Inverno

          Existia um reino dividido. De um lado, o grande castelo dos bons sentimentos. Do outro, o deserto frígido dos sentimentos ruins. No castelo da rainha Esperança, todos viviam felizes e em harmonia. Nas capas geladas, os sentimentos alienados sobreviviam como podiam. Esperança tinha um filho: Amor. Jovem ainda, porém maduro. Às vezes parecia cruel, mas sempre buscava o bem de todos. Preocupava-se principalmente por aqueles que viviam além das muralhas, congelando no deserto infinito. Esperança não permitia que o menino saísse. Queria que ele continuasse dedicando-se aos modos de dentro. Esperava que ele logo se casasse e então pudesse ficar no lugar dela no trono. Amor não se interessava por ninguém. Mal mantinha contato com as moças das redondezas. Na verdade, fora a própria mãe, a única com quem ele conversava era com a irmã, Tristeza, que vivia numa cabana próxima aos grandes muros, do lado de fora. Esperança detestava quando o moço saía da segurança do castelo para ficar o dia todo naquele cafofo, bebendo chá de água suja em canecas quebradiças, enquanto escutava as mágoas da mais velha. A mãe nunca quis deserdar a primogênita, porém os modos de gerações passadas a condenava. Males jamais devem entrar no castelo ou em qualquer área interna da muralha. 

              Ela queria que fosse diferente. Podia apenas esperar, enquanto agradava os nobres. Ela queria que ele saísse mais com a Paixão. Pareciam perfeitos um para o outro. Entretanto, a garota era muito desligada e louca. Desajeitada. Incerta. Amor preferia ficar longe. Talvez a Paz. Quieta demais. O dia todo sentada, sem mover um músculo. Mal abria a boca para algo. Tediosa demais. O que ninguém sabia é que Amor secretamente viajava para curar sentimentos ruins todos os dias. Existia um túnel de emergência que ninguém mais usava desde que a grande guerra havia acabado. Nem mesmo os guardas ficavam de vigia. O jovem doutor pegava os apetrechos necessários e esgueirava-se para fora do mundinho dele. Um cavalo estava sempre a sua espera. Cavalgava o mais rápido que podia até ficar bem distante do castelo e seguia, procurando por quem necessitasse de seus serviços gratuitos.

            Em uma dessas viagens, Amor topou com uma gangue de bárbaros trajados de vermelho. Tomaram suas coisas, mas para Raiva, líder da gangue, não era suficiente. Queria sangue. Quando o criminoso ergueu a espada para findar com a vida do jovem, uma figura negra apareceu. O rosto estava escondido por um lenço, apenas os olhos a vista. Um chapéu de palha e uma katana. Uma capa. Estava ventando demais. A gangue prontamente tentou ferir o estranho, pois não precisavam de testemunhas. O encapado era rápido e bem treinado demais para um bando de desengonçados como eles. Quando Amor ia agradecer pelo resgate, o guerreiro caiu duro no gelo frio. Estava febril. Muitas cicatrizes abertas. Vai saber há quanto tempo estava injuriado de tal maneira. Coletou os pertences tomados. Não tinha o suficiente para tratar o paciente, sem falar no frio. Precisou fazer o necessário. Colocou o ferido com toda a pouca força que tinha sobre o cavalo e cavalgou de volta para o castelo. Não poderia deixá-lo na cabana. Mal tem espaço para ela própria, e a existência dela era conhecida por muita gente, uma hora alguém descobriria. Esgueirando-se no túnel, não parava de pensar em onde cuidaria do homem. 

                Por mera sorte, encontrou um quarto de estoque vazio no caminho do próprio túnel. Deixou-o lá e correu para os aposentos. Trocou as vestes brancas completamente sujas, pegou mais suprimentos e voltou o mais rápido que podia ao local. Colocou o paciente num colchão, o acobertou, tirou sua roupagem. Uma toalhinha na testa. Ele piorou na viagem, mas nada que ele não pudesse resolver. Ferimentos limpos, desinfetados e devidamente fechados. Um homem tão grande e forte com tantos ferimentos. Amor não parava de se perguntar o que ele teve que passar durante a vida no deserto. Alguém tão pequeno e fraco como ele jamais conseguiria sobreviver naquele inferno gelado. Tinha um colar, com um nome escrito nele. “Ódio”. O nome dele? Começou a sentir algo que nunca havia sentido antes. Sentia-se quente. As bochechas estavam rosadas. Ficou sem folego de repente. Involuntariamente ficou acariciando o torso do homem. Talvez o cansaço de cuidar de alguém tão mal o estivesse afetando. Terminou dormindo abraçado ao doente.

           As semanas seguintes foram melhores. O paciente finalmente despertou. Médico e tratado trocavam olhares que ambos não compreendiam, mas não conseguiam controlar. O homem era quieto. Respondia a poucas perguntas que o jovem fazia. Quando respondia, o mesmo ficava em prantos. Isso deixava o homem irritado. Não queria a pena de ninguém. Apenas destruir o que aparece no caminho. Foi o que lhe custou as feridas. Apesar de tanta crueldade e sangue nas mãos do paciente, Amor não conseguia dar as costas ao ferido. Ele queria continuar o tratando. Algo o fazia acreditar que podia tratar não apenas os ferimentos, mas a mente dele. O príncipe cozinhou para ele. Cuidou de sua higiene. Contou histórias. Às vezes Ódio parecia desinteressado, mergulhado na própria amargura. Às vezes ele ficava fascinado em como o mundo não precisa ser apenas violência e sangue derramado. Insatisfeito em ficar apenas deitado, o homem retrucou ensinando ao doutor que tanta afeição incondicional por todos pode matá-lo um dia, como os bárbaros quase o fizeram algum tempo atrás. Amor compreendeu o que o paciente queria dizer, e vice e versa. Arrombam a porta. Guardas. Vários deles. 

               Ódio não foi páreo, ainda estava se recuperando. Levaram-no para uma cela. Amor foi mandado direto para os aposentos da rainha. Esperança já suspeitava de algo, mas quando percebeu que o filho não aparecia mais com tanta frequência, ordenou que os guardas o seguissem. Estava decepcionada. O jovem procurou explicar como ele não é ruim como parece, mas tudo em que a rainha pensava é como foi enganada e quase perdeu tudo por causa de uma atitude tola do filho. Ordenou que trancassem o doutor no quarto, com guardas sempre vigiando. Ódio seria executado secretamente na manhã seguinte, para que nenhum dos nobres descubra que um sentimento impuro ousou pisar no castelo. O príncipe começou a chorar. Queria salvar o homem. 

         Tentou fugir pela janela. Muito alto e escorregadio. Logo o sol nasceria. Deitou na cama, em prantos. Escutou um barulho vindo da janela. Cascalhos. O prisioneiro saltou para a sacada e entrou no quarto. “EU TE AMO” Amor exclamou espontaneamente e beijou o fugitivo. Pediu desculpas, disse que foi impulso. Ódio não ligou, nem impediu o moço. Amarrou uma corda num gárgula, pediu para que o amado segurasse firme e desceu. Quando os guardas foram checar, já era tarde. Restava apenas uma corda e lençóis bagunçados. Ódio era muito ágil, apesar do tamanho. A rainha infartou ao receber a notícia da fuga. Mandou todos procurarem. Espalhou cartazes. Não mudou nada. Amor conhecia bem o reino. Sabia de todos os possíveis esconderijos. E no escuro, num lugar secreto, os dois se amaram intensamente. De um amor tão forte que o calor derreteu todo o gelo e consumiu toda a matéria. Um ato eterno. Dizem que se uma criatura olhar para cima durante um dia claro, ela enxergará a grande estrela iluminada que a paixão deles gerou. 




Imagem: http://cicanevelde.hu/images/news/a/an/anya_szereto_cica_cukikanak.jpg

Comentários

  1. Na verdade, estou dando a minha cara a tapa como quase ninguém vai ler (por pura preguiça mesmo, infelizmente). Voltando ao meu comentário: enquanto estava editando... Fiquei surpresa. E você diz que vou rir quando ler. Dessa vez, sim, mas foi um risinho de embaraço. Esse é o seu primeiro conto romântico, eu acho. Ou, não sei, nunca li algo seu com essa "pegada". Principalmente porque esperava que o texto viesse com uma "moral" no final (ainda recordo da época em que li contos com sentimentos metaforicamente personificados. Eles sempre vinham com uma lição). E nesse você nem precisou. Aliás, foi explicando o que o príncipe Amor esteve fazendo: revertendo os maus sentimentos. Gostei. Foi diferente. (P.S.: Esse é aquele conto yaoi que você estava me devendo?).

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    1. Sim... Fiquei com medo de início, mas daí pensei "escrevi sobre crianças que assistem os pais assassinarem pessoas por puro prazer, WHAT COULD POSSIBLY GO WRONG??"

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    2. WHATTTT? Você escreveu sobre isso? Posso ler?

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    3. Faz tanto tempo. Acho que tu nem lembra mais de ter lido, mas tu já leu e comentou. Talvez se eu caçar lá no meu blog

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  2. Eu amei. Foi de uma escrita tão simples, tão pura. Realmente o Amor e o Ódio se completam. De certa forma eles podem ser perfeitos um para o outro. Cheguei a pensar que eles não ficariam juntos, que o final seria triste e que Ódio seria executado, mas não... Foi perfeito!! *-*

    Beijos,
    Larissa ♥

    - Vitamina de Pimenta -

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  3. Menino-do-céu, de início achei que ia ser um conto normal, desses fofinhos, até, nada muito surpreendente, sei-lá-por que-pensei-isso, só sei que fui sendo tomada pela vontade de ler mais e saber mais sobre o que ia acontecer com o amor, e depois se ele ia salvar o ódio, e depois fiquei toda apaixonada. Foi uma das melhore metáforas que eu já li. O amor e o ódio são isso, exatamente essa mistura doida de dois opostos que andam lado a lado de mãos dadas. Magnífico como você conseguiu personificar os sentimentos. Clap clap clap.

    denovomaisumavez.blogspot.com.br

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  4. Nossa, você mudou mais o gênero que escreve e eu fiquei me perguntando se era outra pessoa que tinha escrito... rs' Adorei. Foi um conto genial! Você se saiu tão bem nesse estilo de narrativa (ou talvez seja porque eu gosto mais desse estilo de narrativa, enfim...).

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  5. Muito bem escrito. Fiquei boquiaberta com a delicadeza dessa história e a conclusão foi surpreendentemente linda. Me fez lembrar uma música "Amor e ódio moram juntos, dividindo este coração" O seu conto é uma metáfora pra nossa vida, nós somos esse reino de tantos sentimentos divididos entre bons e maus... Realmente muito bem escrito, interessante demais. Adorei.

    Beijão.

    eraoutravezamor.blogspot.com

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  6. Também esperava conto-de-fadas fofinho e com uma moral digna do grilo falante do pinóquio.
    Mas, apesar de ter ficado surpresa, gostei! Bastante bem escrito e de criatividade imensa. Achei super interessante usar nomes de sentimentos para os personagens,
    Parabéns ao autor!

    beijo

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  7. Ok, sou conservadora e chata e ainda estou meio chocada. uahushauhsuhuas
    Mas vendo por outro ponto de vista, o conto foi muito bem escrito, detalhado na medida certa, consegui imaginar as paisagens e tudo o mais. Gostei das metáforas de amor e ódio, mas de certa forma não concordo assim que amor e ódio andam juntos, sei lá, é como se o amor fosse burro demais pq o ódio sempre vai chutá-lo na cara. haha Mas gostei, no geral. :)

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  8. Oie Felipe =)

    Parabéns pelo texto! Ele é de uma delicadeza enorme e até me fez recordar de um outro poema que li a alguns anos atrás com era criança, e que me marca até hoje (http://bit.ly/1bsIBSY).

    Acredito que assim com a luz precisa da escuridão para existir, o bem precisa do mau, o amor do ódio e assim por diante. É o equilíbrio natural da vida.



    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary


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  9. Porra, isso foi muito fofo. Mesmo. O tema me lembrou um livro, não me lembro o nome, mas esse lance de personificar os sentimentos me lembra alguma coisa que li há muito tempo. Talvez um livro infantil, sei lá. Mas o conto não teve nada de infantil. Achei as metáforas geniais, e de certa forma, esperava que o Amor fosse se apaixonar pelo Ódio mesmo. Pra mim, isso fez todo o sentido. Adorei o texto.

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  10. Mas o amor sempre é forte o bastante para derreter qualquer gelo. Nenhum coração gelado resiste a um sentimento tão forte. Muito bonito!

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  11. Ótimo o texto. O que é essa explosão e misturas de sentimentos. Amei!

    Blog Prefácio

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