Letícia (por Mayra Borges)

          A festa já estava quase no fim quando você sentou-se perto de mim tirando o salto alto e rindo como se me conhecesse de uma vida inteira. Um sorriso largo de dentes brancos, de lábios carnudos e vermelhos. A princípio fiquei sem reação, porque em segredo durante toda a festa os meus olhos castanhos rastrearam todos os teus passos pelo salão, todas as voltas da tua dança bonita, todas as ondulações desse teu cabelo cor de fogo, eu estive te filmando a festa inteira. E então você olhou pra mim com um olhar desses que a gente sente batendo com força como ressaca depois de um domingo qualquer, um olhar que faz o estômago afundar e as mãos ficarem geladas. Eu percebi que olhava pra você com cara de boba, será que você notou?

                - Ta tudo bem, você parece triste?

Desde aquele dia nunca consegui esconder nada de você.

                - Por que diz isso? - olhei de volta pra você surpresa com a pergunta.
               - Não te vi dançando, na verdade você ficou aqui sozinha a festa inteira, desculpe, mas não pude deixar de notar.
                - Ahh. - minhas bochechas enrubesceram; afinal você também me observara durante aquela festa chata de casamento.                        
                - Hoje não está sendo um bom dia? - você me perguntou e sorriu ao mesmo tempo.
                - Acho que sim, um pouco... - lembro que desviei o olhar de você para o outro lado do salão.
                - Então vem!

                E você não esperou que eu respondesse, largou os saltos ali no chão e me puxou pelo braço e eu me deixei guiar até a pista de dança, como não te seguir? Pensei. E você me fez dançar, e você me fez feliz, em poucos segundos juntou meus cacos e voilá lá estava eu acompanhando seu sorriso enquanto cantava Fidelity da Regina Spektor. Hoje sei que a alegria tem cabelos vermelhos e olhos de ressaca:

                - Como é teu nome? - quis saber.
                - Letícia! - você gritou e eu sorri a primeira vez aquela noite.
                - Você sabe o que significa?
                - Não. E o seu nome?
                - Mariana.
                - E o que significa?
               - Não sei. - sabia, mas não era hora. Preferi observar você dançando em movimentos rápidos de braços e pernas, preferi me concentrar na curva do teu sorriso, era o sorriso mais lindo que eu já vira, poderia armar acampamento bem na curva dos lábios ali e ficar pra sempre, mas pra sempre é tempo que a gente não tem.

            A festa acabou, mas você anotou o telefone num guardanapo e disse: 

           - Me liga! 

           Eu fiquei ali no meio do salão por um tempo e então vi você voltar correndo pra buscar os saltos que havia esquecido, lembro-me do seu olhar quando se deparou comigo sozinha ali. Sem dizer qualquer palavra você passou por mim, pegou seu salto e me puxou pelo braço. E eu fui. Pra quê resistir quando tudo que a gente precisa está bem diante dos nossos olhos e ao alcance do coração? Segui e continuarei te seguindo até além do meu limite. Você me puxou pelo braço, caminhamos até aquele parquinho no final da rua e sentamos no balanço.

            - Por que me trouxe até aqui? - perguntei.
            - Eu também não quero ir pra casa e esse lugar me traz boas lembranças.
            - Entendi, mas por que eu?
            - Sei lá, gosto do jeito que brinca com as mãos e do cheiro do seu gloss de menta.

E eu sorri de novo, meu Deus como tudo era fácil, como tudo continua sendo fácil.

            - Isso é bom.
            - E você, por que está aqui comigo?
            - Gostei do teu sorriso e desse teu olhar de ressaca.
            - Ressaca?

Eu te expliquei o que significava e então sorrimos e logo depois senti teu beijo doce nos meus lábios, suave e quente.

            - Sabe por que eu voltei para o salão?
            - Por causa dos teus saltos?
            - Não, fiquei com medo de você não me ligar.

Sorrimos e nos beijamos mais uma vez.  

              Sabe o que o meu nome significa? Mar de amargura, Mariana é o nome de uma das maiores fossas oceânicas e antes de você eu era abismo sem fim, mas quer saber? Você me convenceu do quanto é estúpido linkar amor a sofrimento, e a Mariana virou mar de Letícia, mar de alegria. Lê com você eu aprendi que o amor é óbvio, nós é que insistimos na cegueira. Hoje você continua me chamando e eu continuo te seguindo, e como não te seguir? Garota dos olhos de ressaca.



Escrito pela Mayra Borges, do Era Outra Vez Amor


Comentários

  1. Não é o primeiro conto yuri do blog porque teve o Loop (do Felipe). Porém, com certeza, é o mais fofo. Tive que me conter enquanto o revisava para o blog, Mayra.

    Agora, sobre o conto: você sabe que a adolescência é a época em que as pessoas estão se descobrindo e experimentando. Então, foi legal ver o que a Mariana sentiu pela Letícia. Fiquei curiosa sobre a festa: era um baile de formatura? Por que será que só consigo imaginar as duas como colegiais? >.<

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  2. Awnt! Mais que texto mais kawaiizudo (risos)! Bom, eu pude sentir daqui as faíscas desse amor entre a Mariana e a Letícia. Só tenho a dizer que amei.

    Ah, Vulgo Emilie, sobre a festa eu acho que era a de um casamento, pois nessa parte aqui falou isso: "[...] afinal você também me observara durante aquela festa chata de casamento.". Enfim, acho que é só. Chu ~♥

    Sendo Livre

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  3. Oi gente, fico super feliz em participar aqui do blog e ainda mais feliz que tenham gostado do texto.

    As moças aí não são colegiais, mas você pode colocá-las no contexto que preferir é por isso que deixo algumas lacunas pra que a imaginação do leitor corra livre!

    Beijos!
    Eraoutravezamor.blogspot.com
    Semprovas.blogspot.com

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  4. Caraca .-. Não só o romance, mas em si, o texto passa uma sensação intensa, uma sensação de euforia, choque, excitação e uma emoção contagiante. Não sei onde exatamente quero chegar rs, mas foi muito bom ler isto! o/

    Isso aí.
    xoxoxo
    UGDU

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  5. Ai, que delícia começar a semana com esse texto lindo. Muito amor. Mesmo. <3

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  6. Que texto amorzinho. É legal a maneira como a gente se prende, como a história não tem tabus, como a vida parece fácil quando a gente permite que ela seja!

    La Diabolique - Fan Page

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  7. Uau! Desconcertante e emocionante... e olha que eu não costumo achar a menor graça em textos românticos.
    Beijinhos

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  8. Se esse texto fosse feito para mim não teria se encaixado tão perfeitamente. Até nos nomes utilizados, foi tanta coincidência que fiquei até abismada quando o li. Fácil leitura e entendimento, sem lacunas e apenas sentimentos. Só posso dizer (como pseudo-blogueira que sou) que ficou excelente, parabéns!

    Tem peripécia nova, viu? Quando tiver um tempinho...
    Um beijo enorme!
    http://sweetjaneand.blogspot.com.br/

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  9. Li esse texto da Mayra a um tempão no blog dela, e lembro de ter comentado lá que foi um dos meus favoritos do Era Outra Vez Amor. Simplesmente AMO.

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  10. Que amor de conto! Que eu me lembre, ainda não tinha lido contos de amor entre meninas. Achei de uma singeleza e delicadeza ímpar, gostei muito!

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  11. Adorei, tão fofo... Acho que esse é um dos textos mais bonitos que li aqui no Emilie Escreve. Também não consegui pensar nas duas de outra forma se não colegiais. *--*

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  12. Que lindo!! Visualizei toda a cena. Muito meigo e verdadeiro. Adorei!

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