Devaneios Mentais (por Carlírio Neto)

Primeiro: aviso que o texto de hoje é um tiquinho maior do que os que estão acostumados. Mas eu achei que não valia a pena fazer um doc e deixar um link abaixo para a leitura integral. Recomendo que leiam de forma dinâmica (rápida). O autor sugeriu que lêssemos ao som dessa música (link).

Até que ponto contorcer-se por algo é válido? Ninguém sabe. Talvez, o rapaz deste conto precise de sua pronta ajuda...

Estava o céu escuro... 

O rapaz olhava e contemplava aquele verdadeiro teto que estava sob a sua cabeça, como quem gostaria de entender o por que de sua existência lá naquele momento. Saber de seu propósito era difícil pois, ao longe, ele parecia não mover uma célula de seu corpo, que estava deitado sob aquele gentil gramado do parque.

Na verdade, ele contemplava o céu sob uma outra ótica. Ele estava chateado com algo. Poderia ser com ele mesmo ou talvez com alguma outra pessoa de seu convívio diário. A única coisa certa é que ele não piscava os seus olhos. Estava entregue para algo ou alguém, não se sabe ao certo A escuridão que lhe cobria confortavelmente era apenas o prenúncio de que, naquele momento, ele queria realmente estar um pouco sozinho. Entretanto, algo o estava incomodando.

Tudo que ele fazia era contemplar o céu e ficar imaginando tantos e tantos porquês para aquilo...Mas o que seria tal “aquilo”? A procedência parecia ser desconhecida. Parecia que, muito em breve, algum lamúrio poderia dele saltar pela boca. Seria interessante saber o que tanto lhe incomodava. Eu... Eu nem tenho a quem culpar por isso, além de mim mesmo...” Sussurrava o seu "eu" para ele mesmo naquele lugar, naquele momento, naquele instante, sob o céu escuro e poderoso à sua forma. Poderia ser um sinal de arrependimento. Talvez o seu sofrimento fosse por alguém. Mas não havia uma ação clara da parte dele, que pudesse minimamente auxiliar na compreensão de tais pensamentos.

Foi então que o corpo do rapaz mostrou uma reação ao que ele tanto pensava. Dados os devaneios mentais, ele estendeu a sua mão direita para este mesmo céu. Seus cinco dedos pareciam apalpar todo o universo naquele instante. Talvez fosse aquilo uma prova de poder. Poderia ser também de uma força escondida em seu interior por muito tempo. Faltava algo que elucidasse aquele momento...“Por que? Por que? Por que?” Ele se questionava com aquela mão aberta para o céu. Uma reação direta à sua dor interna, que parecia estar consumindo suas forças pouco a pouco.

A força em suas palavras faziam um contrabalanço com o seu ser. Começou a se amargurar. A mão direita fechou rapidamente, em um gesto de fúria, no mesmo momento em que ele havia começado a rangir os seus dentes e a chorar de raiva... Muita raiva...Mas este sentimento era contra ele mesmo. Infelizmente, nada mais podia ser feito. Ele já havia dado inúmeros finais ao seu destino dias antes de sua presente ação naquele parque, sob o céu escuro que pairava acima de sua cabeça forrada e abastecida por inúmeros devaneios mentais. “Se eu não tivesse dito isso... Se eu não tivesse feito aquilo...”

Ele continuava a se lamuriar... Seu sentimento de raiva não era único...O rapaz sabia que uma nova chance não existiria...Ele apenas se permitiu continuar contemplando aquele céu escuro, tapando seu rosto com a sua mão esquerda, enquanto a mão direita continuava cerrada sobre a sua barriga. Era o gesto da raiva que o consumia. Mas tal sentimento era dela para com a própria pessoa. Um sinal de arrependimento por alguma ação que havia cometido antes. Mas...

Eis que ele conseguiu dormir. No modo no qual ele estava... A lágrima estava estancada em seu rosto. Uma das mãos continuava cerrada. A outra continuava sobre o seu rosto. Seu estado era de uma pessoa quebrada por dentro, amargurada com o próprio destino, encarregado de lhe dar aquilo que suas ações fizeram assim compreender. “Quero apenas fingir que estou vivo... A felicidade é algo que não me pertence...” E enquanto ele dormia, algo diferente começou a lhe acontecer.

Ele sentiu, em seu pensamento mais tenro, que alguém havia lhe tirado a mão que cobria o seu rosto e, gentilmente, havia começado a acariciar sua face com súbita gentileza, em um movimento singular recheado por um grande carinho. Ao longe, a visão de uma pessoa externa seria de que aquele rapaz estava apenas deitado no chão, com  a companhia do céu e aquele gramado que lhe servia como uma cálida e preciosa cama. Mas, para ele, alguém o confortava naquele momento. Por mais que o próprio rapaz achasse isso impossível de acontecer pois, para ele, a felicidade não mais era permitida em sua vida. “Hi! Hi! Hi!”Poderia o rapaz estar sorrindo para ele mesmo, no momento em que estava por receber tal carinho em sua face? 


Escrito por Carlírio Neto, do NETOIN, NETOIN Mais, e Nupo

Comentários

  1. Realmente o ritmo do texto é rápido e eu li sem sentir... enquanto ouvia a música... Pobre rapaz desamparado, chorando sob o leite derramado as dores dessa vida... Como disse o poeta "O mundo é um moinho"... mas há uma coisa que o menino não sabe, depois da noite mais escura vem o sol, o azul celeste do céu e a aurora de um novo dia... talvez seja a luz do sol e o vento do verão após um inverno rigoroso que acaricia a sua face e depois de tudo quando ele abrir os olhos verá a luz de um novo dia e vai recomeçar... nesse recomeço espero que ele encontre a felicidade....

    O texto, a música, e meu próprio estado pessoal, me levaram a divagar nesse comentário... mas obrigada ao Carlírio... pela experiencia de leitura instigante.

    Cheros, Pandora.

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    1. Saudações


      Sim. Este foi um conto sobre dores profundas, algo que a pessoa fez e se arrependeu muito depois por ter feito tal ato...
      É algo facilmente aplicável para todos nós... E vejo que lhe tocou estre texto, nobre. Fascinante isto...

      Muito agradecido à ti...^^


      Até mais!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. O texto é absolutamente lindo. Volto aqui mais tarde para escutar a música, porque estou sem fones e não tenho como colocar som alto no lugar de onde estou escrevendo.
    Enfim. Agonia, ficar remoendo coisas que já aconteceram (“Se eu não tivesse dito isso... Se eu não tivesse feito aquilo...”), dificuldade para dormir... No início, eu achei que ele fosse um paranoico. Acho isso de todo mundo, porque eu sou.
    Mas com o desenrolar do texto, percebi que não era agonia, era tristeza. E uma tristeza profunda mesmo. Uma tristeza da qual ele só conseguiu consolo nele mesmo. E isso acaba deixando uma terrível sensação de solidão. Meu palpite: Depressão?

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    1. Saudações


      Canalizaste bem a mensagem dada pelo conto.
      E noto que este texto realmente ligou-se ao seu estado atual... Já vivenciei inúmeras vezes isto, para comigo mesmo...

      A tristeza é algo que faz parte da vida de todos, com propriedades ligadas mais do que timidamente à passagens temporais e acontecimentos pertinentes à mesma...

      Eu muito lhe agradeço pela leitura...^^


      Até mais!

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  3. A música terminou exatamente quando terminei de ler o texto e não achei assim tão longo. Quando a leitura é boa a gente nem sente. Achei lindo e tocante, geralmente as pessoas se sentem assim. Eu me identifiquei. É a vida, arrependimentos de coisas que fazemos e sempre pensamos que poderíamos ter feito ou dito diferente, agido diferente. O que resta é sempre tentar ser melhor do que ontem.

    Beijos!

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    1. Saudações


      Fico feliz em ver que tu gostou da música e de sua ligação com o conto em si...
      Eu me revitalizei com tal escrita, sério mesmo...
      Sim, e concordo muito com a sua análise...

      Muito obrigado. ^^


      Até mais!

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  4. Poxa, achei sensacional a combinação da musica com o texto. Devo confessar que imaginei durante toda a leitura que o personagem havia se transformado em um vampiro (ou algum ser das ~sombras~) e ansiava pela sonhada paz eterna (meio viagem, eu sei). Mas gostei bastante do que encontrei nas palavras de hoje, parabéns!

    Beijos,
    Blog Procurei em Sonhos

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    1. Saudações


      Sua interpretação para o conto me soou diferente, porém bem justa...
      E sim, enfatizar a paz eterna é algo bem da ligação deste post mesmo...^^

      Muito obrigado!


      Até mais!

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  5. Foi um texto interessante, falar desse sentimento de culpa, de incerteza é complicado, mas acho que o autor fez bem. E eu nem senti o tamanho do texto rs'

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    1. Saudações


      São sentimentos comuns à todos nós, correto?
      Interpretação bem direta e justa a sua, nobre.

      Muito obrigado!


      Até mais!

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  6. Adorei o texto, muito interessante! E realmente, é maior dos que eu costumo ler por aqui, mas o ritmo da leitura rola rápida, você chega ao fim e nem percebe! rs

    Beijos.
    http://viciosemtres.blogspot.com.br/

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    1. Saudações


      Eu agradeço muito pelas suas palavras, nobre...^^


      Até mais!

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  7. Engraçado, seria um conto sobre a salvação da alma de um suicida? O final deste conto cria várias suposições... Imaginei um anjo de asas negras acariciando o rosto doloroso do rapaz. Será?

    Adorei.

    Beijos =*

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    1. Saudações


      Deixei o conto aberto à livre interpretação neste quesito, nobre...^^
      Mas a salvação por ti salientada é parte integrante do mesmo...

      Muito obrigado.


      Até mais!

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  8. Acabei me dando conta de que não havia comentado no seu texto. Bem, a impressão na minha primeira leitura, assim que recebi e li o seu e-mail com o anexo foi: esse personagem é louco? Agora, com a segunda leitura eu só posso dizer que esse texto parece ter sido feito por um observador. Ele descreve tudo o que o rapaz fez no gramado, o que ele balbuciou no escuro - e faz uma análise. Ao final, o observador ainda devaneia um pouco e diz que ele deve ter consolado a si mesmo.

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    1. Saudações


      Na verdade, tu capitou a real essencial do final deste conto. Minha chamada maior esteve no fato do personagem deste conto ter consolado a si próprio, mas apenas depois de ter se martirizado também.

      Em primeiro a frustração. Depois seguiu-se o arrependimento. Por fim, a conclusão sentimental. Um ciclo em sua sublime evidência, nobre.


      Até mais!

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  9. Olá!
    Eu adorei esse texto, e digo que me identifiquei com o personagem. Sua angustia, sua raiva e desespero com si próprio, com suas próprias atitudes, essa sensação de poder e de impotência ao mesmo tempo. Amei, de verdade a escrita, que foi rápida e muito bem acompanhada pela música.
    Parabéns!
    Beijos,

    http://meuuniversox.blogspot.com

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    1. Saudações


      É sempre gratificante receber palavras como as suas , nobre Barbara. Fico muito lisonjeado com tais, tenha certeza disto.
      E sim, tens razão. É bem angustiante o estado emocional do personagem. Porém, lutar contra os próprios erros e temores internos faz ampla parte da vida...


      Até mais!

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