Traça & Formiga #2

“Uma é uma devoradora de livros. O outro é um obcecado por heróis japoneses. Juntos eles são...”



Diretoria. Um cubículo intimidador. A mãe ao lado. Uma conversa breve, mas muito séria. Elas saem. A mãe põe a mão no ombro da menina. “Eu sei que anda muito difícil se adaptar... Casa... Escola nova. Mas por mais difícil que seja, preciso que se esforce. Sei que pode fazer amizade com as pessoas certas. Agora vá e estude bastante”. A mulher dá um beijo na testa e se despede. As aulas passam. O interesse da moça continua baixo. Os filósofos gregos não estavam em um romance proibido. O pretérito perfeito não era um monstro sugador de sangue. As equações não eram agentes em uma missão intergalatica. Intervalo. As vilãs resolvem aparecer para infernizá-la. De repente, um latido. Vários latidos. Inúmeros latidos. Uma figura pequena correndo rápido, pulando, saltando, babando em tudo. Um vira-lata com uma tiara com antenas balançando pra lá e pra cá. Como ela não caia com tanta agitação é um mistério para outro momento.

As malignas saíram correndo, com nojo. O pulguento parou e ficou se coçando e olhando pra devoradora de livros. Ágata não pensou. Fez carinho no pulguento, apesar do receio de pegar pulgas. O cão baba ainda mais de tão feliz e corre de novo, saindo do estabelecimento. Hora de estudar de novo. Quase adormeceu na sala. Acaba. Saída. Ela sente alguém a seguindo. Vira para trás. Lá estava o pulguento. “Eu não posso ficar com você, moço”. O cão fez uma cara de chorão. “Ah... droga”. Ela raramente tinha contato com cães. A mãe vivia dizendo “Nada de caninos por aqui”. Por isso nunca pediu um. Nunca sonhou. Em uma calçada, uma velha senhora tenta atravessar a rua. Tenta, pois numa cidade com falta de sinais, organização de vias duvidosas e motoristas estúpidos, uma idosa pode apenas tentar e nunca conseguir... Ou desistir. Não pensou duas vezes. “Eu te ajudo, senhora”

“TOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOH!!” alguém grita, assustando a garota. “Não se preocupe dama, eu cheguei!” exclamou o Formiga, desmontando de uma bicicleta enferrujada. “Ah, não. Você de novo” - dizia Ágata, frustrada. “Seus problemas acabaram, senhorita. Pois aqui está o defensor dos indefesos, protetor dos fracos, salvador da justiça, o...” “MARIBONDO MAGNIFICO!!” brincava a azulada. “MASOQ... Nunca interrompa minhas apresentações. E É FORMIGA, NÃO MARIBONDO!! Enfim, como eu dizia...” “Ela já foi”. “ma... MAS COMO? Eu nem tive tempo de demonstrar meus poderes incríveis...” “Acho que ela perdeu a paciência e tentou sozinha. Deu sorte, esses motoristas são malucos”. “Porcaria, por culpa sua perdi minha ajuda diária a um idoso... Mas tudo bem. Vejo que encontrou o pulguinha. OI, PULGUINHA, QUEM É O CÃO BONZINHO? É você, é você” dizia ele coçando a barriga do canino. “O nome do cão pulguento é... pulga?” “Ele é uma pulga, não vê?” “Beeeeeem... Eu to atrasada pro almoço, então... Tchau, tarantula”. “FORMIGA!!”

Ágata foi de um lado, Formiga do outro. Mas o pulguento insistiu em seguir a leitora. “Pulguinha, por aqui. Não siga essa estraga prazeres” reclamou o homem inseto. O cão insistiu e continuou ao lado da moça. “Pega ele, ué”. “Ele pode ir pra onde quiser, apenas cuide bem dele”. “Eu não posso cuidar dele, minha mãe o botará pra fora”. “Então, eu vou com você”. “NANANINANINA, não quero você na minha casa”. “Você não me dá outra opção, ele precisa de alguém cuidando dele, e como nem você nem ninguém parece se importar...” “Uuuuuuugh... Okay, okay, pode vir. Mas assim que eu botar os pés dentro de casa, é adeus”

O cão pulou de alegria... Como se entendesse o que diziam. E então foram eles em direção a moradia da moça. Só o cão estava feliz com a ideia.

Comentários

  1. É fofo como a amizade nasce de onde menos imaginamos né? O teu conto mostra de uma forma muito doce a tolerância e a amabilidade que deveria ser inerente de todo ser humano. Muito bonito.

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  2. Sabe o mais legal? Essa mescla que evoca as imaginação infantil me deixa fascinado. Lembro-me bem de minha infância, na qual eu passava tardes sendo um Power Ranger ou um Cavaleiro de Ouro e de quantas vezes eu mesmo procurei fazer o bem ao próximo me metamorfoseando de uma dessas personas das quais tanto gosto. E Kamen Rider... Bem, é a minha paixão tardia, não é mesmo? hahaha

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  3. Finalmente tive um tempinho pra revisar e ler seu conto. Eu não sabia se era MORIBUNDO ou MARIBONDO, por isso deixei. Mas, vamos lá. Gosto da interação dos personagens. Tem dois caminhos aí, e não faço a menor ideia de qual você vai escolher (já que esses contos são inéditos): 1. Se tornam ótimos amigos. 2. Se apaixonam (porque algumas vezes a gente começa odiando pra acabar gostando #MistériosDaVida). OU, a última e quase inexistente alternativa: eles podem ser as duas coisas, sem prejuízo para ambas as partes.

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  4. Eu me lembro da parte 1 do conto, na verdade estava esperando a continuação desde sempre haha'

    Adorei a forma como os dois se relacionam, geralmente as melhores amizades são as mais malucas.

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  5. O modo como o conto foi escrito é diferente, usando adjetivos para se referir a pessoas e tal, tá aí a diferenciação do texto. Fiquei meio perdida quando a Formiga apareceu do nada, haha, mas adorei os diálogos. Com certeza aí é o início de uma amizade.

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  6. Acho que, no fundo no fundo, os três estavam felizes com a ideia! ;)

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  7. Isso parece o início de uma bela amizade - ou, até mesmo, o começo de um mangá bem fofinho, com um traço artístico delicado e em tons pastéis. Fui muito longe na imaginação? De qualquer forma, adorei!

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  8. Lindo conto! Ao mesmo tempo que envolve elementos reais do cotidiano, incita a nossa imaginação e o sentimento da infância.
    Beijos, Cyn.
    http://ograndetalvez.blogspot.com.br/

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  9. Ah esse conto ♥ Adorei a interação e o diálogo dos personagens! Como Thay, também pensei em um mangá fofinho, ficaria lindo haha
    E bom, acho que os três ficaram super felizes com a ideia, né?
    Adorei e já estou ansiosa para a próxima parte haha
    Beijão - http://otoemduvida.blogspot.com.br/

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  10. ... E é por isso que eu não suporto cachorros.
    "Os filósofos gregos não estavam em um romance proibido" definiu minha falta de interesse na maioria das disciplinas.
    Não tenho o que acrescentar, além do que disse no meu comentário no primeiro capítulo. A propósito, achei o primeiro capítulo mais legal. Não que esse tenha sido fraco, é claro.

    obs: Emilie, sempre adoro suas visitas no meu blog. Suas respostas aos outros comentários, e o seu bom senso no que escreve pra mim. Você parece ser do tipo que sempre pensa duas vezes antes de fazer, pensar ou falar. Isso é bem legal. Realmente, o tipo de pessoa com quem eu iria querer dividir o salva-vidas, no caso do navio afundando.

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  11. A menina "devoradora de livros" me fez lembrar de mim, rs, escola nova, casa nova... quantas vezes isso não aconteceu comigo?
    Não é nada fácil se adaptar, mas, pelo visto, a Ágata logo terá companhia! =]

    Beijo,
    http://tudo-oquesou.blogspot.com.br/

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  12. Achei o nome do cachorro ser pulga genial, viu.
    Concordo que equações não serem agentes intergaláticos as torna muito chatas.
    E acho que essa formiga vai acabar se apaixonando.
    Ansiosa para a próxima parte. Ansiosa para ver um conto meu por aqui tb, tô ligada q a data tá chegando *-* (eu sendo chata, normal)

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  13. Adorei o conto. Eu adoro cães, então, amei a escrita. Às vezes, eu acho que a amizade canina é a mais verdadeira.

    M&N | Desbrava(dores) de livros

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  14. Nossa, conto bem curioso! Fiquei meio perdida, já que não li o começo, mas vou dar uma olhada...

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  15. A foto do cachorro roubou minha atenção não consegui ler com atenção de primeira tive que ler três vezes rrsrs... muito bom como sempre e sempre algo a ser pensado e aprendido abraços

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