Culpado (por Rodolfo Willian)

           Frio. Parecia tudo o que Otto podia sentir. Não aquele frio que se experimenta ao tocar o solo gelado com os pés descalços. Nem mesmo o frio promovido pela brisa noturna à beira mar, um frio mais denso, algo que quase poderia ser tocado, que partia de dentro como se sua própria essência fosse feita pela falta de calor. Nunca imaginou que se sentiria assim depois de morrer. Dizem que a vida toda passa diante de seus olhos no momento da morte. Otto agora entendia que essa máxima era ainda mais intensa. Não só vislumbrara imagens desconexas de sua vida no momento final, como elas ainda insistiam em se repetir enquanto ele caminha pela rodovia escura na qual se deu seu fim. Era noite. A mais escura noite.

         Nunca fora religioso. Não por falta de convicção ou visão religiosa, mas por pura conveniência. Preferia pensar que, se ele não se atrevesse a encarar o oculto, ele nunca o incomodaria. Passou a pensar diferente depois daquela noite. Por mais que se esforçasse, não conseguia entender como tinha chegado naquela situação. Conseguia reproduzir seus passos anteriores. Mas em determinado ponto eles sumiam, como se tivessem sido apagados. Mesmo assim, ele tentava remoer as lembranças enquanto caminhava sem rumo, descalço e sujo pela rodovia deserta.

           Coisas que antes não faziam diferença começavam a surgir em sua mente como um lampejo. A primeira bicicleta, as amizades da escola, o primeiro amor. Andava como se sentisse todo o peso de uma vida sobre suas costas. Não sabia dizer com exatidão, mas sabia que algo ainda o prendia ali, algo a ser alcançado, um estado de espírito talvez. Não sabia ao certo, apenas não podia parar de caminhar. À medida que andava, sentia o vento da noite ou a sensação dele. Notou uma marca de pneu na pista castigada pelo tempo. As marcas indicavam que um carro, possivelmente em alta velocidade, freou bruscamente e virou à esquerda, de encontro a um pequeno matagal. Otto foi impelido a seguir a marca. Talvez ele tivesse sido o motorista a realizar tamanha manobra. O matagal escondia um enorme declive, e em seu interior jazia um carro tombado e todo amassado.

           Não resistiu e desceu quase flutuando até alcançar o veículo. Ao se aproximar, percebeu varias pessoas a sua volta que, assim como ele, estavam rasgadas e feridas. Elas emanavam uma aura de tristeza e pareciam tão etéreos quanto Otto. Olharam todos ao mesmo tempo para ele. Olhares tristes se transformando em ódio. Punhos cerrados e feições ameaçadoras. Todos, crianças, adultos, homens e mulheres que se amontoavam perto do carro partiram contra Otto, que assustado se jogou no barranco. Desesperadamente ele tentava se agarrar ao solo para subir. Porém fora pego por mãos que lhe seguraram as pernas. Duas, quatro, várias mãos o segurando pelas roupas, cabelos - todos forçando-o para baixo, arranhando e puxando. Otto, no auge de seu desespero, tentou gritar. A voz não saía. Sentia sua essência sendo tragada para o fundo. Lutava contra a força de dezenas. Não aguentou e cedeu. Escuridão. Vazio.

             Apareceu novamente na mesma rodovia. A cabeça girava. Sentia ânsia, mesmo percebendo que seu corpo não estava ali. Antes que conseguisse se colocar totalmente de pé, viu surgir uma luz em sua direção. Rápida, Agressiva. Protegeu o rosto com as mãos, esperando o impacto que não veio. Barulho. Cheiro de borracha queimada. O carro, vendo Otto, se desviou bruscamente para o barranco se chocando em seu interior. Silencio. Após alguns eternos segundos, várias pessoas apareceram das sombras e ampararam aqueles no interior do carro acidentado - como se recepcionassem os novos moradores do local. Apontaram para Otto que, com medo, voltou para a pista. Tinha medo de ir até ali, se sentia seguro na rodovia. Sentou e tentou chorar. As lágrimas não vieram, o que veio foi mais um par de faróis em alta velocidade. Abaixou o rosto, sem vontade de se proteger do impacto certo. Esse também não veio.



Escrito por Rodolfo Willian (que não tem blog, mas possui Facebook)

Comentários

  1. O texto foi muito bem escrito, segurando o suspense e dando detalhes pertinentes sobre o personagem. Nos momentos finais eu imaginei a cena na minha cabeça, como um sonho. E o conto me intrigou, me deixou na dúvida do que pensar. Ele morreu fisicamente também, ou foi uma morte apenas interior?
    Ótimo conto.

    ResponderExcluir
  2. Nossa , muito interessante e mesmo carregado de suspense, amei o texto

    ResponderExcluir
  3. Olha só esse Rodolfo me deixando com o coração apertado na segunda de manhã! Fiquei me questionando porque Otto preferiu ter um destino tão cruel, mas não consegui chegar a lugar nenhum. Acho que ele estava cansado da vida, vivendo de um passado ou algo assim. Realmente o final foi bem triste, mas acredito que talvez tenha sido a melhor saída.

    Beijos,
    Blog Procurei em Sonhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado!
      Acredito que o mais legal dos contos são os finais fortes, espero que tenha conseguido fazer um final legal pra esse.

      Excluir
  4. Super forte o texto, começando muuuito bem a semana por aqui!

    ResponderExcluir
  5. Sombrio e envolvente, como meus textos favoritos! Adorei.

    ResponderExcluir
  6. Nunca li um conto tão bom, desculpe, mas vou ter de soltar um palavrão: puta que pariu. Ele descrever a morte, a pós morte de um jeito que até arrepiou. Sensacional.

    novaperspectiva.com

    ResponderExcluir
  7. Adorei o texto. Assunto que me interessa, além de muito bem escrito. Soube dosar o mistério com a confusão de Otto, até um final surpreendente - outra coisa que adoro. Apaixonada pela escrita do Rodolfo.

    ps: Não tem blog o cacete. Manda criar um blog agora.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu!
      Tenho vários contos nesse segmento, vou postar mais alguns por aqui.
      Valeu pela força

      Excluir
    2. Agora tenho blog
      http://contosdorodolfo.blogspot.com.br/
      :)

      Excluir
  8. A gente sempre pega algumas coisas lendo da segunda vez. Mas, não. Só percebi alguns errinhos que passaram na minha revisão. O conto é exatamente o mesmo de quando li, na edição que fiz. É a primeira vez que a temática sobrenatural aparece dessa forma no blog. Eu gostei. Só fiquei com aquela dúvida se o personagem tinha consciência de que estava causando tudo aquilo. Porque parece que ele mal se dava conta de que estava morto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela oportunidade!
      Espero mandar mais contos pro blog!

      Excluir
  9. Caramba que conto incrível!!! fiquei sem fôlego. Parabéns pela escrita... pode ser lido de maneira literal ou metaforizado... incrível... continue nos agraciando com contos desse nível!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Xará!
      Sempre que puder posto mais coisas por aqui.

      Excluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Dois gatos

Teste de Coragem

Teto de verniz