Boato feito, boato refeito

          Deu uma boa olhada na caricatura de um gato mal-humorado no muro de sua casa. Moveu-se para o lado, segurou as alças da mochila. "Um grafite bem feito”. Fazia duas semanas desde que se mudaram para esse bairro. O boato se espalhou feito água esparramada no chão. Diziam que eram perigosos, gente metida com máfia, drogas, traficantes. "De onde tiraram isso?", Ingrid pensava enquanto fazia o caminho para a escola. Ficava apenas a duas quadras. A mochila nas costas pesava, era preciso levar os livros. "Que falta de sorte". Ela para em frente a um gato preto, os dois se encaram. O gato para por um instante. Ela faz cara de mau. O felino corre. 

           Um buraco na calçada a fez parar, investigou o caso. Tratava-se de uma cratera feita por um pneu de carro em cimento fresco. Como a caricatura, produto de algum enxerido. Seus doze anos faziam juz ao seu corpo. Era magrela, os cabelos cumpridos que amarrou em um rabo-de-cavalo, castanhos. Os olhos do tamanho de sua curiosidade. Miúda. Os muros da escola tinham lodo nos pés e bolor nas paredes. Não tinha desavenças, graças ao boato. “Se fosse mesmo filha de traficantes não estudaria aqui... Como podem ser tão burros?”. Ingrid regrediu os passos ao notar os olhares indiscretos. 

          Era ela a causa dos cochichos nos corredores. “O que vocês sabem sobre a minha vida?”, correu com as mãos nas alças da bolsa. Tropeçou num declive do pátio. O riso tomou conta de todos, até o porteiro riu. A menina engoliu o choro da humilhação e encarou a todos com aquele olhar. Um olhar negro. Feito o grafite no muro, feito o gato que atravessou seu caminho. “Temam. Poderão estar mortos amanhã”. Como ela queria que aquilo fosse verdade... Sua família não mandava em nada. Eram pobres, tinham dividas. “Ah, esquece, não vale a pena soltar o berro com essas pessoas”. A mentira perdurou todo o Ensino Fundamental e parte do Médio, quando finalmente descobriram: a família de Ingrid era pobre. (Souberam depois do boato de que seu pai foi morto por causa de uma dívida que deixara a família em apuros financeiros, é claro).



Imagem: Mimado

Comentários

  1. Adoro seus textos. Dá pra imaginar tudinho, a situação, a menina e a mentira.

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  2. Caraca, vejo muito da ideia de que as aparências enganam aí, e vamos falar, a boca do povo é abençoada, não? Boatos que se espalham sem serem corrigidos, repercutem de forma inimaginável, mesmo em um lugar como uma escola. (sdds school).

    Isso aí :)
    xoxo

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  3. Que história singular... O modo como as palavras se unem é de forma bela e misteriosa até, demorei certo tempo para encaixar algumas palavras com alguns aconteciemntos da história. Não sei dizer ao certo o que pude bem interpretar. Boatos são coisas que se espalham tão rapidamente, num momento falam uma coisa e em seguida falam algo completamente diferente. Olhar alguém ligeiramente e dizer algo sobre o mesmo é tão feio mas algo que todos fazem. E depois de conhecer descobrem a real maneira de ser.

    Xoxo || Once Upon a Time

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  4. Fama de mafiosa? Eu ia adorar. Tem tanta fofoca que te coloca "abaixo de pó de merda", como dizem, por aí, que fama de perigosa era a melhor coisa que eu poderia querer.
    As pessoas são maldosas. Aprendi recentemente que sempre vão falar, e pra ser honesta, eu gostaria de ter aprendido essa lição mais cedo. O jeito, infelizmente, e por mais clichê que isso possa parecer, é deixar pra lá. Não vale a pena brigar pra ter uma posição melhor na cabeça de quem dá ouvido à fofoquinhas. Fico feliz por Ingrid, que já sabia disso aos 12 anos. Adorei o texto!

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  5. Que bonitos e bem construídos são os seus textos.
    Boatos são coisas complicadas mesmo, as pessoas gostam deles, criam fantasias para aumentar e inventar histórias para tentar fazer a realidade se tornar mais interessante. E, enquanto ilude alguns, machuca outros.

    Boa semana (:
    Beijos

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  6. As aparências continuam enganando.

    Muito bom texto!

    Eu já pensei sim em escrever um livro para crianças. Adoro desenhar também, vivo com minhas aquarelas, escrever e ainda ilustrar um livro é um sonho que tenho, espero que um dia eu consiga esse caminho mesmo. Obrigada pelo comentário, fiquei muito feliz!

    Beijos!

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  7. Seus contos são sempre ótimos, Emilie. E as aparências continuam enganando, não é? Pude imaginar tudinho, em um cenário cinzento, a menina, a vergonha e a mentira. É triste e realista. Os boatos correm mais rápido que muita gente não consegue fugir, e a protagonista da sua história é uma dessas que não conseguiram escapar.
    Beijos || Unlocked Land ❤

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  8. Acho demais como você consegue construir tão bem toda uma história em tão poucas linhas. Simplesmente não consigo construir uma linha de raciocínio com menos de uma página... hahahaha. Gostei muito!
    Beijão.

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  9. Emile, imaginei cada cenário, cada fala. Perfeito. A imaginação das pessoas é infinita. Seria tão bom se a usassem para fins mais nobres e dignos, não?
    Beijo, menina

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