Subindo as escadas

Ana se encontrava no primeiro andar. Ao lado, uma escada em espiral. No alto, corredores largos. Ela parou um bom tempo contemplando a estalagem. Queria entender onde se encontrava.

Havia uma porta aberta, frente a escada. Era grande. Se perguntou se a casa tinha dono. Será? Quis saber. Mas, antes de tudo, queria acordar e dar o fora dali. Andou até a porta. Nos três passos que a levariam para a liberdade da casa, leu um bilhete jogado no chão:

“Uma vez longe dessa mansão, você terá todas as suas memórias apagadas. Seu cérebro não será capaz de lembrar se está num sonho ou não. Vagará para sempre, longe”

Retrocedeu os passos, pôs a mão no coração. Uma pontada. Falta de ar. O estresse repentino. O mal de sempre.

- Quer dizer que não estou livre para sair minha cabeça-casa? E se o fizer, vegetarei para sempre...?!
- Isso mesmo, querida. - um homem usando um termo de Mandrake se aproximou.
Seus olhos brancos fizeram com que Ana pulasse, num susto. “Vou morrer?”.
- Você está presa à mansão. Suba as escadas e ande um pouco. Achará a solução do enigma. - o homem se curvou. Mordomo macabro.
- Q-quem é você? - disse, se recompondo.
- OutSite. Ou, apenas, Out.
- Ah... - fez uma pausa. Era um nome estranho. - Ok, Out, pode me mostrar a casa?
- Um serviçal não pode servir de guia. A senhorita deve seguir o caminho sozinha.

Os degraus de mármore são escorregadios. Feitos para uma escalada lenta. Ana subia, e suas forças se esvaiam a casa passo. “Que maldição!”, pensou. Chegando ao topo, deu de cara com uma bifurcação. “Que rumo seguir...? A porta da esperança deve estar por ...aqui”. Foi pelo lado direito. Era canhota, e sempre escolhia o lado direito como rebeldia.

- Ei!
- Hmm?
- Vai me ignorar mesmo?
- Ignorar quem?
- Aqui embaixo.
Ana pula, assustada.
- Opa, desculpa aí.
- Aff... - disse se levantando.

Outro ser. Um corvo, pra ser exata. Pisei em sua asa. Ele tem o tamanho de um cachorro.

- Já pedi desculpa.
- Olha, faz o favor de ir embora, ok?
- É o que estou tentando fazer.
- Ande até o final do corredor. Entre numa sala, e fale com o doutor Hermes.
- Obrigada. Qual o seu nome?
- Isso não te diz respeito. Vá pra casa! - disse e alçou voo.
- MAS... E SE EU PRECISAR?
- É GateWay.
- OK, GATE!
- TE DEI ESSA INTIMIDADE?

Ana sorriu. Os animais dali eram engraçados de um jeito mal-humorado de ser. Não deviam ser maus já que a auxiliaram.

A parte, entreaberta, convidava a entrar.

- Olá?
- Oh, entre, Ana! - disse um velho careca, corcunda, e usando óculos.
- O corvo disse que devia falar com o senhor...
- Pra sair daqui?
- Tome.
Era um diário em branco.
Agora tudo fazia sentido.


Comentários

  1. Que dizer que escrever é uma forma de não se perder?!?! Faz sentido!!!

    Pandora

    P.S.: Só me lembrei de Allan Poe lendo o texto.

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    1. Você foi pra outra instância. Mas faz sentido!

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    2. De mim eu digo que foi do corvo que me fez pensar no Poe e também a presença de uma casa misteriosa e do homem com terno de Mandrake... Mas isso não foi fundamental foi apenas uma curiosidade, uma lembrança que botei em forma de P.S..

      O nó do conto para mim foi a questão do diário com páginas em branco como solução do enigma para poder sair da casa sem se perder. Não sei se foi isso que você quis dizer, mas foi isso que me inquietou no texto.

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  2. Boa noite Emilie.. os contos sempre nos prendem.. não só pelo nome do gênio citado no comentário acima.. o Edgar allan Poe.. foi com ele que comecei a apreciar esta arte.. ele usa e abusa da temática do macabro e das deduções.. ficou muito bom o teu deixado bjs

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    1. Gente, não sei de onde vocês tiraram essa comparação com Poe. E olha que adoro os escritos dele. É por causa do corvo??? Porque não tem nada de macabro nesse texto. Está até leve demais. (P.S.: As deduções são por conta de outro tipo de gênero no qual o Allan era craque... Mas também não vejo nada nesse estilo no conto). O__O

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  3. Fiquei um pouco confusa.
    Escrever seria uma forma da Ana conseguir se libertar da sua mente?

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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    Respostas
    1. É porque você não leu a parte 1: http://emilie-escreve.blogspot.com.br/2013/11/do-lado-de-dentro.html - Mas achei que estivesse "na cara" que a protagonista se encontra presa numa casa (dentro de sua cabeça. Ou seja, num sonho) XD

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  4. Verdade :) parece que você tá na Suíça, Campos do Jordão é lindo *-*

    o texto ficou incrível e também li a parte 1 :)
    e consegui pegar que a personagem está presa dentro da sua cabeça, no sonho.
    estou curiosa para ler mais! ainda não posso dar um comentário elaborado, preciso de mais partes hahahha

    beijos :*
    japona.mairanamba.com

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  5. Isso seria a continuação daquele texto que li por aqui uns tempos atrás, né? Permaneço com a minha opinião: incrível!!
    Pelo que eu entendi o diário serviria pra ela finalmente se libertar da própria cabeça, afinal é isso que fazemos nos diários. Não sei, achei super interessante essa história. :D

    Beijos. s2
    www.quaseatoa.com

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  6. No início não entendi muito bem do que se tratava, mas depois a interpretação fez as coisas clarearem...
    Gostei de como tu fez a construção do texto, bem pensado...
    Continua né?
    Beijos

    www.nadadeperfeicao.com

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  7. Muito bom, incrível mesmo toda a atmosfera que você criou.

    Beijos!

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  8. Que incrível suas histórias, li a primeira parte para mim já tinha ficado claro que ela está sonhando. Como o pessoal que comentou fique confusa no final dessa história que certamente tem continuação. Pode ser uma comparação tola, mas a sua história me lembra Alice, pelos animais, e coisas fatidicamente não falam se pronunciarem na sua história.

    estrellando.com

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  9. Deu a entender que a protagonista está se libertando para um novo começo
    Essa parte do diário até me lembrou alguma coisa, não sei se foi um filme O.o
    Onde demonstrava que era o ponto para o começo de uma 'nova era'

    Bem bacana :)

    bjs
    Nana - Obsession Valley

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  10. Uau! Me lembrou muito O Corvo. Adorei o texto! Em um certo ponto eu estava perdida, mas ao final entendi e as coisas se clarearam! Muito bom o texto. ♥
    Beijos *-*
    http://mydreamsofasummernight.blogspot.com.br/

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  11. Como dizem: entendedores, entenderão! Hehehe! Adoro textos assim: deixam alguns confusos e para outros a sensação de que "tudo faz (muito) sentido"! ;)

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  12. Eu entendi que ela deveria escrever para não esquecer (porque ela se esqueceria quando saísse?). Acho melhor ler os comentários e ver se alguém interpretou melhor que eu haha'

    O nome deles me dá a sensação de que significa alguma coisa, mas não sei. Acho que nem li a parte 1, fiquei confusa agora haha'

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  13. Fiquei confusa, mas estimulou minhas ideias e masturbações mentais.
    E sim, está um conto intrigante e inquietante, o enigma, ah o enigma, acabei me perdendo.. rs

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  14. Escrever as memórias para não esquecê-las, bem pensado.

    Thoughts-little-princess.blogspot.com

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  15. Olá querida Emilie, no início do conto, "Ao lado, uma escada em espiral. No alto, corredores largos.", senti como se fosse uma caderneta, dessas antigas de espiral, daí continuando a leitura e não tive como não pensar em Poe, o Corvo, mas é algo ilusório, metafórico até, e nada a ver com o Edgar rs.
    Sinto-me preso às vezes, na minha cabeça-casa (adorei isso), e a única maneira que encontro de sair sem me perder ou me esquecer é anotando (por isso da importância de ter um blog rs). Quase claustrofóbico, a busca, respostas, dúvidas e dúvidas. Tenho dificuldade em escrever diálogos, mas gosto muito de ler (meu lado ator canastrão rs). Emilie, o que gosto do que leio nos blogs que gosto, é justamente isso, algo que me intrigue, que me questione, que faça pensar, e pelo que vi nos comentários, conseguiu.
    Quanto a mim resta-me agradecer ter te encontrado neste ano muito louco e proporcionado belas leituras e adoráveis visitas.
    ps. Carinho respeito e abraço.

    blog do Jair ou histórias de músicas e pessoas

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  16. Achei que a narrativa estava um pouco rápida demais, mas adorei a estória. Tá incrível!

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  17. Emilie suas estorias sempre me deixam querendo ler mais, amo sua narrativa :) beijinhos

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  18. Obrigada pelos comentários. Vou fazer uma introdução na próxima, pra ver se vocês não ficam tão perdidos...

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