Traça & Formiga #3

“Uma é uma devoradora de livros... O outro é obcecado por heróis inseto japoneses. Juntos eles são...”




             “Droga”. Ela repete na mente. “Droga. Droga. Porcaria. DROGA!!”. Cruza os braços e encosta no muro enquanto anda bufando “Como ela pôde? Como ela pôde deixar aquele lunático entrar em casa. ‘Que capacete fofo, lembra um programa que eu assistia quando pequena’... Que bobagem”. A mãe da leitora estava tão radiante por descobrir que a filha tem um novo amigo que não quis desperdiçar a oportunidade. “Maldição”. E o cão fofo pulguento fedorento só piorou a situação. Quem não resiste a um cãozinho manhoso? “Merda”. Nem o odor da formiga parecia incomodar. Nada que um spray não resolvesse pelo menos. “Cacete”. A visita não foi tão longa. Para a sorte da moça, o inseto tinha coisas para fazer. A ponto dele saltar pela janela... Que felizmente estava aberta. “Raiva” . E a mãe implorou para que ela continuasse saindo com ele...

            Ela vai para o único lugar que pode acalmá-la. Ela entra, respira fundo e já se sente aliviada. Era o seu paraíso. Ela passa pelas prateleiras. Começa a fazer uma pilha de livros. Senta em uma mesa e começa a ler. Princesas presas em torres. Pedaços de cadáveres tornando-se uma entidade maligna graças a ciência. Heróis mascarados numa capa negra, libertando um povo oprimido... Não... Heróis não. Nada de heróis... Melhor ler outra coisa.

           Fica lendo por horas e horas. Alguns livros terminados. Outros ela resolve levar para casa... Porém, não antes de devolver os que ela já havia levado. Talvez ela consiga ler mais de uma vez até devolver. Viu um cartaz. Precisam de funcionários... Quem sabe isso ajude... Depois de tantos... Bem.

           Ágata caminha preocupada enquanto observa o anúncio em mãos. E se não gostarem dela? E se ela amar livros não for suficiente? Talvez se ela procurar algo mais... Procurar o que? Mas ela precisa do dinheiro... Ela e a mãe. Não queria ir... Se mudar de novo. Já foi difícil conseguir uma casa pequena e simples que a mãe conseguiu pagar com as economias... Mas elas não duraram muito. “Pai... Por que?”. Distraída na própria mágoa e indagação, não repara no carrinho de compras e tropeça.

          “AIAIAIAI, MEU JOELHO!” se contorce na calçada. “É o que dá não ver por onde anda... Até um panfleto te distrai assim?” O Formiga larga o carrinho e se abaixa para ajudar. “ORA... VOCÊ DE NOVO?? Que saco, para de me seguir”. “Eu te seguir? Você que o tempo todo vive tropeçando no meu caminho. Tá querendo descobrir meu ponto fraco pra espalhar pros meus inimigos? POIS NÃO VAI CONSEGUIR”. “Masoq.... Do que você tá... ah, deixa pra lá... aaaaai, que dor”. “Espera”. Ele vai até o carinho e pega uma caixa vermelha. “Não tem baratas aí dentro né? Pelamordedeus”. “Não.... NISSO AQUI não, pelo menos”. Abre a caixa, pega um algodão,  umedece com um medicamento e passa no ferimento. “Ich... isso arde, droga”. “Preferia uma barata?” “... Idiota... Ah não, meus livros” “Haaaa, demorou pra pensar nisso. Tava quase pensando que era outra pessoa”. “Ora, deixe disso”. Põe um curativo e ajuda ela a levantar. “Bem... Obrigado, eu acho”. Ela pega os livros no chão e o panfleto. “Procurando emprego?” “Você... Sim”. “Porque uma princesinha irritante como você precisaria disso?” “... Não é só você que precisa ajudar alguém” “...” “Desculpe... Não quis ser rude... É que as coisas andam complicadas. Minha mãe... Ela já trabalha demais. E ainda assim precisamos de mais dinheiro. Então eu pensei...Droga”. “O que foi?” “Tô começando a chorar de novo... Não posso... NÃO QUERO MAIS CHORAR. Prometi pra minha mãe que seria forte” . “E por que seu pai não...” “MEU PAI MORREU”. “...” “MERDA”.

         Um longo tempo de silêncio. Ela chora. Pelo pai que se foi há menos de um mês. Por ir mal nos estudos. Por ninguém gostar dela na escola. Por querer viver num mundo de fantasia ao invés de continuar na realidade. E o Formiga, com seus grandes olhos vermelhos de vidro, assistia. Ele vai de novo até o carrinho cheio de entulho e tira algo. “Eu nunca entregaria isso para ninguém... NINGUÉM”. Ele abre a mão. Um gafanhoto esmeralda brilhante. “Eu... Não sei dizer quanto vale. Mas não custa tentar. Tomei extremo cuidado com ele desde que o encontrei. Não foi danificado. E você precisa mais do que eu”. “Ele é... Lindo. Fica difícil de aceitar...” “Eu não estou pedindo”. “... Bem... Já que é assim”. Entrega a joia. Ela guarda no bolso. “Desculpe... Não quis ser rude”. “Você não foi rude... Todos tem problemas e uma história pra contar. Até o cara que vive na rua com um capacete ridículo”. “Ha... Haha”. “Risadas... Bem melhor”. “Então você admite que seu capacete é ridículo”. “Bom... é o que dizem por aí...” “Sei...” “Agora preciso ir... Estou movendo minhas coisas pra um novo esconderijo. O meu último foi... Ocupado”. “Certo... Eu vou pra casa... Aproveitar o resto do meu dia sem aulas.” “Até.” “Até.”

Eles caminham para lados opostos. Formiga com seu carrinho. Ágata com livros e novas esperanças. Livros que ela deixa no chão por um momento e corre para o inseto. E o abraça. “Obrigado”

Comentários

  1. Gostei bastante do texto, apesar de o início me deixar um pouco confusa. Mas adorei a analogia entre traça e formiga e toda a história dos livros... :)
    Não sou ninguém pra dar dicas aos outros, mas enfim: os diálogos estão bons, mas tenta pular uma linha antes de entrar na resposta do outro personagem. Colocando um travessão, a fala e então pulando de linha :D acho que fica mais fácil de acompanhar, ou até mesmo pra tu escrever. Mas tá muito bom, eu gostei!

    Besos!

    ResponderExcluir
  2. Olha, Felipe... Você escreveu isso hoje, não foi? Curti a continuação. Está dando espaço aos personagens. Eu queria entender a Àgata (além da garota que sofre bullying e gosta de ler) e consegui. Agora, sobre essa Formiga: ele é morador de rua louco? Taí uma ideia pra explorar: a origem do Formiga. Sobre o comentário da moça acima: Li do jeito que você escreveu e compreendi. Vai da atenção que a pessoa tem ao ler. Se fizer diálogos enfileirados (com travessões) o texto ficará extremamente extenso. É bom, pra pôr uma ordem, mas não recomendo. >.<

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nessa história em particular vou escrever com as aspas apenas... Sinto muito aos leitores. Eu sempre uso o travessão. Cansei e mudei nessa história. E sobre o Formiga... É UMA EXCELENTE IDEIA. E bem... Não é que eu escrevi HOJE. Ele estava pronto, mas como já disse zilhões de vezes pra você, não estava satisfeito. Então domingo cedo deletei tudo e reescrevi, fazendo umas mudanças. Como a origem da ágata por exemplo. Tava muito chato. E o jeito em que eles se encontravam na versão anterior do texto não fazia sentido, então troquei isso também. Também mudei o final. Eu ia colocar o Formiga discursando algo depois que a Ágata fala sobre o pai, mas eu realmente queria focar mais na Ágata do que no Formiga, então transformei a solução num objeto. No próximo capítulo revelarei mais sobre o formiga (já estava nos planos). E SIM, ELE É UM MORADOR DE RUA DOIDO, MAS SHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

      Excluir
  3. Olha, honestamente, não entendo porque as pessoas tem esse lance de realidade. Livros e filmes sobre personagens que tentam fugir da realidade com fantasias e, no final, normalmente tudo da certo na realidade deles, ou então eles aprendem a lidar com elas e fim. Como se viver na realidade te fizesse mais forte. Caindo na "real", a realidade nunca se torna perfeita, e dificilmente aprendemos a lidar com ela. Nos é vendida essa ideia de "força" cada vez mais, e não consigo ver isso como nada além de uma tentativa de tolir a criatividade das pessoas. Por isso estou gostando tanto de Traça e formiga, e cada vez mais :)
    Bjo grande!

    Obs: Se não estou enganada, meu texto é o próximo aqui, não é? Mal posso esperar *~~~~~~* Mas sabe como é... Eu posso estar enganada. Kkkk

    ResponderExcluir
  4. Quando li a primeira parte dessa história fiquei com vontade de saber como continuaria, e aqui está! Estou adorando acompanhar o desenvolvimento dessa dupla inusitada, e mais legal ainda descobrir um pouco mais sobre Ágata, muito embora Formiga domine toda a minha curiosidade atualmente. Espero poder descobrir mais sobre ele no futuro. (:

    ResponderExcluir
  5. Que final mais fofo! Estava esperando a continuação e.... amei!

    ResponderExcluir
  6. Haha, tô amando acompanhar essa história! <3
    De verdade, me inspirou e me deu vontade de voltar a escrever minhas webséries...
    Gostei de conhecer melhor a Ágata e poder entendê-la, aliás, eu já tinha me identificado um pouco com ela nos capítulos anteriores. Agora, esse Formiga está cheio de especulações em minha mente. Imagino que no final ele vai tirar esse capacete e impressionar a todos nós! =]

    Beijo,
    http://tudo-oquesou.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  7. Confesso que fiquei um pouco confusa com o início ai depois que eu percebi o #3 ali no título do post, "descobri" que já tiveram o #1 e #2, então vou procurar pra entender melhor, porque só fui entendendo algumas partes, outras eu já fui meio que tentando desmembrar o quebra cabeças que se fazia na minha cabeça, hahaha! Gostei do final.

    Bitocas!
    www.likeparadise.com.br

    ResponderExcluir
  8. Cada vez gosto mais dessa história; tomara que a garota consiga o emprego.

    petalasdeliberdade.blogspot.com

    ResponderExcluir
  9. Um morador de rua doido???? Não adianta fazer shhh, li o comentário hahaha' Na verdade eu deduzi que ele era morador de rua, faz sentido.

    Estou adorando esse conto da Traça e Formiga, li as outras duas partes e agora estou curiosa pra saber mais sobre os personagens. Não demora com a continuação Felipe ^^

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Teste de Coragem

Dois gatos

Teto de verniz