Figurante

      Nasci num deserto. Não é bem um deserto de verdade, mas não é um lugar populoso. O vilarejo fica a poucos quilômetros da minha cabana. Raramente vou pra lá. A única visita que recebo é do mercador da vila, que vem sempre comprar meus vegetais. Uma herança conveniente de meus pais. Não, eles não morreram. Só ficaram cansados daqui... Não tenho certeza por quê. Pra mim tá ótimo. Tenho minhas sementes, meu jogo de gamão e um rádio. Uma das poucas vezes que visitei o vilarejo foi pra comprar esse rádinho. Não escuto música. Não me interessa. Sem mencionar que as rádios de música são doidas, tocando as mesmas músicas o dia todo e só falando em promoção. “Ligue agora e ganhe uma Caixa-X 360". O que é uma Caixa-X? Dá pra jogar gamão nela? Aposto que não. Escuto apenas o noticiário. Uma das repórteres tem a voz mais linda que já escutei. Nunca perco o bloco dela. Às vezes tento imaginar... Se ela é tão bonita quanto a própria voz. Escuto sobre um tal herói encapado salvando as pessoas na cidade grande. Não sei como ele não fica de saco cheio. Pra quê um lugar tão grande? Pra quê tanta gente num lugar só? E apertado... Eu hein. No fim, a cidade toda quase é destruída porque o homem tá enfrentando um polvo gigante ou seja lá o que for. Aposto que ele nem sabe jogar gamão. Nem o vendedor gosta de jogar gamão comigo. Então sempre acabo jogando sozinho. Nunca tenho certeza se perdi ou ganhei.

                Um dia desses, eu estava podando umas mudas e apareceu... O homem com a roupa mais ridícula que já vi, lutando contra um prato de ferro... Ouvi dizer que se chama “Ovni” ou algo assim. Ainda é um prato pra mim. O circense derrubou o negócio no meio da poeira e tudo explodiu. Em minutos, jornais de toda parte estavam por lá pra saber o que aconteceu. Tanto barulho, não conseguia me concentrar em nada. Alguém bate na portinhola. Uma bela mulher toda arrumada, segurando um microfone. Reconheci a voz na hora. Fui o mais discreto possível. Respondi tudo e ela se foi. Nem pude chamá-la pra jogar gamão por uma noite... Será que ela gosta de gamão também? Tarde demais. Escolhi ficar satisfeito em ver o rosto dela ao menos uma vez na vida e segui com a minha vida. Algumas viaturas passaram vasculhando os destroços - procurando alguma coisa - depois foram embora. 

               Anoiteceu. Fiz uma sopa de vegetais, arrastei uma cadeira, e a tomei enquanto olhava pro horizonte vazio e escuro.. Como sempre faço. Gosto do silêncio. Era como se toda aquela confusão não tivesse acontecido. Então escuto um barulho de dentro da cabana. Vejo um homenzinho verde entrando pela janela e derrubando tudo. Primeiro ficamos um tempo nos olhando. Em seguida comecei a limpar o piso e organizar o que ainda estava intacto. Ele... Ou ela... resolveu sentar. Acho que estava assustado. Eu deveria estar também? Não consigo pensar em algo que me assuste. Talvez perder o tabuleiro de gamão. Ou meus vegetais morrerem. Não sei. Ainda estava me observando. Não sabia o que dizer, mas aquele gelo estava acabando comigo. Peguei o tabuleiro, puxei a mesinha e sentei em frente a ele. Abri a maleta e organizei as peças. Joguei um pouco comigo mesmo e, em poucos segundos, o coiso começou a seguir meus movimentos. Sem querer ensinei o coitado a jogar. O pior jogador de gamão que já conheci... E olha que perdi muitas vezes pra mim mesmo. A manhã chegou. Nem vimos a hora chegar. O verdinho levantou e saiu. E quando vi, o tal do prato voador estava intacto em frente a cabana, esperando por ele. Ou será que era um novo? Ele me fitou por alguns segundos antes de entrar no veículo, depois partiu. Aquele olhar foi um “tchau”? Eu imaginava. Desde então, todo ano, ele passa aqui alguma noite e jogamos juntos. Ele ainda é péssimo, mas a distração é boa. De manhã ele volta pro prato e voa. Talvez eu devesse fazer um tabuleiro pra ele. Será que ele gosta de sopa?



Imagem:  Desideratto

Comentários

  1. Primeiro: acho que ainda não falei, mas adoro a forma como você compõe as coisas mais piradas possíveis. Quer dizer, como mistura as coisas. Et's, viajantes do tempo, heróis de tokusatsu, por exemplo. E os contos ficam bons. || Sobre o texto: nunca joguei gamão, tampouco sei as regras. Mas é um jogo pra dois pelo visto. Imaginei o personagem como um senhor de meia idade solitário. Comprou o rádio para não ouvir música? Mero artefato de decoração? Eu achei interessante o fato dele não ter se espantado com o extraterrestre: incomum, haha. || Essa coisa de deserto me lembrou alguns animês com background cyberpunk.

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    1. Comprou o rádio pra escutar vozes XD E sim, tu já falou isso... Com outras palavras. E me sinto lisonjeado. Eu já devo ter dito como amo scifi então não resisto falar sobre esses assuntos em textos. Você já deve ter notado que contos normais pra mim é impossível. Talvez uma vez ou outra eu consiga escrever como você sobre relacionamentos e reflexões, mas acho difícil. Mais fácil eu escrever sobre um Tatu bola flamejante que viaja na velocidade da luz... ou algo assim

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    2. Os que são exceção ficam como no texto anterior, nada de mirabolante (mas chocantes).

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  2. Felipe, também vou elogiar sua forma de escolher os lugares, as personagens e a tonalidade do texto. Aprecio muito quem tem essa capacidade, pois conto/crônica definitivamente não são meu ponto forte. Sobretudo, apreciei ainda mais as críticas subliminares ;)
    Abraços!

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  3. Que gostoso o seu jeito de escrever! O interessante foi ver um personagem tão comum, simples e solitário misturado com um herói e um Et, e de uma forma que no final não ficou uma coisa completamente sem sentido. Gostei!

    Beijos,
    Fer - http://viciosemtres.blogspot.com.br/

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  4. Escreve muito bem. É uma capacidade, um dom que não cabe a muitos.Eu gosto de sopa.

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  5. O tema, a história, é, por tantos textos similares, um clichê, mas, não todo o texto Só o geral. Milhões de nós não necessitamos de uma "caixa 360" para viver e ser feliz, estar contente. Aliás, o personagem é bem instruído, ainda que, tenha a impressão de que viva alheio e marginal ao mundo moderno e das cidades grandes. Sabe traduzir outras línguas.
    Sim! "Dá" (Podes dá pra quem quiser, não pra mim") para jogar gamão na "caixa x-360". Mas é possível jogar sem ter que "dá".

    E por fim, esse sujeito que diz ser mais fácil escrever sobre um Tatu bola flamejante que viaja na velocidade da luz, está sobre forte influência dos ANUNAQUES.

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    1. Faz tempo que não ouço dos anunaques ou de mitologia suméria

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    2. Deuses/espíritos da mitologia suméria Suzi

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  6. Uma ficção bem mirabolante. Contudo, parece tão verossímil. Muito bacana o modo despretensioso da história,onde você encaixa as situações como se fosse tão naturais. Afastado, num deserto, digo, vilarejo não tão populoso e, ainda assim, muitas coisas acontecem. Bem legal.

    Gostei do conto. E não sei jogar gamão. :/

    Abraço!

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  7. Estória simples, singela e bela. Eu adoraria uma vida pacata assim, sem preocupações e também adoraria conhecer um et e jogar gamão com ele. Ia ser legal.

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  8. Gente que texto mais f#@$! Mistura de realidade com ficção mas de maneira simples e singela! Adorei!!!

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  9. Eu gosto desse tipo de história que começa de um jeito, surpreende no meio e termina de forma verossímil, apesar de ser uma surpreendente ficção. Tu conseguiste fazer uma belo conto. Adorei o personagem principal. Beijos.

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  10. Nunca joguei gamão, e a pergunta que fica é: se o homem verde é um péssimo jogador de gamão, e ele aprendeu com nosso personagem, então o nosso personagem não seria um péssimo jogador também? É difícil saber quando a única opinião qualitativa sobre o jogo é dele mesmo, né? No mais, gostei do texto. Foi leve, irônico, um pouco bucólico também, mas encerrou-se em si mesmo. Não sei como explicar, mas poderia muito bem ler ele de novo, e de novo, e... Você gosta de Douglas Adams? :D


    http://dosdiascorridos.wordpress.com

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    1. Lembra um pouco as crônicas dele, por isso perguntei :)

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  11. Inusitada mistura entre ficção e realidade resulta em um texto muito peculiar. Também sou viciado em sci-fi, mas não sou tão bom em criar contos tão surreais assim, haja criatividade. Gostei bastante, cada parágrafo me lembrava um filme. Abraços

    O Mundo Em Cenas

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