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Mostrando postagens de Fevereiro, 2014

Notas para depois que partir

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Há um corpo embaixo cama. Peço para que se desfaça dele. É perigoso continuar com um cargo tão grande e fétido dentro de casa. Verifique na última gaveta do criado mudo, deixei alguns dinheiro para os nossos filhos. Não estarei sendo desalmado. Desfiz-me de boa parte da minha fortuna. Mas, caso me capturem, tudo estará desfeito. Você é esperta, sei que dará um jeito de sair dessa situação.  
         Assinei os papéis do divórcio. Aqueles que você tanto insistiu.  
         Verônica, a amo tanto que seria capaz de morrer por você. Não existissem grandes perdas, realmente faria isso. Faria mesmo. 
         Preciso proteger minha família, e para que isso aconteça de forma adequada, sumirei. Meus homens vigiarão nossa casa. Encare isso como algo necessário. Te quero bem. Sua vida estará segura a partir de hoje.  
       Se tens algum traço de afeto por mim, não guardes rancor. Se te abandonei foi porque as consequências seriam estupendas. Imagine ser a esposa de um homem que matou pessoa…

Traça & Formiga #2

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“Uma é uma devoradora de livros. O outro é um obcecado por heróis japoneses. Juntos eles são...”


Diretoria. Um cubículo intimidador. A mãe ao lado. Uma conversa breve, mas muito séria. Elas saem. A mãe põe a mão no ombro da menina. “Eu sei que anda muito difícil se adaptar... Casa... Escola nova. Mas por mais difícil que seja, preciso que se esforce. Sei que pode fazer amizade com as pessoas certas. Agora vá e estude bastante”. A mulher dá um beijo na testa e se despede. As aulas passam. O interesse da moça continua baixo. Os filósofos gregos não estavam em um romance proibido. O pretérito perfeito não era um monstro sugador de sangue. As equações não eram agentes em uma missão intergalatica. Intervalo. As vilãs resolvem aparecer para infernizá-la. De repente, um latido. Vários latidos. Inúmeros latidos. Uma figura pequena correndo rápido, pulando, saltando, babando em tudo. Um vira-lata com uma tiara com antenas balançando pra lá e pra cá. Como ela não caia com tanta agitação é um mis…

A Felicidade (por Bruno Brunovski)

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Trocaram sorrisos. Dessa vez ele não perdeu a chance, como lamentou inúmeras vezes antes:
- Que horas são?
- Cinco e vinte.
- Obigado. - tinha dificuldades de pronunciar o “r” entre consoantes. Quis socar a própria cara por isso.
- Nada. - aquele “nada" prolongado parecia querer dizer nada mesmo, apesar do sorriso dela. Tinha que agir, não iria se abater depois de ter feito o mais difícil: perguntar as horas.
- Meu ônibus sempre atrasa. - soltou sem pensar muito e imediatamente ficou envergonhado, porque sentiu que foi uma tentativa clara e oportunista de quebrar o gelo, impressão que ele queria fazer o máximo pra eliminar. Controlou-se.
- É, o meu… às vezes também. - respondeu ela, distraída, mexendo no visor do celular com o polegar. Chamou-se de burro. 
- …
- …
        Tinha que fazer alguma coisa. Tinha que arriscar. Como se olhasse pros prédios no horizonte, examinou disfarçadamente as mãos dela, (como fizera quase todos os dias das semanas anteriores). Não encontrou alia…