Traça & Formiga #1

    Ágata. Ela checa o iphone. O horário está correto. Nenhuma delas aparece. Ninguém parecido com elas aparece. Uma. Duas horas esperando. O trote é claro. O choro vem, mas ela engole. No fundo ela sabia que não gostavam dela. Sabia que fariam algo assim alguma hora. Sempre pegam no pé dela. Está tão escuro e solitário. “Garota idiota” diz sobre si própria, chutando a lata amassada na calçada. Alguém a segue. Segue? Não sei mais. Alguém de capuz. “O que importa. Que seja. Que me aborde. Faça o que bem entender. Quem sabe ele me livra disso tudo”.

                Um suspiro. Olhe para o chão e ande. Não pare. Uma pancada. Mas ela não sentiu nada. Vira para trás e vê que a vítima é o encapuzado. Já estava no chão, sendo pisoteado por uma figura estranha. Um ser vestindo uma jaqueta suja e  um capacete ridículo. Cara de formiga? Hein? Fugiu. O homem no chão com o rosto cheio de ferimentos. Ligou para a polícia. Mal entenderam o que ela disse. Piorou quando apareceram. “Um homem com cabeça de inseto?”. A gargalhada rolou solta. O homem foi identificado. Tinha ficha, mas não havia provas de crime algum. O mínimo que fizeram foi dar um sermão para a moça por passear pelas ruas a tal hora e levar o suposto criminoso na viatura. Pegou um taxi. Logo lembrou que não tinha grana suficiente. O taxista brigou. Levou-a para casa. A Mãe pagou a corrida, sem esquecer de brigar com a menina também. Esta correu para o quarto e se trancou. Ela queria chorar. Queria quebrar tudo no quarto. Queria pegar a navalha do pai emprestada. Queria saber quem era aquele maluco que bate nas pessoas sem mais nem menos... Ou teria ele um motivo? Sono. Bocejo.

                Acordou onde dormiu: Em frente a porta do quarto. Se aprontou o mais rápido possível e foi para a escola. Elas estavam lá. “Vadias...” sussurrou. Aula chata. A janela chama mais a atenção. Espera o intervalo. Todos aproveitam a pausa. Todos tem amigos. Ela tenta ler um dos seus livros favoritos no refeitório. Nada lhe fazia bem para ela como ler um bom livro. Um não... Dezenas, centenas, milhares, zilhões de livros. Devorava um após o outro. Uma viciada. A falação a incomoda. Procura um canto mais silencioso, que funciona por um tempo... Até elas aparecerem. “De novo lendo essa porcaria, estranha?”. “Ela deve ter esperado a noite toda ontem <risada>”. “Eu até pensei que seria perigoso te passar aquele endereço, mas com um corpo frouxo e morto como o seu, nem um estuprador se interessaria”. As palavras delas doem demais. 

             A raiva a faz empurrar uma delas. Um inspetor vê. Pergunta o que está acontecendo. A pior pergunta que ele poderia ter feito. “Essa louca me agrediu. Vimos que ela se exclui muito do pessoal e tentamos fazer amizade”. “Fomos tão simpáticas e é assim que ela nos agradece. Que grossa, hunf”. “Você vem comigo, mocinha”. Estava cansada de ser a vilã. Mas o que podia fazer se ninguém discordaria disso? Chutou o homem num lugar sensível demais para ele e correu o mais rápido que podia. Não viu como atravessou todos os corredores sem esbarrar num aluno. Não viu como pulou a grade com tanta agilidade. Não viu que já estava longe demais da região que conhecia do bairro. Não viu que deixou todo o material e documentos para trás. Parou um pouco para respirar. O choro de todo o mês finalmente resolveu sair. E não parou mais. Pegou o celular. O número da mãe em primeiro na lista. O único número na lista. Olhou para cima. Uma escada de incêndio. Teve uma revelação. Uma terrível revelação. Largou o celular no concreto. Subiu. Topo do edifício. Não parecia tão alto visto do inferior. Respirou fundo. Não podia hesitar. Não queria hesitar.

              “Aonde pensa que vai?” falou alguém. “Me deixa em pa- -“ virou-se. Era a figura daquele dia. O homem vespa ou seja lá o que for. “Por que tá me seguindo?” perguntou a suicida. “Por que VOCÊ tá me seguindo?” respondeu. Era um garoto. “Eu seguindo? Quem aparece do nada é você”. “Digo o mesmo. Tava no meu covil secreto e do nada escuto choradeiras e metal batendo. Quando vejo, é a louca de ontem arrumando problemas de novo”. “Covil secreto? Tá falando daquele monte de entulho lá embaixo?”. “C-O-V-I-L S-E-C-R-E-T-O!!”. “Baah, que seja. To ocupada aqui, viu?”. “Não faça”. “Ou o que?”. “Eu pulo junto”. “E vai abrir suas asas de mosca?”. “Vou morrer com você”. “...”

             Ela poderia aceitar sumir. Aceitar se livrar dos problemas tão fácil e de forma egoísta. Mas a última coisa que precisava é de um maníaco desconhecido morrendo por causa dela. Se afastou da beirada do edifício, suspirando com decepção. “Feliz agora, borboleta?”. “Formiga...” “Han?” “É um capacete de formiga, ora bolas”. “E qual é seu nome? Barata Atômica?”. “É uma for– Ainda não pensei num nome”. “Sim sim, muito legal maaaaans... eu realmente preciso ir agora”. “E deixar você se jogar de sabe-se lá onde mais?... Não mesmo”. “Vai ficar me seguindo por aí?” “Sou obrigado, quem sabe eu possa te ajudar com o que te incomoda tanto”. “O que eu vou dizer pra minha mãe?” “Diz que arrumou um namorado”. “Eu mal tenho amigos, imagina um namorado. E com certeza ele nunca vestiria algo tão estúpido”. “Se você diz”. Desceram as escadas. A moça pegou o celular de volta e seguiu seu caminho com o estranho.



                                        “A magrelona punk de cabelos verdes e o homem inseto... que casal”


Comentários

  1. Achei assim um bocado estranho. Fui a única?
    querosabertudo-k.blogspot.com

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  2. "Gostei muito!", "Adorei o texto" ....brincadeira, gostei dos seus avisos aos comentários...rsr

    Mas o fato é que gostei da situação, pela pela desgraça em si que seria, mas pela forma atual e cotidiana que você colocou. Esta questão suicida, pouco falada, mas que muito acontece (basta fuçar nas notícias) é algo que arrepia. O ponto que a pessoa chega (desespero) para tomar uma decisão desta, é muito complicado. Já presenciei (e acho que ajudei) uma pessoa nestas condições...o bom que é tbm desceu as escadas....

    Abraço!

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  3. Felipe, eu dei pra revisar só depois de publicado. Esquecimento meu :'). Enfim, ainda vejo caras com capacetes de vespas nas suas histórias? Influência visível dos tokusatsu's que assiste. :D

    O mais estranho é que o Formiga não é um herói. Talvez um louco qualquer, morando nas ruas. Viajei enquanto lia. E o cara que bateu no homem? Me lembrou Paranoia Agent (embora eu pense que você vá se focar no drama da garota punk). Não é uma temática nova, mas a história ficou interessante. Quer dizer, vai ver os dois acabam se ajudando.

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  4. Nossa juro que visualizei totalmente a cena de cada palavra desse texto...Muito bom apesar de um pouco estranho...rsrsr'

    Beijos

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  5. Você escreve muito bem, mesmo. Adorei o tema. Bullying. Suicídio. Solidão. Estranhos que se identificam. Quem nunca? Como a Emilie disse acima, também acho que vão acabar se ajudando, e melhor: descobrindo um no outros as sensações incríveis que você só sente quando o outro te entende completamente, e ver no outro, a fuga pra tanta gente vazia :)

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  6. Consigo me imaginar seguindo as pessoas pela rua. E batendo em alguém também, e com um covil secreto. Consigo me imaginar brincando de super-herói. É lógico que eu morreria na primeira semana. E é lógico que eu não me vestiria de formiga.
    Adorei o texto.
    Um dos meus favoritos que já li aqui, até agora. E olha que eu já li texto pra cacete no Emilie Escreve. rs

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  7. AAAAAAAAAAF e eu achando que o homem mosca ia acabar com ela! E que vadias as gurias da escola! Fiquei feliz que no final ela arrumou alguém que se importasse com ela. Pena que nem sempre é assim =/

    Beijos,
    www.procurei-em-sonhos.com

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  8. Que lindeza de conto! Que final mais OWNNNNNNNN *-*

    Quero mais desses dois ♥

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  9. Adorei o texto e o modo como você escreve, que por sinal escreve muito bem!
    Realmente consegui ficar envolvida na história e curti muito o final.

    Beijos.
    http://viciosemtres.blogspot.com.br/

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  10. Isso daria um livro, sabia?
    Simplesmente bom demais!
    Não achei estranho; achei parecido com os livros que costumo ler; tudo é possível quando se tem imaginação, tudo é possível no mundo das palavras!
    Mais uma vez digo: BOM DEMAIS!

    petalasdeliberdade.blogspot.com

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  11. Muito bom o seu conto, conheço muitas meninas assim, que sofrem na escola, é triste, mas ao mesmo tempo é um fato que faz evoluir, criar mundos novos a partir da solidão e a participação do herói inseto foi magnifica, quem não queria um herói, mesmo inseto?

    Abraços,
    http://www.historiaspossiveis.com/

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  12. Que loucura! Metamorfoses e isolamento, cara, preciso da continuação dessa história!

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  13. Não estava entendo no começo, mas depois adorei. Imaginei a cena toda na minha cabeça. Essa história daria um livro, hein? Parabéns!

    Blog Prefácio

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  14. Gostei muito!!! Hoje em dia, sao assuntos que estao em alta: o bullying, que leva a solidao e ao suicidio.
    Eh um texto para ser lido por adolescentes, em sala de aula e discutido.

    * Nao repare a falta de acentos, o computador nao esta cooperando.

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  15. E eu achando que eles iam pular mesmo! Que bom que desceram ^^

    Acho que pessoas estranhas são imãs para outras pessoas estranhas, aí todo mundo fica comentando coisas como "que casal" haha'

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  16. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Eu ri... Caraca!!! Eu gostei... não esperava esse fim, a história caminhou tão tensa que eu não esperava um fim tão luminoso capaz de me fazer sorrir em um dos meus momentos zumbi virtual. Obrigada.

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  17. Whoa! Sensacional.
    A protagonista me lembrou muito da Violet de AHS! Ainda não acredito que esse desconhecido é confiável... hmmm...
    Pelo título tem continuação, certo? Então nem será necessário pedir. Rs.
    Ei, Emilie, só tenho 14 sim! Aliás e você?

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  18. Que casal.... mesmo! Fiquei imaginando os próximos capítulos, a repercussão no colégio, ela chegando em casa, os papos que eles teriam dali pra frente...

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  19. Poderia virar uma novela.
    gostei de verdade! kkkkkkkkkkkk
    mas eu n gosto de cabelos verdes.

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  20. “Não faça”. “Ou o que?”. “Eu pulo junto”. “E vai abrir suas asas de mosca?”. “Vou morrer com você”. - Sensacional. Sério, achei essa parte sensacional.
    E adorei o Barata atômica! Melhor Personagem! Ops, formiga. hahah

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  21. O único problema é que Formiga Atômica já foi usado por Hanna Barbera na década de 1960, senão... auhsuahsa muito bom, como sempre, meu caro. E mais leve também, fiquei até impressionado com essa sua faceta mais light.

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