Traça & Formiga #4

“A devoradora de livros e o obcecado por heróis inseto. Também conhecidos como...”




          “Será?”. A questão surge enquanto ela aguarda pelo trem. “Acho que fui bem”. Confiança repentina. “Mas e se ela me odiou?”. Insegurança toma o lugar. “Não, não. Sem isso, moça. Respire fundo. Quando ligarem, você saberá. E cadê esse trem?”. A leitora estava impaciente. Acabara de sair da entrevista na biblioteca. “Se ao menos eu tivesse trazido um livro... Que tédio”. Ela seleciona uma pasta de músicas no celular e as escuta. Um sinal ecoou na estação. O transporte se aproxima, diminuindo a velocidade. “Finalmente!” reclama ela. Um guarda aparece ao seu lado, aguardando a parada do trem. As portas se abrem. Do vagão em frente aos dois os passageiros saem com desespero. Dedos no nariz. Feição de nojo. “Que horror", alguns falavam. Esvaziado, o guarda entra. Ágata escuta alguns resmungos. O segurança arrasta um moribundo para fora do vagão. “Não quero te ver mais aqui, entendeu bem?” - diz ele zangado, e sai. “Precisa de tanta violência?” - ela exclama, amparando o pobre coitado... Até notar seu capacete ridículo com antenas enormes. Outro sinal toca. “Devido a problemas em um dos vagões, este trem será recolhido. Aguarde o próximo trem. Obrigado” é anunciado na estação. A moça berra e chuta o mendigo. “AAAAAAAAAI. O QUE ACONTECEU COM ‘Precisa de tanta violência?’ HEEEIN??” - o Formiga resmunga. “IDIOTA! Agora vou ter que esperar quase uma hora pelo próximo trem. Se ele vier né! O que fazia nele, aliás?” “Levaram a minha lambreta super sônica suprema”. “.......................... A bike?”. “Não é uma ‘bike’, é um veículo veloz que necessito nas minhas patrulhas... ora bolas”. “Mas é CLARO que é”. “Então apareceu esse trem mágico que viaja no tempo e pensei ‘por que não?’”. “Deus, por que eu perguntei?” - ela põe a mão no rosto.

               Ele levanta. Tira poeira dos trapos, e caminha calmamente em direção a saída. Ágata solta um suspiro e caminha junto dele. O inseto tira um sanduíche mordido do bolso. “Hum?” expressa oferecendo. “Uh... onde conseguiu isso?” “... Já vi que não. Jogam cada coisa no lixo”. Ele dá mordidas rápidas e devora o lanche com pressa. “Aaaaah... estou cheio”. “Parece que emagreceu... Isso não faz mal para você?”. “Nah... Meu corpo mutante resiste a... a.... ATCHIM!!” “Como dizia...” “Sim, sim, resiste a tudo... Exceto açúcar em excesso... E tamanduás. Esses são os piores... brr”. “Então você tem fraquezas afinal”. “Tenho... M-MAS NÃO SAIA ESPALHANDO POR AÍ!”. “Ok, ok... Eu prometo”.

                    Embora Formiga admitisse estar bem, ele parecia pior que da última vez que se encontraram. Mais magro. Menos ágil. Parecia né. Mas a animação era a mesma. “Tem certeza que está satisfeito? Eu posso comprar algo pra você”. “Eu recuso”. “Mas... Você tá...” “Eu estou ótimo, obrigado. E mesmo se não estivesse, me recuso a aceitar presentes. Você pode precisar mais do que eu. Eu me viro”. “Não seja ridículo, olha pra você”. “Eu disse não”. “...” “Existem muitas pessoas com problemas. Com necessidades. Não faço parte delas. O mínimo que posso fazer é ser o otimista e dividir o que eu possuir, não importa quão pouco seja. Não sou mais importante ou melhor que ninguém. E gastarei minhas poucas energias para proteger e ajudar quem precisa”. “... Então você admite que está mal?” “Como assim?” “Bem, você disse ‘poucas energias’ né?” “... Droga”.

                    Continuam subindo a rua. Ágata já desistiu de voltar cedo para casa. O super herói para. “Graças a deus. Chegamos” - disse ele com alívio. “... Aonde?” “Meu esconderijo”. “... Cadê ele?” “Ali embaixo”.  A moça olha para baixo, e repara em um pedaço de papelão estendido na calçado, cheio de bugigangas esquisitas, entulho e lençóis. “... ISSO É SEU ESCONDERIJO??” - ela desacredita. “Lindo né?” “Você vai é pegar uma doença”. Algo se move debaixo das cobertas sujas. Pula em direção à leitora, latindo. “Aaaah, Pulga. Que saudade de você” - ela acaricia o mascote, que sorri e abana o rabo de felicidade. “Ele também sentiu sua falta”. Então o cão rosna e fica irritado. “Que foi garoto? Eu não fiz nada de errado né?” “Acho que não foi você, moça”. O bicho salta dos braços dela e começa a latir, olhando para alguém atrás deles. “Oh, que casalzinho mais fofo. Quase aquece meu coração”. Os dois viram para trás. Uma mulher toda trajada de verde, perfumada e com antenas purpurinosas na cabeça. 

                          A glamourosa olhava para as unhas enormes enquanto era sarcástica. “Você!” - disse o mendigo com fúria. “Erm... amiga sua?” Ágata não sabia se ria ou achava tudo normal. Depois de tanto andar com aquele inseto, quase tudo parecia normal. Quase. “Aaaaaah, meu formiguinha. Sentiu minha falta?” pisca a estranha fazendo um biquinho para o moço. “Que coisa mais linda, coração acelerado, eu o encontrei finalmente, meu amado”, canta com uma voz incrivelmente bela. “Saia já daqui seu monstro” - ameaçou o inseto. “Eu tenho trabalho a fazer, e não preciso dos seus planos diabólicos me atrapalhando”. “Aaaaaaaaah, que chato. Seu papo de trabalho sempre me entedia. Qual a graça de um mundo imenso e colorido se não podemos nos divertir consumindo ele inteirinho?” ela canta com as mãos no peito e olhando para cima. Volta a olhar para os dois. “Ai, que falta de educação a minha. Sua amiga parece bem interessante. E QUE CABELO LINDO E AZULADO. AMEI. Eu sou Miss Gafanhoto. Te amarei até não restar mais nada de você, okay?” Ela faz um coração com as mãos e sorri.


                     “Fique longe dela, monstro” ele entra na frente da amiga. “Aaaah, que cruel. Assim eu vou chorar. Esqueceu de quando éramos amiguinhos?” ela o abraça e acaricia o capacete com delicadeza. “Pode esquecer... Minha máscara me protege dos seus poderes de manipulação”. “Aaaah, que peninha né? Tudo bem. Existem muitos macaquinhos inseguros e desesperados por um pouco de afeição nessa cidade. E eu sempre estarei lá para cantar e oferecer meu amor... Até não restar o que consumir deles” a vilã dá uma risadinha e passa por eles “Agora preciso ir. Tenho um encontro com um senhorzinho, e ele vai me levar para uma joalheria. Estou tão ansiosa. Até mais, e prazer em conhecê-la, moça calada de cabelo bonito. As joias brilham, porém não mais que seu amor por mim, querido” - sai saltitando, se afastando dos dois.

O casal observa a partida dela. Ágata vira para o amigo.

“Você gosta dela, não gosta?”

“... Cala a boca”.


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Imagem:  http://www.deviantart.com/art/Project-365-Grasshopper-211313197

Comentários

  1. Agora fiquei curiosa pra saber quem é essa mulher. haha' Gostei dessa história, vou tentar não perder as continuações ^^

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  2. Também fiquei curiosa para saber quem é essa mulher. Posso soltar uma teoria aqui: acho que ela deve ser ex-mulher do Formiga (que o atormenta nas horas vagas). O que falta saber é como ele foi parar nas ruas. LOL.

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  3. E agora? Fiquei curiosa, não li as outras partes ainda, to meio perdida :'( vou lá ler. Mas pelo que entendi, eles se gostam... Esses opostos que se atraem...

    http://www.novaperspectiva.com/

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  4. Haha, adorei o final. Gosto quando os textos tem alívio cômico, gostaria de aprender a fazer isso. E adorei o texto, espero conseguir acompanhá-lo.

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  5. Eu perdi algumas partes? Já li umas partes dessas aqui, esse povo dos textos é tão fenomenal, se tiver outras partes quero ler :(
    http://www.canseidesernerd.com

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  6. Quanto mais vou lendo mais vai aumentando a minha curiosidade!
    Parabéns viu! Muito interessante essa história! =]

    Beijo, com Deus!
    Um ótimo feriado pra você! =]
    http://tudo-oquesou.blogspot.com.br/

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