Postagens

Mostrando postagens de Agosto, 2014

Menina-passáro (por Laura Ribeiro)

Imagem
Lá, presa, sentia-se solitária. A menina-pássaro. Ela era linda. Eu gostava de ficar observando-a os dias inteiros. Não queria ouvi-la cantar, ela não era apenas um pássaro, era minha menina. Não sabia que espécie ela era, mas dava gosto de ficar encarando-a, com aquelas lindas penas azuis-bebê e os grandes olhos negros. Ficava corado quando ela me notava. Podia, afinal, um garoto bobo, apaixonar-se por um simples animal?
– Queria que você fosse livre – sussurrei, certo dia, para a Menina. Ela surpreendeu-me com um belo canto, uma melodia de fazer os olhos lacrimejarem. Nunca havia visto a Menina cantar. Jamais cantou para meus pais, seus principais donos. Mas agora, ali estava ela, enchendo a sala com seu canto. Imaginava uma garota em seu lugar. Queria tirá-la dali e fazê-la voar, mesmo que para longe dali; Amor é querer ver quem ama feliz.
Imaginei-me dançando com a bela Menina. Quando me dei por conta, estava inventando mil e uma desculpas para meus pais por ter soltado a Menina. …

Figurante

Imagem
Nasci num deserto. Não é bem um deserto de verdade, mas não é um lugar populoso. O vilarejo fica a poucos quilômetros da minha cabana. Raramente vou pra lá. A única visita que recebo é do mercador da vila, que vem sempre comprar meus vegetais. Uma herança conveniente de meus pais. Não, eles não morreram. Só ficaram cansados daqui... Não tenho certeza por quê. Pra mim tá ótimo. Tenho minhas sementes, meu jogo de gamão e um rádio. Uma das poucas vezes que visitei o vilarejo foi pra comprar esse rádinho. Não escuto música. Não me interessa. Sem mencionar que as rádios de música são doidas, tocando as mesmas músicas o dia todo e só falando em promoção. “Ligue agora e ganhe uma Caixa-X 360". O que é uma Caixa-X? Dá pra jogar gamão nela? Aposto que não. Escuto apenas o noticiário. Uma das repórteres tem a voz mais linda que já escutei. Nunca perco o bloco dela. Às vezes tento imaginar... Se ela é tão bonita quanto a própria voz. Escuto sobre um tal herói encapado salvando as pess…

Cognisonho (por Guilherme Henrique)

Imagem
Primeiro, foram lindos campos de tulipas; azuis, amarelas, vermelhas... em algum lugar Roterdam. E entre elas, ela corria livre, despreocupada, parando, às vezes, e as contemplando. Quem dera tivesse uma câmera, pensou. E então, eram montanhas, brancas de gelo, ou vermelhas de fogo, ou qualquer outro lugar maravilhoso ao qual jamais imaginou viajar.          Não tinha pressa, ia do mais alto no céu, ao mais profundo do oceano. Viajava em trens, navios, aviões... Por fim, era uma praia. Areia branca, sol a pino, mar agitado, espumoso... E descansou os pés na areia fofa, e sentia o vento e a brisa molharem seu rosto e refrescarem seu corpo. Sentada em frente ao mar, imaginava o tamanho de sua imensidão. Onde começava, e aonde terminaria? E ficou assim muito tempo, horas talvez... Sentada e meditando.          Um homem se aproximou, perguntou se poderia se sentar com ela e, reconhecendo sua voz e sua figura, ela respondeu que sim, com um aceno da cabeça.          - Estava me perguntando …

Fuga

Imagem
“Confesse, você tem medo de mim!”. “Não tenho”, diz ela se esquivando do assunto. “Sou aquilo que mais teme, o que menos espera e o que mais te surpreende”, ele ri, “Nunca vai saber a data da minha chegada e isso te assusta. Te faz querer ser superior. Aquela sobre todas as coisas”. “Mentira. Está blefando para que me sinta frágil e desprotegida para assim me possuir... como se eu não tivesse vontade própria”. “Sabe que o que digo é verdade. Por que mentir? Eu não minto. Nunca”. 
“Por que sempre arranja um jeito de me machucar? De rir de mim?”. “Nunca te feri. Quero o seu bem, sabes disso. Não queres aceitar que és menor que eu”. “Sou mais forte que você!”. “Venha, abrace-me. Está na hora de se entregar. Não me negue. Seja minha...”, se aproxima dela. Assustada, ela encosta-se à parede. Sem saída, fecha os olhos. “Não...”. Havia adiado tanto aquele dia. Por que deveria ser daquele jeito? Negaria até o fim. Sufocá-lo-ia até a morte. Seria mais fácil.
Seu rosto muda de expressão. Rugui…