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Mostrando postagens de Julho, 2014

Mãe

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Torradas com manteiga e café com leite bem açucarados. Bolachas. Frutas. A mesa está pronta. Ela senta, aguardando a criança para o café. A mesma chega coçando os olhos. “Bom Dia!”. Um beijo na bochecha gorda e um abraço forte.

A menina devora tudo. Ela só bebe o mesmo café de sempre, enquanto lê o jornal. Terminado, ela levanta e manda a garota se arrumar antes que se atrasem. A mulher faz o mesmo. Terno preto, sapatos e luvas. Óculos escuros só pra fazer charme. Coloca o que precisa na mala e chama a menina. A deixa na escola e vai ao trabalho.
Estaciona o carro um quarteirão antes e se troca. Mansão. “Conserto da TV”. Mostra identidade. O segurança a deixa entrar. Vai para a sala. Mexe nos cabos. Espera estar sozinha. Sobe as escadas. Quarto do bebê. O pai está brincando com a criança. Ela fecha a porta e se aproxima lentamente. Agarra o homem e o apaga. E por um momento ela sente algo que nunca pensou que sentiria na carreira. Hesitou. Por um breve momento apenas. Mas devia ser f…

Cara, você é muito eu (por Eilton Ribeiro)

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Gica arrotou. Aquela era uma situação bem estranha. Os dois caminhavam lado-a-lado naquele corredor largo, sentindo-se observados não só pelas pessoas que passavam, mas também, bizarramente, pelos manequins bem vestidos nas vitrines de ambos os lados. E pelos pelados também. Até pelos sem cabeça. Gica calmamente fixou numa presilha a franja grande que lhe escondia boa parte do rosto, enquanto Sandro terminava de contar a história. Era a primeira vez no dia em que ele via o rosto de Gica por inteiro, e ficou surpreso quando pôde constatar que era bonito. E de repente se desprezou por isso. Não parecia certo olhar para ela daquela forma. Porquê? Devido a um motivo que não cabe ser mostrado agora – mas caberá em algumas linhas mais à frente – apesar de que duas horas atrás os dois ainda nem se conheciam. Curvou-se para amarrar os cadarços do tênis, em seguida concluiu a história de como a rainha de um reino distante conseguiu adivinhar o nome de Rumpelstiltskin em três dias, e com isso s…

Sentinela

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Natalie,
        Não me conhece, mas eu sei quem você é. Embora você não tenha me notado: estou aqui. Observo-te todos os dias. Sei que horas sai para ir ao colégio...Parecia tão desanimada ontem..O que houve? Queria fazer parte da sua vida, carregar seus fardos, te faria sorrir todos os dias! Gosto quando usa aquele jeans preto. Quando sai aos domingos sinto ciúmes porque não posso saber com quem - e isso me frustra. Não saio muito. Mas observo tudo. 
        Não deveria estar contando uma coisa dessas, vais achar que sou um maníaco tarado depois de saber disso: quando tinha 13 anos eu te vi pela janela da sua casa. Estava na laje da vizinha. Te vi sem querer. Estava se olhando no espelho, usava apenas calcinha e camiseta. Desde aquele dia...desde aquele bendito dia, não a esqueci mais. E não tem como! Nem mesmo se eu quisesse. Persegues os meus pensamentos, estás entre eles. Faz-me companhia quando estou na escola. Sei que sabes da minha existência, apesar de me ignorar. 
          …

Croqui (por Washington Albuquerque)

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As janelas abertas preenchiam o quarto. Não existia mais a escuridão, apenas vestígios dóceis. Próximo a uma parede, estava ela. Agachada e observadora, a menina. A luz refletia com afinco em sua camisa branca, cortada pela pressão das alças do suspensório. A luz refletia fosca em sua calça preta de costuras rasas, e brilhava sobre seu sapato.
O som da ponta do lápis em sua mão ecoava pelo quarto, e os traços corriam vorazes e inspirados sobre as folhas em seu colo. Seus olhos brilhavam por detrás de seus óculos rústicos, e tudo ali estava em perfeita harmonia - só quebrada quando seu sorriso se espalhava e criava um novo clímax a todo o cenário.
 Do lado de fora o vento estava quieto, como se quisesse interpretar o som dos traços sobre o papel, tentado ler o desenho que surgia. Ela observava um detalhe a sua frente. Sobre o piso de madeira havia um armário de madeira, e nele, uma chave suspensa que resplandecia com um êxtase viril. O detalhe.  O apogeu do desenho, da observação. 
Por…