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Mostrando postagens de Março, 2014

O Fim do Baile

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Quinze anos bem vividos. Ana Beatrice bailava no salão. Contente na aparência. Era uma das mocinhas de vestido rosa, amigas da aniversariante. Sob ela pairava uma aura de contentamento. A beleza da mocidade. Orgulho dos pais. Estava perfeita. Contudo, algo dentro daquela pequena mulher mudara. Era, sim, uma boa aluna. Motivos para se orgulhar de si mesma tinha de sobra. Queria ser, ainda que por um só dia: imperfeita. Ser ela mesma. Com seus defeitos, suas manhas, suas chateações, e sentimentos à flor da pele. 
       Nem sequer poderia dar-se ao luxo de se apaixonar. Modificaria tudo. Sairia de si. Se tornaria uma boba como suas amigas. Choraria por alguém. Não precisava desse pieguismos barato. Poderia ter tudo ali, mas o “tudo” não a preencheria. O vazio, a insatisfação permaneceria. Como um buraco. Fundo, abismal. “Por que se reprimir tanto? Valeria a pena todo esse esforço apenas para agradar os outros?”, era o que se perguntava quando estava fora de si. Observando. Vendo-a…

Jeffrey Hanz (por Mari Ebert)

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O barulho do soco ecoou tão alto, que por um momento não acreditei que tinha sido na minha cara. Mas uma dor insuportável começou a latejar, deixando isso bem claro. Fiquei tonto. Dois deles me seguraram e eu os reconheci da faculdade. Patrick me deu outro soco, dessa vez na barriga. Caí de joelhos e senti o gosto de sangue que subira à boca do estômago. Os dois caras da faculdade soltaram meus braços e começaram a me chutar no chão. Covardes. Meu orgulho me impedia de gritar enquanto eles acertavam pontapés nas minhas costelas. Pensei em tentar revidar, mas seria uma atitude estúpida. Era um contra três, e tudo que eles fariam é me bater mais.
- E então, Jeffrey Hanz, - Patrick sussurrou ao meu ouvido - você gosta da dor?
Após dizer isso, ele chutou o lado esquerdo da minha cabeça, com força, fazendo sangrar minha orelha. Comecei a repetir meu nome mentalmente, para não enlouquecer, mas a dor era simplesmente forte demais.
- Não vai responder? - Ele continuou, provocando.
Não res…

Engano

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“Veja seus bolsos”. “Está me chamando de ladrão?”. Tantos anos de amizade e agora seu melhor amigo duvida de sua integridade. “Por favor, Daniel. Não me faça pedir duas vezes”. Parecia outra pessoa. Quando foi que Natanael ficou daquele jeito? “O que deu em você?”, disse tirando as coisas dos bolsos. Duas bolinhas de gude, ganhas numa partida, uma pulseira, um card do Naruto, justamente o que faltava para a coleção de Natanael. “Há, eu sabia! Estava com você. Por que não me devolveu?”. “Eu ia te devolver, por isso trouxe”. “Desculpe, cara, acho que exagerei”. Daniel ficou com uma pulga atrás da orelha. Nunca fizera nada de mal ao seu amigo. Dera motivos? Não dera. Ora, ele que bancasse o engraçadinho com outro. Ele não! Podia ser pobre, mas não era burro. 
             “Vou pra casa”. “Já?”. “É, cara, estou com fome”. “Pode almoçar na minha casa hoje, se quiser. O convite está feito”. “Quero não, 'brigado”. “Ainda está chateado?”. “Nada não. Tô indo”, disse desconversan…

Traça & Formiga #3

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“Uma é uma devoradora de livros... O outro é obcecado por heróis inseto japoneses. Juntos eles são...”



             “Droga”. Ela repete na mente. “Droga. Droga. Porcaria. DROGA!!”. Cruza os braços e encosta no muro enquanto anda bufando “Como ela pôde? Como ela pôde deixar aquele lunático entrar em casa. ‘Que capacete fofo, lembra um programa que eu assistia quando pequena’... Que bobagem”. A mãe da leitora estava tão radiante por descobrir que a filha tem um novo amigo que não quis desperdiçar a oportunidade. “Maldição”. E o cão fofo pulguento fedorento só piorou a situação. Quem não resiste a um cãozinho manhoso? “Merda”. Nem o odor da formiga parecia incomodar. Nada que um spray não resolvesse pelo menos. “Cacete”. A visita não foi tão longa. Para a sorte da moça, o inseto tinha coisas para fazer. A ponto dele saltar pela janela... Que felizmente estava aberta. “Raiva” . E a mãe implorou para que ela continuasse saindo com ele...

            Ela vai para o único lugar que pode acalmá…

Aqui Estou Eu (por Beatriz Magalhães)

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Aqui estou eu, sentada. Não, olhando-te impacientemente, entregando-me a ti. Corpo cai sobre ti mesmo, acolhe-me, protege-me.
        Ouvir cada transparência tua desfazer-se no pó que corta é como não pensar enquanto ando, como esquecer os gestos, como voltar à nascença, como quebrar a vida, como tornar-me animal. Sim, o mavioso.
        Aqui vou eu, mais uma vez, entranhando a carne do meu corpo duro, escurecido pelo teu sol. No pó que corta lentamente, pressinto reconforto e levanto sem dó- insossa, com medo que ela se abafasse pelo ar de quem já se foi, de quem se dilui no vento e consegue somente nos cantar ao ouvido.
         Aqui vejo eu. A saudade de quem nunca esquece as mágoas de um receio perdido, as dores de uma doença quebrada, os odores dos cheiros mais esverdinhes, dos cheiros apodrecidos pela alfazema, aqui te vejo eu. Como se me possuísses sem saber, ocultado pelas forças de quem nunca me vai ver, ter, tocar, sentir? Aqui vejo eu, como se escondida pelas conchas e dej…