Jeffrey Hanz (por Mari Ebert)

    O barulho do soco ecoou tão alto, que por um momento não acreditei que tinha sido na minha cara. Mas uma dor insuportável começou a latejar, deixando isso bem claro. Fiquei tonto. Dois deles me seguraram e eu os reconheci da faculdade. Patrick me deu outro soco, dessa vez na barriga. Caí de joelhos e senti o gosto de sangue que subira à boca do estômago. Os dois caras da faculdade soltaram meus braços e começaram a me chutar no chão. Covardes. Meu orgulho me impedia de gritar enquanto eles acertavam pontapés nas minhas costelas. Pensei em tentar revidar, mas seria uma atitude estúpida. Era um contra três, e tudo que eles fariam é me bater mais.

- E então, Jeffrey Hanz, - Patrick sussurrou ao meu ouvido - você gosta da dor?

Após dizer isso, ele chutou o lado esquerdo da minha cabeça, com força, fazendo sangrar minha orelha. Comecei a repetir meu nome mentalmente, para não enlouquecer, mas a dor era simplesmente forte demais.

- Não vai responder? - Ele continuou, provocando.

Não respondi. Toda a minha energia estava focada em continuar respirando. Ele voltou a abaixar o tom:

- Nunca mais encoste na minha irmã de novo.

Eu estava todo fodido, espancado por um trio de mauricinhos, e me perguntava se valia a pena passar por isso pela Sophie. A resposta era: Claro que sim.

Patrick e seus amigos acéfalos continuaram me batendo, enquanto eu me refugiava na lembrança da irmã dele. Desde a pele de pêssego, às mãos delicadas, à boca rosada que me levava à loucura. Os olhos grandes e alegres, o sorriso ingênuo, e aqueles...

Um pontapé mais forte me arrancou do meu delírio. Acho que acertou alguma coisa importante aqui dentro. Mas mesmo assim, eu não gritei.

- Você é um doente. - Ele disse. E me surpreendi ao ver que quase chorava. - Ela tem oito anos.

Pararam de me bater. A adrenalina diminuiu em minhas veias, o que fez a dor aumentar. Pensei que fossem me matar, mas se afastaram. Cuspi sangue no asfalto. Tirei o celular do bolso, e constatei que a tela estava violentamente rachada. Mas o aparelho funcionava, então chamei uma ambulância. Doente? Eu era pior que isso. E pior ainda era saber que eu faria de novo. Para o bem da pequena Sophie, Patrick, você devia ter me matado.


Escrito por Mari Mari, do Blog Envenenado



Comentários

  1. Amor dolorido. E a imagem ficou PERFEITA para o texto também. Nunca tive de apanhar por isso... E sinceramente, não sei se apanharia. Oh we...

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  2. o amor que provoca dores. o amor que não pode ser amor. o amor como incógnita. creio que não há uma regra, e sim o amor que há de nos completar ou destruir.

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  3. Gente, que texto surpreendente! Admiro demais quem tem criatividade pra fazer uma coisa dessas. Comecei a ler achando uma coisa do rapaz e terminei de uma maneira totalmente diferente, isso é que é surpresa. Será que vai ter continuação?

    Beijos e boa semana!
    biblioteca-de-resenhas.blogspot.com.br

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  4. Mari, você SEMPRE surpreende seus leitores (o que é ótimo, na minha opinião)!

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  5. Como a Mariana Gomes, comecei lendo pensando uma coisa e terminei indignada hahaha. Tenso e.e a menina tem apenas 8 anos e o rapaz??? O texto realmente prende a atenção do leitor, tem continuação?

    Beijos
    Babih Hilla
    http://revolucionandogeral.blogspot.com

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  6. AHHHH q coisa linda, meu texto no Emilie Escreve *-* <3
    Espero q o pessoal curta, vou vindo aqui pra conferir os comentários. bjão!

    obs: amei seu último comentário no meu blog. De verdade. Você também é muito boa garota, falando sério, de uma escritora pra outra ;)

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  7. Nossa! Que texto!
    Não sei nem o que dizer.
    Parece que a surra não adiantou, né?
    Quando a história é contada pelo "vilão" parece que fica mais interessante, faz a gente pensar mais sobre o que está lendo.

    petalasdeliberdade.blogspot.com

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  8. Eu quase fiquei com pena do protagonista. Mas fiquei pasmo com a idade da menina.
    Adorei o conto.

    M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista

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  9. esse texto só podia ser da Mari! Ela escreve sempre textos desse género e eu adoro-os! Os finais são sempre tão surpreendentes!
    Amei, amei, amei!
    querosabertudo-k.blogspot.com

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  10. Finais surpreendentes são o que há de melhor nesse mundo! Fui lendo achando que era uma coisa e, tapa na cara!, era outra completamente diferente. Muito bom!

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  11. Voltei pra comentar \o\. Bem, esse foi o primeiro texto que li no blog da Mari. Ainda lembro que fiquei um tanto chocada com a temática. Mais ainda com o fato de alguém levar isso à tona. Ou melhor, alguém ter coragem pra isso. Há um certo argumento que diz que certas coisas devem ser mantidas debaixo do véu. Não devem aparecer. Por isso a cena em que Medeia mata os filhos não é mostrada, entende?

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  12. Nossa que forte! Interessante o efeito que o texto nos causa... impossível não parar em algum ponto e se questionar... e o seu comentário foi perfeito!

    Obrigado pela visita! Uma ótima semana!!!

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  13. Meu Deus! Que conto genial! Mexe com o conceito de moralidade que nós temos, me deixou meio perturbada haha' Mas adorei.

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  14. Nossa que forte! Mas sem dúvida uma bela narrativa e um final arrepiantemente surpreendente.

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  15. Muito bom o conto! E o final foi bem surpreendente. Foi uma troca de pontos de vista rápida e bem construída, gostei muito :3

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  16. Me surpreendi com esse final, comecei achando que os bateadores eram os vilões e no final vem essa noticia chocante. Muito bem escrito!
    Parabéns para a autora xD

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  17. Menina esse é o texto mais mindfucking q já li aqui. Sem palavras.

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  18. Perfeito...o amor que deveria vir para cicatrizar feridas, no entanto ele vem como detonador, não poupa ninguém...mas seria mt incrédula se não afirmasse que apesar de seus socos, ele traz momentos revigorantes para nós. Você deveria investir na carreira, são perfeitos seus contos!!

    Beijos

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