Ao Pé do Ouvido (por Antonio LaCarne)

        Aos 17, você não deu importância. Saiu por aí mostrando os dentes, sorrindo gratuitamente, e compartilhou centenas de abraços, como se o mundo fosse um palco onde o amor é uma brincadeira. Aos 21, você criou asas, correu pela cidade, explorou as ruas, as luzes de néon, andou de mãos dadas com o perigo que não é um rastro de sorte. E jururu, me debrucei sobre os livros, sobre as almofadas que não suportaram o teu peso e o teu cheiro – durante aquele momento de canções favoritas num banho demorado, imaginando anjo sem nenhum deus, anjo perdido no limbo.

        Mas agora eu não me importo, pois não vale a pena encarar o rosto sombrio da vida sozinho no apartamento, na pista de dança. A minha coreografia é um passo de malandro que morde e assopra, que te esquece em vão e faz de mim personagem principal de um filme – de qualquer filme onde os meus olhos possam enxergar uma ilha, uma sereia, um castelo, uma saída de emergência.

         Aos 35, a verdade possui o mesmo corpo que rasga a memória, então narro em segredo as garras da paixão ao pé do ouvido, sem medo, mas nunca por você, só por mim, antes que você crie corpo e pele e vire a realidade que só existiu na minha cabeça.

Escrito por Antonio Lacarne, do O impenetrável

Comentários

  1. Saudações


    A temática de uma vida...

    Gostei da proximidade deste conto com a vida de muitos na atualidade, revogadas ao sonho ou pelo lamento de um tempo perdido ou, então, minimamente vivenciado ao tanto que poderia.

    Muito bom mesmo.^^


    Até mais!

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  2. No começo pensei que fosse sobre um casal. Um destemido, outro comedido. Esse final me trouxe de volta à realidade: são dois lados da mesma pessoa. E você tem razão, esse conto é a cara do blog. Só que, de alguma forma, ele me pareceu um dos mais brandos dos seus. Basta dizer que não vejo aquela aura decadente saindo pelas beiradas, ou o ar de desapontamento implodindo até romper com as artérias. Acho que é por isso que o achei especial. É diferente.

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  3. Ainda bem que vou morrer aos 30. Desde a última semana andei passando por mudanças e larguei mão de muita coisa para focar nas minhas prioridades. As coisas que realmente importam para mim. Não estou dizendo que me identifiquei com o texto, eu diria que é tudo bobagem. Mas eu compreendo. De verdade. Enfim, belo texto, poeta.

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  4. Pensei que era uma pessoa falando de alguém que ela tinha amado ou algo assim, mas acho que são mesmo duas partes da mesma pessoa, como disse a Emilie. Me lembrou Clube da Luta, por causa do Alter ego e tal, gostei *-*

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  5. Sensacional o texto, por causa daspossibilidades interpretativas. To com as moças aí de cima: achei que era uma pessoafalando da outra.
    Mas quem de nós não tem "dois lados".? ne? rs

    Beijo!

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  6. Adorei esse texto e tua visita ao bloguinho..já passei dos 17,dos 35, e acho que captei bem essa dualidade do autor...a experiência e o tempo vão nos moldando,nos modificando,mas,de alguma forma,na essência permanecemos os mesmos e não temos idade...

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  7. Amei o texto, sempre gosto de tirar algo pessoal pra mim dos textos que leio e esse blog tem vários... o cara do texto parece ter vivido intensamente, buscando o grande amor da vida e hoje aos 35 anda na mesma... acho que devemos viver para nós mesmos e esquecer o romance, ou pelo menos não dar o maior valor a ele em nossas vidas porque há tanto mais a ser vivido , experimentado! Cada dia há coisas maravilhosas acontecendo basta querermos enxergar.

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  8. Minha Emilie favorita, gosto demais dos textos do Antonio LaCarne, sigo o blog dele também, aconteceu comigo parecido contigo, mas percebi que era uma guerra interna dele/personagem, aos 17 brincava de amar, aos 21 partiu para o mundo como se não houvesse amanhã e aos 35 da-se conta que tudo é criado por nós, dentro de nós, e quando exteriorizamos é uma incógnita, pois nem sempre o que se imagina bate com a realidade...mas concordo contigo, é um dos textos mais leves rs dele. Lembro que quando descobri o blog dele, o impenetrável, meio pirei, o texto dele achei muito louco, intrigante, mas fiquei com um medo imenso de comentar, mas eu queria, então comentei, e hoje, embora continue com esta mesma expectativa, gosto de ler, e gosto de comentar as criações deste blogueiro e escritor genial. Boa pedida minha Emilie favorita.
    ps. Carinho respeito e abraço..

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  9. Me enganou direitinho, achei que eram duas pessoas diferentes conversando, mas só no final fui perceber que eram a mesma pessoa. Mesmo assim, acho importante termos debates internos, pelo menos pra mim funciona como um meio de clarear meus pensamentos, analisando diferentes faces de um mesmo assunto.

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  10. Incrível este texto! Emotivo, nos mostra o quanto evoluímos ao decorrer de nossa vida, e o quanto aprendemos com isso a medida que vamos envelhecendo. Como disseram em um comentário anterior, o mais legal é as várias interpretações do texto.
    Beijos,

    http://meuuniversox.blogspot,com

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  11. Belíssimo texto de reflexão, me faz pensar em como em sentirei daqui alguns anos, se os sonhos terão se passado, se assim serei a mesma de agora ou se a essência morrerá, texto interessante, muito bonito.

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  12. Muito bom esse texto. As várias facetas de uma mesma pessoa, suas mudanças e reflexões... Faz a gente pensar sobre as várias versões de nós mesmos.

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  13. Oie =)

    Belíssima reflexão do que é a vida. Sempre quando meu aniversário se aproxima faço esse tipo de exame mental, sobre quem eu era, que sou e como imagino que seria no futuro.

    Lindo!Parabéns!

    Beijos e um ótimo feriado;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary


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  14. Oii! Gostei demais desse texto, foi tão bem escrito. Concordo com os outros comentários, comecei a leitura imaginando que fossem duas pessoas e que uma está falando da outra, mas me surpreendi com o final. É tão diferente nos ver de outra perspectiva que nos faz parar e pensar em tantas coisas que deixamos passar. Gostei muito!

    Beijos!

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  15. Nuances de um ser, somos tantos não é? Me vi perfeitamente aos 17, 21, mesmo que nunca viveu intensamente na realidade, já fez tudo através da mente.

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  16. Aos 17 somos inconsequentes e possuímos um absolutismos cerrado. Depois o mundo nos molda, mas mesmo assim sempre sangramos alguém...
    Eu já passei dos 30 faz um tempo e há dias que, confesso, voltaria aos 17 para curtir algumas inconsequências...
    Obrigada, Emilie, pela visita! Um abraço

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  17. Mas a juventude é pra isso... :/

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  18. Também pensei no começo que fosse um casal.
    Mostra bem como muitas coisas só ficam dentro mesmo, para sempre.

    Beijos.

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