A Felicidade (por Bruno Brunovski)

   Trocaram sorrisos. Dessa vez ele não perdeu a chance, como lamentou inúmeras vezes antes:

- Que horas são?

- Cinco e vinte.

- Obigado. - tinha dificuldades de pronunciar o “r” entre consoantes. Quis socar a própria cara por isso.

- Nada. - aquele “nada" prolongado parecia querer dizer nada mesmo, apesar do sorriso dela. Tinha que agir, não iria se abater depois de ter feito o mais difícil: perguntar as horas.

- Meu ônibus sempre atrasa. - soltou sem pensar muito e imediatamente ficou envergonhado, porque sentiu que foi uma tentativa clara e oportunista de quebrar o gelo, impressão que ele queria fazer o máximo pra eliminar. Controlou-se.

- É, o meu… às vezes também. - respondeu ela, distraída, mexendo no visor do celular com o polegar. Chamou-se de burro. 

- …

- …

        Tinha que fazer alguma coisa. Tinha que arriscar. Como se olhasse pros prédios no horizonte, examinou disfarçadamente as mãos dela, (como fizera quase todos os dias das semanas anteriores). Não encontrou aliança, era só pra  confirmar. Será que ela mandou uma mensagem pro namorado? A segurança inicial para perguntar as horas estava se transformando em constrangimento com pitadas de auto-piedade. Tomou coragem novamente, pensou na próxima pergunta. Não, outra não. Elogio. Não, seria ridículo. Declaração sincera sobre seus sentimentos. Sim! Não. Patético. Concluiu que fez tudo que podia. Não tinha jeito, ela não queria saber dele. Foram duas investidas sem resultado. Seria muito humilhante tentar de novo. Sim… Afinal, até mesmo ele tinha alguma dignidade e respeito próprio. Aceitou a derrota bem dessa vez, melhor do que se não tivesse tentado, oras…

         (e vislumbrava, encolhido, as formigas andando nas rachaduras do asfalto próximas aos seus pés)

- Você vai pro centro, né?

        Essa pergunta foi como o despertar de um coma auto-induzido.

- Oi? 

        Tinha ouvido claramente o que ela perguntara, mas ainda assim perguntou “oi” com essa cara de retardado? Quis se jogar no meio da avenida.

- Acho que é seu ônibus vindo ali…

        Ela sorriu diferente agora. Com aquela típica aura feminina que cativa o mais desiludido dos homens.

- Ah… é sim! Obrigado. - deu o sinal. Estava meio confuso. (nem percebeu que acertou o “obrigado”)

- A gente se vê amanhã! - sorriu ela, dessa vez olhando nos olhos dele - ainda com aquele tom despretensiosamente sedutor -,  enquanto ele entrava no ônibus.

        E naquele momento. Naquele exato momento - sim, cinco horas vinte e nove minutos e quarenta e quatro segundos - ele foi o homem - talvez a pessoa - mais contente desde o início do mundo. Não está registrado na literatura, história ou na memória, o momento mais redentor. 

       Mesmo que no dia seguinte ela não estivesse lá, nem no dia depois do dia seguinte, nem na próxima segunda-feira, nem nas semanas que viriam. Mesmo que ele nunca mais tenha visto aquela garota, e em sua velhice não se lembrasse direito do rosto dela, ainda guardava consigo o final daquela tarde nublada, encostado na janela do ônibus sorrindo pro nada.


Escrito por Bruno Brunovski, do Contaram-me um conto


Imagem: Waiting for train by Jaspir

Comentários

  1. Que lindinho! Acho que muitos homens passam por esses momentos de achar um modo de chamar a atenção da menina. [e vice-versa]
    não é o meu caso porque nunca tenho coragem de entrosar com alguém ahaha
    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Gente, que coisa mais linda esse texto! Como a Raquel falou, muitos homens devem passar por isso mesmo... Achei muito fofo o texto :B

    Beijos,
    biblioteca-de-resenhas.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  3. Também falo muito "oi" mesmo entendendo o que a pessoa disse, e me sinto muito idiota por isso hahah'

    Fiquei imaginando o casal formado também, porém acho que seria dificil isso acontecer, geralmente essas pessoas que nós conhecemos em pontos de onibus caem em algum limbo e nós nunca mais as vemos haha'

    ResponderExcluir
  4. Que lindo, cara! *-*
    Adoro esses ~~amores de um dia só por uma pessoa que nunca mais vemos. Quem nunca, não é mesmo? Fico pensando que eles podem se esbarrar de novo, no outro dia, no mesmo horário. *-*
    Lindinho demais o conto.
    http://www.canseidesernerd.com

    ResponderExcluir
  5. Muito bonito, e muito inspirador, deu vontade de sair na rua e pegar um ônibus agora mesmo, torcendo para trocar umas palavras com alguém. Mas as chances de encontrar alguém legal aqui na minha cidade são tão pequenas :(

    ResponderExcluir
  6. Achei a coisa mais linda. É diferente de todos os contos com tema "romântico" que venho lendo por aí. Digo, esse é... Espontâneo. E isso faz muita diferença. o texto te passa o sentimento, sem parecer nem um pouco forçado. Nem um pouco mesmo. Adorei.

    ResponderExcluir
  7. Que lindinho *-*
    Deu vontade de saber mais. Se se encontraram de novo e como foi.
    Um conto tão simples que passa tanto sentimento, curti. E bem espontâneo também, gostei de como foi escrito.

    Beijos.
    http://viciosemtres.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  8. Ouuuuwr é muito fofo gente!
    Sabe o mais engraçado? É a descrição dos pensamentos kkk Tão eu!

    Nesses momentos nos alegramos com tão pouco coração idiota! :(

    ResponderExcluir
  9. O curioso é que ficamos imaginando o casal se formando... Ou quase isso. Quando, na verdade, o que fica em evidência é a possibilidade disso acontecer. O importante é o momento, e a coragem que ele teve pra arriscar. A gente nunca sabe que reação as pessoas vão ter. Podemos nos surpreender.

    ResponderExcluir
  10. Os amores não realizados as vezes são os mais marcantes. Tenho várias histórias assim e amores espalhados por uma vida inteira =) Belo texto.

    ResponderExcluir
  11. Adorei o conto. Incrível como ele o estruturou, sem revelar tudo, deixando para o leitor a tarefa de dar o seu próprio final. Foi uma escolha muito boa, e o conto está mesmo incrível.

    ResponderExcluir
  12. Ai gente, que fofa essa história. Fiquei tããão curiosa com o dia seguinte...

    ResponderExcluir
  13. O que um simples momento pode significar para a vida de uma pessoa não é? Ótimo texto aliás. Singelo e profundo ao mesmo tempo.

    Thoughts-little-princess.blogspot.com

    ResponderExcluir
  14. Muito fofo! Gostei demais! ♥
    Me fez lembrar de algumas situações que já vivi (risos), e de como algumas vezes eu falei a frase "andar de ônibus é melhor do que se pensa"! O difícil é sair por aí depois olhando pra todos os lados e tentando encontrar o "amor da sua vida de alguns minutos"!!

    Beijo,
    http://tudo-oquesou.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  15. Oie =)

    Ah! A vida ... são tantas situações que passamos, tantos encontros e desencontros.
    Lindo texto! Parabéns!

    ResponderExcluir
  16. Tão singelo, tão doce, tão lindo! Ler esse tipo de situação cotidiana narrada de uma forma tão bem estruturada é o que me torna uma leitora fanática e uma aspirante a contista! Parabéns para o autor!

    Beijos =*

    ResponderExcluir
  17. O melhor de tudo desses "encontros sem querer" é a vontade de viver a situação de novo e voltar no mesmo lugar e na mesma hora pra vê se vai encontrar a pessoa de novo, hahahaha! Pois é, eu já fiz isso. Ah, mas o legal é ficar com esse momento na memória e fazer você pensar que as coisas boas e legais estão nas coisas mais simples do dia-a-dia. Enfim, adorei!

    Bitocas!
    www.likeparadise.com.br

    ResponderExcluir
  18. Fiquei torcendo para o garoto, hehe.
    Lindo texto, mas prefiro imaginar que eles tenham se reencontrado no dia seguinte ♥ .

    Sorteio do livro "Problemas? Oba!" no blog:petalasdeliberdade.blogspot.com .

    ResponderExcluir
  19. Que texto lindinho! *-*
    Eu também sou muito tímida e por isso fiquei torcendo pelo rapaz. kkkkk
    Beijo

    marinaalessandra.blogspot.com
    @mariinaale

    ResponderExcluir
  20. Que texto belo! Quantas pessoas a gente não vê em um dia nublado encostado na janela né?

    ResponderExcluir
  21. Que coisa mais linda! E com uma riqueza tão grande de detalhes que eu me vi imaginando tudo no decorrer das linhas. Adorei!
    Beijos.

    ResponderExcluir
  22. quando eu leio um texto assim, me bate a vontade de reunir todos os que acho bastante interessante, imprimir e guardar numa caixa onde vez e outra eu possa folhear e me sentir satisfeito na leitura. parabéns pela curadoria do blog que é incrível.

    ResponderExcluir
  23. Aí eu termino a leitura e já fico pensando o que poderia vir depois: será que eles se reencontraram no dia seguinte? Será que começaram a ser bom amigos? Será que evoluiu para um relacionamento de fato? Ah! Essas possibilidades que ficam no ar são deliciosas, assim como o texto que trata de uma coisa tão simples com tamanha delicadeza. (:

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Dois gatos

Teste de Coragem

Teto de verniz