Cara, você é muito eu (por Eilton Ribeiro)


Gica arrotou. Aquela era uma situação bem estranha. Os dois caminhavam lado-a-lado naquele corredor largo, sentindo-se observados não só pelas pessoas que passavam, mas também, bizarramente, pelos manequins bem vestidos nas vitrines de ambos os lados. E pelos pelados também. Até pelos sem cabeça. Gica calmamente fixou numa presilha a franja grande que lhe escondia boa parte do rosto, enquanto Sandro terminava de contar a história. Era a primeira vez no dia em que ele via o rosto de Gica por inteiro, e ficou surpreso quando pôde constatar que era bonito. E de repente se desprezou por isso. Não parecia certo olhar para ela daquela forma. Porquê? Devido a um motivo que não cabe ser mostrado agora – mas caberá em algumas linhas mais à frente – apesar de que duas horas atrás os dois ainda nem se conheciam. Curvou-se para amarrar os cadarços do tênis, em seguida concluiu a história de como a rainha de um reino distante conseguiu adivinhar o nome de Rumpelstiltskin em três dias, e com isso salvar seu bebê, o futuro príncipe. Ele não se lembrava mais de como tinham entrado no assunto, mas gostava desse conto de fadas. Não se orgulhava por gostar de contos de fadas.


- Deixa eu ver se entendi essa história... – disse Gica, confusa – O anão diz pra rainha que se ela não descobrir em três dias qual é o nome dele, ele vai roubar o bebê dela. É um tremendo filho da puta, porque existe nome pra caralho no mundo – acrescentou, parecendo irritada – No final da história, ela descobre que o nome dele é Rumpels... Rumpelsjin...
- Rumpelstiltskin – disse Sandro, rindo – Não acredito que depois de cinco minutos te ensinando a pronunciar, você ainda não aprendeu – provocou.
- NÃO RIA, é complicado.
- Nem é. Rumpels. Tilts. Skin. – disse, pausadamente.
- Dane-se esse nome aí, e dane-se você – disse, esmurrando-o de leve no braço. A diferença de altura entre os dois era grande, de modo que sua cabeça só alcançava o ombro do garoto – Então... No terceiro dia ela diz esse nome pra ele, e aí a história acaba?
- Uhum – respondeu Sandro, largando gentilmente o skate no chão para esfregar em sua calça as mãos que havia molhado na saída do banheiro do shopping. Aproveitou também para limpar na blusa seus óculos de lentes grossas, mantendo o skate parado sob o pé – Mas a história não acaba assim, de repente. O Rumpelstiltskin meio que... Derrete.
- Derrete?
- É, ele é sugado pro chão. Tipo com um círculo de chamas ardendo ao redor dele. É um final bem dramático, ele fica gritando... Como se fosse um diabão voltando pro inferno, é bem bizarro.
- Então... É isso o que ele era? Um diabão? - perguntou Gica, espreguiçando-se.
- Sei lá, talvez.
- Pera, não explica o que ele era?
- Não, não explica.
- Que bosta.
- Ah, mas acho que isso é o legal, você não saber o que o Rumpelstiltskin era.
- Claro que não, seu doido, e se eu tivesse pagado pelo livro? Se eu paguei, eu quero um final pra isso – rebateu Gica, impaciente.
- Ué, você ia ter pago pra que autor do livro te desse a chance de abrir as portas pra sua imaginação. Pra você poder concluir a história do jeito que quiser – disse Sandro, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- What? Eu posso fazer isso de graça com qualquer livro, é só eu parar a leitura três páginas antes de acabar e nunca mais ler de novo. Porque eu pagaria pra alguém não terminar uma história pra mim?

- Tá reclamando de quê? Eu nunca ficava acordado até o fim das histórias que a minha mãe contava pra eu dormir.
- Minha mãe nunca me contou história nenhuma.
- Mas a história termina – insistiu Sandro, impaciente – só que a gente fica sem saber o que exatamente o Rumpelstilsssjkin era, fica meio no ar.
- AHÁ! Você errou. Não falou o nome direito! – gritou Gica, apontando para a cara envergonhada de Sandro.

- Nah, é só porque falei apressado.


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Escrito por Eilton Ribeiro (que ainda não tem um blog, mas possui Facebook)


Comentários

  1. 1° Nem eu sei pronunciar Rumpelstiltskin.
    2° Você sabe que da primeira vez que li, mesmo estando apenas no começo, eu já previa o que iria acontecer com os dois. Mas foi bom porque a química entre eles é ótima. Dá pra notar nos diálogos que, por sinal;
    3° Eu adorei. Ok que você pensou que eu não aceitaria. Mas ficou engraçado. Gostei das sacadas e piadinhas.
    4° Não ficou exatamente claro porque os dois terminaram. Ao menos não me recordo de haver uma explicação pra isso. O cara só não queria romper pessoalmente, aí mandou o amigo. Daria no mesmo se ele o fizesse por SMS. E, assim;
    5° Não acho que a Gica mereceu. E nem penso que por ser pensar um pouco diferente, ela desmerecia o rapaz (como a tia dele fez parecer).
    6° Sandro quebrou algumas regras por causa dela. Porém, ele não foi nada exemplar: tendo cabulado aula pra ir ao shopping.rs. (Por isso falei da química. Eles meio que se combinam).

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  2. Abri o conto inteiro aqui para ler, to fascinada pelo diálogo, leve, espontâneo e tão real. Já gostei dos personagens e to torcendo pra rolar algo.
    Parabéns pela história, você tem talento, deveria investir em um livro.

    http://www.novaperspectiva.com/

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  3. Em Once Upon a Time chamamos de Rumple. Simples assim, porque o nome completo é mesmo complicado de dizer. Nunca li uma história dele e acho que prefiro assim. Temo que ele seja pior do que minha mente imagina.

    Beijos

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    1. Nunca vi Once Upon a Time (deve ser legal), mas adoro o Rumplestiltskin por causa do conto dos Grimm, é muito bom. No youtube tem uma versão encenada da história, daquele antigo programa Teatro Contos de Fadas, é legal de ver. :)

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  4. É assim Emile... existe muitos escritores que, deixa certas partes do livro para o leitor imaginar, completar, outros é mesmo erro, faltou complementar, falta continuidade, falta parte da história por que, se seguiu outra linha de pensamento... a maioria de nós somos assim no dia a dia: estamos contando uma história, no meio, surge outro assunto, e pronto: lá se foi aquele outro assunto.

    Quando é uma linha de ação do autor, tudo bem. Irrita mais, é quando, não é uma linha de ação, uma ação proposital do autor. Ai, fica ruim para o autor.

    E, por outro lado, tem leitores que, são exigentes. As vezes é só isto mesmo: Ele surge sem explicações, vive sem lógica, e desaparece de forma estranha. Pense em Jesus por exemplo.
    Nasce de forma diferente: de uma virgem;
    Vive curando pessoas, ressuscitando mortos, ajudando marginalizados;
    Morre e ressuscita
    E sai deste mundo de forma extraordinária: subindo ao céu, e sumindo entre nuvens.
    Há personagens que são assim, e pronto!

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    1. Hã... é uma resposta ao meu comentário acima? ó.ó

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  5. Comecei a ler e a leitura foi fluindo rápida... Aí vi que tinha um link para a continuação. Cliquei, claro. E levei um puta susto com o tamanho do texto, hahaha! Não me entenda mal, sou apaixonada por palavras: só me assusto com os textos grandes na internet, a internet com suas muitas guias abertas, chamando-nos à distração o tempo todo.

    O FATO É: dessa vez, não houve distração. Como eu disse, a leitura flui rápida, envolvente, e, caramba, como é boa! Ri com os diálogos da Gica e do Sandro, relacionei a Zezé como uma mistura de vários professores que já tive. E o final, pela forma como a Giga o beijou (o Sandro), foi surpreendente.

    Se ficaram juntos depois, quem sabe? Assim como no conto de Rumpelsjin (não, zoa: Rumpelstiltskin), ficou aberto à imaginação de cada um...

    Beijos ♥ Jeito Único

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    1. Não achei que alguém iria ler por inteiro, obrigado :)

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  6. Não li o conto na íntegra (ainda), mas só essa "palhinha" já me atraiu bastante. Não curto ler coisas grandes na internet - acredite, nunca consigo terminar um PDF -, mas este eu realmente quero ler. A escrita é maravilhosa e a leitura é simples. Adorei. Parabéns e bom, aprendi a pronunciar Rumpelstiltskin assistindo ao último filme de Shrek! Haha!

    Beijos || Empire Kawaii

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    1. Obrigado :) Haha, por causa do Shrek as pessoas devem achar que ele é um fdp, mas na real é um personagem legal. :3

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  7. As pessoas são loucas simplesmente assim

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  8. Muito bom o texto, assim que tiver tempo irei ler o resto ;)
    também gosto de escrever, mas não escrevo no meu blog que uso no dia a dia,
    escrevo no: inventariodehistorias.blogspot.com :)

    Bjks!
    Chá das 22

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  9. A fiandeira de ouro! Li esse livro quando tava na terceira série porque ia ser protagonista (que não me vem o nome na cabeça agora :c) e tive que decorar as falas. Sendo que não consegui aprender a falar o nome do Rumpelstiltskin e na hora, simplesmente falei. Certo. Só que a partir daí virou o meu conto favorito e que, na minha imaginação, ele foi "engolido" por ter sido descoberto ou algo assim. Mas é boa a teoria dos deuses. E você escreve tãaaaao bem! <3 A leitura flui e é engraçada, e fofa, e aw!

    Um abraço da Pê!

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