Cognisonho (por Guilherme Henrique)

Primeiro, foram lindos campos de tulipas; azuis, amarelas, vermelhas... em algum lugar Roterdam. E entre elas, ela corria livre, despreocupada, parando, às vezes, e as contemplando. Quem dera tivesse uma câmera, pensou.
E então, eram montanhas, brancas de gelo, ou vermelhas de fogo, ou qualquer outro lugar maravilhoso ao qual jamais imaginou viajar.
         Não tinha pressa, ia do mais alto no céu, ao mais profundo do oceano. Viajava em trens, navios, aviões... Por fim, era uma praia. Areia branca, sol a pino, mar agitado, espumoso... E descansou os pés na areia fofa, e sentia o vento e a brisa molharem seu rosto e refrescarem seu corpo. Sentada em frente ao mar, imaginava o tamanho de sua imensidão. Onde começava, e aonde terminaria? E ficou assim muito tempo, horas talvez... Sentada e meditando.
         Um homem se aproximou, perguntou se poderia se sentar com ela e, reconhecendo sua voz e sua figura, ela respondeu que sim, com um aceno da cabeça.
         - Estava me perguntando quando você apareceria.
         - Você sabe que eu tô sempre por perto. – respondeu o homem.
         De novo, ela consentiu com a cabeça.
         - Bonito, não?
         - Lindo! – respondeu o homem. – Me pergunto o tamanho disso tudo.
         - Engraçado – ela disse –, estava aqui me perguntando exatamente a mesma coisa.
         O homem sorriu; era bonito, alto, atlético, cabelos e barbas cerrados, olhos serenos. Tão serenos quanto o mar daquela tarde.
         - Há anos eu não parava para admirá-lo assim.
         - Essa é minha primeira vez – disse a mulher.
         O homem se surpreendeu.
         - Desde menina eu tento vir – continuou a mulher –, mas nunca consegui.
         - E por que não?
         - Meus problemas com meus pais.
         - Ah! Sim...
         O homem a conhecia bem, seus problemas também; sabia da sua história de vida. Crescera em um lar com muito pouco, ou quase nenhum amor. Aos sete anos, o pai alcoólatra se suicidara, deixando-a sozinha com a mãe que se definhava com uma doença que ninguém sabia reconhecer.
         Conheceram-se nessa época, mesma época em que a mulher enterrou a mãe, em uma quarta-feira de cinzas. Engraçado como a vida pode acabar justamente quando morrem-se as felicidades das outras pessoas.
         - Tive que segurar as pontas.
         - Deve ter sido difícil. – respondeu o homem.
         - No começo até que foi sim, mas depois eu meio que me acostumei.
         A mulher agora tirara o chapéu branco de palha, revelando uma cabeleira castanho-escuro, e exalando um cheiro de xampu que fez o homem, instintivamente, se aproximar e inspirar profundo para sentir melhor.
         - Todos nós sabemos que morrer é a regra, mas vivemos desejando ser a exceção. Mas é inevitável, e um dia chega. Acho que é melhor quando sabemos quando vai ser.
         As ondas iam e vinham, molhando os pés dos dois sentados ali, na beira da praia.
         - Acho melhor voltarmos agora...
         - Ah! – protestou a mulher – Mas já?
         - Sinto muito.
         - Tão rápido...
         - Sinto muito mesmo, querida.
         - Tudo bem...
         O homem tirou duas balas, cuidadosamente embrulhadas, de dentro de um dos bolsos da bermuda e ofereceu à mulher.
         - Olha – ele disse –, eu trouxe seus doces preferidos.
         A mulher sorriu, depois pegou as balas e as colocou na boca. Não tinham gosto de nada, porém ela gostava disso. O movimento dos doces batendo no céu da boca despertaram nela um sentimento de infância, de alegria, paz... Sentimentos que ela, ironicamente, nunca teve na infância.
         Sentia-se diferente; de repente, o mar já não fazia mais barulho, nem suas ondas gelavam seus pés ao alcançá-la. O céu foi se transformando em um degradê de cinza e branco, enquanto ela sentia-se presa, atada a algo, ou alguém, sem poder mover mãos e pés. Sentiu uma enorme sonolência, e logo depois, recobrou os sentidos.
         Lá estava ela outra vez; amarrada à velha companheira, sua cama do hospital. Pacientes e enfermeiros indo e vindo, passando pelo corredor, em frente ao seu leito. Não mais vestia seu lindo vestido amarelo, ou chapéu de palha branco. Só o velho uniforme branco.
         Sentado em frente à sua cama, o homem da conversa agradável à beira-mar, contando os doces que distribuiria aos outros pacientes. O jaleco branco impecável, fazendo anotações em uma prancheta, os olhos concentrados, a expressão séria; muito diferente do homem sorridente da praia.
         Por incrível que pareça, ela se sentiu em casa com aquela visão.

Na vida, assim como nos sonhos, a diferença entre realidade e fantasia é o tempo que se leva para acordar.




Escrito por Guilherme Henrique (G+)

Imagem by Nick Sitton

Comentários

  1. Ah! Se fosse verdade que nas nossas mentes perturbadas e longe desta realidade fosse assim tudo muito lindo, florido, claro, de sol e campos, e como cantava o Lupicínio:

    A minha casa fica lá de traz do mundo
    Onde eu vou em um segundo quando começo a pensar
    O pensamento parece uma coisa à toa
    Mas como é que a gente voa quando começo a pensar

    Meus devaneios são mais sombrios!

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  2. Caramba!!! Todas as vezes que venho aqui me surpreendo! Fico sem palavras e só me resta a aplaudir! Clap clap clap e que esse seu dom jamais se perca! Parabéns e pode me esperar que estarei aqui sempre! :)

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  3. Nossa, que texto incrível. Me senti penalizada com a mulher, deve ser triste apenas sonhar, mas ao mesmo tempo reconfortante sair daquele local triste e conturbado que é o hospital. Adorei, parabéns!

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  4. Ainda lembro da sensação que foi ler pela primeira vez esse texto. Eu realmente entrei no clima, vi a areia, a praia ,o homem (até os fiz um par romântico). Daí foi ficando estranho, e findou na personagem numa cama. Muito bem escrito, como já te falei. Só não fica certo se ela esteve delirando ou só lembrando do mar (deve ser a primeira opção por causa do hospital e da experiência de vida da mulher XD).

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  5. Gente, o texto é maravilhoso! Muito bem construído, um final que eu não esperava, achei triste. O começo do texto eu achei triste também, e deu pra sentir o vento da praia, a areia nos pés, o cheiro do cabelo dela...
    Lindo texto! Adorei a frase final. :)
    http://www.canseidesernerd.com/

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  6. "Na vida, assim como nos sonhos, a diferença entre realidade e fantasia é o tempo que se leva para acordar." - fechamento genial pro texto.
    Já estou cansada de puxar o saco dos textos que vejo por aqui rs
    Sou apaixonada por finais imprevisíveis e reviravoltas, ainda mais quando a felicidade se transforma em agonia, porque isso me lembra a vida real. Só que mais interessante, é claro.

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  7. Uou! Que conto! Difícil não sentir a brisa do mar e o cheiro do xampu da mulher. Curto e ao mesmo tempo profundo. Bonito e ao mesmo tempo triste. Gostei!

    ps: respondendo a sua pergunta. O projeto é um meio para que nós blogueiros tenhamos dados para utilizarmos em nossos posts, já que as editoras não os divulgam. xD

    E até mais

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  8. E dizem que os sonhos são manifestações de desejos inconscientes...
    A realidade da fantasia é que dá para usar a imaginação e tudo acontecer!
    Já estava imaginando um outro final para o conto quando as balinhas derreteram no mar!
    :)
    Beijus,

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  9. Olá, Guilherme.
    Cara, sabe quando se ler algo e imediatamente se pode visualizar o cenário, dá forma aos personagens?. O seu texto me fez isso. Adorei, muito bem escrito. Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  10. Sempre me pergunto onde você acha esses autores convidados. Ou como eles te acham, del lá. Grande parte deles nem tem blog!
    Enfim, o texto me deixou melancólico. Fiquei triste, ou sei lá o que. Hospitais psiquiátricos são meu ponto fraco. Se quiser colocar lobotomia, então, eu vou tremer de medo. Não que o texto tenha me deixado com medo, porque o objetivo dele não é ser assustador. Só fiquei... Triste, mesmo.

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  11. Adorei o estilo do texto, bem tranquilo e singelo. Achei a proposta incrível também, uma pena ela ter enlouquecido por causa das coisas que aconteceram, mas é aceitável, acontece.
    Será que rola um amor platônico com o médico? rs

    Emilie, sobre seu post no blog, a história ficou bem subjetiva mesmo, do jeito que era para ser, porque escrever aquilo remexeu com algumas coisas do passado e se eu entrasse em detalhes seria complicado. Mas era amizade que virou namoro e não deu certo por causa de muitos, muitos fatores. rs


    Beijos.
    www.jadeamorim.com

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  12. O texto trouxe todas as sensações que poderíamos sentir se estivéssemos vivendo esta história. Assim como personagens que carrega uma simpatia reconfortante para o leitor. Parabéns, ficou excelente!

    Lucas - Carpe Liber
    http://livrosecontos.blogspot.com.br/

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  13. Acabei de conhecer o blog e ja gostei muito. Adoro quem escreve textos literários. Eu costumava fazer isso, mas a inspiração bateu asas e voou. rs
    Excelente construção de texto. Prende o leitor até o final! Parabéns

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  14. Um texto muito bem elaborado, cada minúcia é cuidadosamente descrita. Chegou uma hora no texto em que eu suspeitei do final melancólico e, a partir daí, fui lendo cada vez mais devagar, como se eu tentasse contornar o inevitável. Não deu certo, o final me deixou frustrado, mas no bom sentido. Abraço.

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