. Até pensei nisso que tu disse, mas achei que nãããmmm, ninguém ia achar aquilo! kkkkkkkk Coloquei logo um post por cima dele :D

    Beijos!

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  13. Um texto maravilhoso e aberto a interpretações. Eu realmente amei como você colocou o diálogo de uma forma que o leitor possa relacioná-lo com qualquer experiência pessoal que tenha tido, indo de um relacionamento disfuncional até algo mais obscuro, como um diálogo com a morte ou com a própria loucura.

    Abraços!

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  14. Nós mulheres somos muito assim, temos medo de nos arriscar né ? Corremos atrás e a homem nem da bola e quando deixamos pra lá, adivinha ? Vem que nem água.Eu acho que nós planejamos muito, coisas desnecessárias, momentos..E quando não é como gostaríamos, desistimos ou achamos que não vale a pena.E uma vez que o amor não da certo pra nós, não podemos dizer "não quero mais amar" "pra mim chega" NÃO! Muitas pessoas perdem outras maravilhosas por medo de se arriscar.
    e-nquantoisso.blogspot.com.br/

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  15. Adorei o texto. Maravilhosamente estruturado e não sei porque alguém não gostaria dele. (Isso é pra você mesma, dona Emilie!) No começo, pensei que o diálogo se passava entre "ela" e a morte, mas no fim, fiquei com a impressão de que era aquele sentimentozinho persistente: o amor. Iiiih, nem adianta! Quando ele te abraça, já era e normalmente, nem sequer te pede permissão. Lindo, lindo! ♥

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  16. Quando ela chama ele de Amor, significa que está falando com o amor mesmo, ou é só um jeito de se referir a seja-lá-o-que-for. Pensei que ela pudesse estar falando com a Morte. Ou pior ainda, com a Velhice.

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  17. No começo fiquei "mas que diálogo mais estranho", porque eu achei que era uma pessoa de verdade, mas no final entendi tudiiiin e achei genial. De fato o amor é mais forte que a gente e no começo a gente sempre resiste a tentação.
    Adorei o texto, achei lindo. :3

    Beijos.

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  18. As palavras podem ser traiçoeiras muitas vezes. E falando-se em relações, mais ainda. O coração na angústia acaba retendo as respostas corretas e nem sempre falamos o que lá dentro se decora. Fugimos em diálogos que contrastam, mas as vozes se intercalam até as almas se abraçarem. Há muitas fugas, mas há sempre retornos.

    Lindo texto!

    ps: Muito obrigado pela visita no meu blog Emilie. Volte sempre viu. E gostei daqui. Você escreve muito bem. Beijo!

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  19. Você não está escrevendo mal, apreciei o diálogo da história. Apesar de não ter compreendido quem é a entidade se dirigindo ao protagonista.

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  20. A miriade de sentimentos que o amor é capaz de despertar é o que alimenta a fascinação de vivê-lo, mesmo com eventuais sentimentos bons ou ruins. Quando estamos do meio pro fim da adolescencia, é supercomum consideramos o fim do mundo ter ou não um relacionamento dando certo (ainda que tem gente que estende este medo e o "mito do quão ruim pode ser" por muito mais tempo)... amadurecemos e vamos descobrindo (ou descobrimos ao lado de uma pessoa) o que o amor é / realmente significa para a nossa vida.

    Sobre como enxergamos nossos textos, novos ou atuais, é questão de desapego mesmo... o meu é suficiente para não ficar preocupado se está bom ou ruim. Deu vontade de escrever, escrevo. Deu vontade de melhorar, melhoro. Não deu vontade de postar, continuo vivendo...

    ótimos dias pra ti!

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  21. Realmente, ficamos naquela confusão quando se envolve o amor. É incerteza, medos, dúvidas... Um turbilhão de sentimentos e uma confusão sem fim. Mas, que seria o amor se não fosse isso? Que graça ele teria se fosse tão simples?

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  22. Minha impressão inicial foi a de que se tratava de um diálogo com a "Morte", tal como no filme "O Sétimo Selo", de qualquer forma, são diálogos muito verdadeiros e familiares.

    Tenho medo de me entregar ao Amor, acho que é por isso que prefiro fugir dele, idealizando meus romances sem nunca concretizá-los, acabo recorrendo ao meu reconfortante e ilusório amor platônico.

    Beijos

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