E se…? (por Catarina Luna)

      Provavelmente seria a última vez que se veriam. Ninguém precisaria de o dizer, os olhos ditavam-no por si.
- Talvez estejamos a remar em sentido contrário. – dizia ele, já com o peito marejado em lágrimas.
- Só não sabemos em que direcção devemos remar. Não será, no fundo, a mesma coisa? – questionava-se ela, quase em surdina.

         Não esperavam eles que o destino ainda os surpreendesse. Ela era a senhora dos seus mil caminhos, sabia ao certo que estradas deveria pisar. Com os seus grandes e luminosos olhos verdes, tinha a capacidade de assustar quem caminhasse a seu lado. Até a ele, que julgava ser o seu coração. Mas quem seriam os dois? Estando juntos anulavam-se. Que futuro poderiam criar?

       - Eu sou do lado de dentro, de cá. Criamos mundos diferentes, quando podíamos ser somente um. Reconheço-te triste, por vezes, mas nunca sei como devo perscrutar esse silêncio. – dizia, a medo, o pequeno coração dela. 

       Nem sempre as coisas belas duram na sua eternidade. Um dia, talvez por força do destino ou por engano das circunstâncias, ele voou. Foi para longe, mas ficou perto. Ele, o pássaro enjaulado a quem alguém tivera a crueldade de cortar as asas. E ela ficou, ficou só e desolada com os seus infindos vestidos cor-de-rosa e amarelos, que nada diziam sobre si. Nadava em marés de sossego, quando na verdade se sentia constantemente a afogar. Dizia que era a esperança de o trazer de volta.
Tantas vezes o pai a interrogava, deixava dúvidas a pairar no ar, esperando que fosse essa a maneira de a alertar.

- Parece que tantas vezes foram vez nenhuma, tenho culpas guardadas que não me permitem avistar um fim. Talvez seja assim, paizinho, talvez o amor seja uma ida sem retorno. – lacrimejava a menina-mulher.

         Ou então, talvez houvesse uma outra oportunidade. Uma possibilidade de um reencontro sereno. A verdade é que ele tinha ido. A força das palavras renovava-se a cada instante, e de cada vez que ela se deitava na tentativa de esquecer o seu mísero sofrimento, a sua mente repetia uma palavra estranha e um tanto assustadora: desvanecer, desvanecer, desvanecer… E tentava ludibriar o seu pensamento com outras ideias, outros amores. Sempre em vão. Até que um dia, numa madrugada de devaneios supremos e absolutos, ela percebeu – eles não poderiam nunca transformar-se num só. Ela era ar, ele era terra. Ela era todas as tristezas que o mundo alberga (e tantas outras), ele era feito de uma matéria desconhecida, sabia apenas que não restava lugar para sonhos ilusórios. Uniam-se por vontade, mas ditaram uma separação desde o começo. Não aprenderam a ser, reduziram todos os seus quereres a anseios supérfluos. 

        - E cá estou, com os meus longos vestidos e estes colares de pérolas que parecem revelar o preço da minha felicidade. Assim terei de aprender a tornar-me no meu eu de antigamente. Eu só queria ser a Sónia que ainda ontem sorria com os pequenos delírios da vida. – murmurava ela, ainda a medo.

          Nem um recado ele tinha deixado, em cima da mesa de jantar, que sempre se encontrava ocupada com os livros que nunca haviam lido. Sobrou apenas o entulho das suas vidas. De vez em quando, ela ainda se interrogava: e se ele tivesse regressado, como seria? Como poderia transformar, de novo, os seus dias? Mas não gostava de "se's". Deixou de se questionar. Ainda queria saber, mas julgava não precisar. 
Entre caminhos opostos, lá se iam recordando um do outro. Às vezes, muito baixinho, para que ninguém se apercebesse. Escondiam-se um do outro por não saberem estar perto. Mas teriam, em algum momento, estado perto? E se ele ainda regressasse? E se ela o procurasse?




Escrito por Catarina Luna, do Princesa Desalento

A Luna perguntou se poderia enviar um conto, e eu fiquei mais do que feliz. Adoro ler os textos dela. Sei que esse post ficou maior do que o padrão do blog (alguns podem estranhar). A minha justificativa para tal é: eu pedi para ela escrever. Novamente, se quiser um texto seu por aqui, leia as regras

Ilustração de autoria de たえ 

Comentários

  1. Confesso que sou suspeita pra comentar sobre um texto seu, Catarina. Mas, vejamos... Da primeira vez que li (quando me enviou por e-mail), achei-o triste demais. Agora, com essa segunda leitura, começo a perceber um ponto positivo. Esse "e se" dá espaço a uma série de coisas que poderiam ser feitas para eles terem um final feliz. Não está claro por que, exatamente, o casal não poderia se unir. Mas, se foi mútuo, há chance.

    Levando um pouco pro sentido da vida: a gente costuma colocar barreiras imaginárias onde, nem sempre, elas existem. "Ah, era pra ser". Temos uma visão meio conformista sobre quase tudo. Incluindo nessa questão, o amor. O "e se" como possibilidade de mudança deve ser levado ao pé da letra e transformado em atitude.

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    1. Eu amei o texto, não só a escrita mas também os sentimentos. A verdade é que no final sempre tem um 'e se' para ficar na cabeça, pelo feito e pelo não feito. E as vezes só querer, mesmo que ambas as partes queiram, não é o suficiente. Eu entendo bem.

      Suzi, obrigada pelo comentário, gostei muito e queria te dizer que a carta que está no meu blog é real sim, todas da tag'desafio das cartas' são (e todas que escrevi dessa tag pra o mesmo rapaz o.O'), alias praticamente todo texto do meu blog são meus sentimentos reais.

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  2. Saudações


    Parece-me que, entre atitudes e devaneios, o ser humano sempre busca a aceitação em suas ações (e na própria vida). Este conto trouxe para mim esta linha de raciocínio, onde os elementos mais comuns dos sentimentos e prazeres humanos entram em xeque graciosamente.

    Muito bom o seu conto, nobre Catarina.


    Até mais!

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  3. Adoro um testo com cara de poesia mas sem estar num formato de poesia. Você escreve bem, e não ligo pro tamanho do texto. I mean, eu sei porque a Suzi pede textos curtos , mas pra mim, grande ou pequeno, se a pessoa escreve bem , que importa o tamanho? Eu nunca conseguiria escrever assim. Gosto das minhas histórias simples, no sentido das palavras usadas. Sou melhor mostrando o que realmente está acontecendo do que usando expressões com um significado maior no contexto. Está de muitos parabéns, e consigo ver porque a minha mentora lhe adora tanto. Parabéns. É como aquele ditado que diz "Tamanho não se julga pela capa" ................................. não, pera

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    1. E eu escrevi parabens 2 vezes.... yeeeeeeeeeeeeeeeey

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  4. fico tão feliz por ver aqui o meu conto, sobretudo por ter sido tão inesperado. pensei que fosse publicado apenas em Dezembro, mas quando vi no e-mail que já estava no blog, soube que hoje seria um bom dia!
    obrigada, minha querida, pelas tuas palavras carinhosas. por tudo, digo - os comentários, as reflexões, os incentivos e os conselhos. sempre em busca de novas sensações, é assim que te imagino :)
    agradeço também às pessoas que já fizeram os seus comentários acerca do conto, rasgaram mil sorrisos no meu rosto.

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  5. Gostei muito do texto, mesmo sendo longo! Ah... os encontros e reencontros...
    Catarina, sera que na sua historia ira ter um retorno? Torco para isso!
    Nao repare a falta de acentos e cedilhas, o computer nao ajuda! bjs

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  6. Lindo texto! Tem horas que esses "se's" machucam demais a gente é principalmente quando o assunto é relação é melhor não ficar pensando naquilo que poderia ter sido.

    (desconstruindoaspalavras.blogspot.com.br)

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  7. Sabe quando você está no frenesi lendo mil post, ouvindo uma música e ainda baixando um video, conversando com alguém, pensando em qual roupa vai usar no culto amanha, bem geminiana mesmoooooo e o texto faz você baixar o ritmo... te bota calma, melancólica... perdida nele, na melancolia dele, no mistério dele?!?!? Pois é! O que dizer dele... bem.... difícil falar...

    Pandora.

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  8. Uma coisa que me incomoda bastante nas relações humanas, não sei se isso vai se encaixar tão bem no texto, é o silêncio de concordância que surge entre as pessoas. Quando algo nos aflige em algum relacionamento há duas maneiras usadas frequentemente, cutucar a ferida com ironia ou ignorar o que fere e esperar que passe. O que me pergunto é, por que não expomos em frases simples aquilo que nos perturba e ao mesmo tempo abrimos nossos ouvidos para aquilo que perturba quem está ao nosso redor?
    Bem, deixo aqui minha reflexão. Ótimo texto Catarina.
    Abraços.

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  9. Realmente as coisas belas não duram para sempre. Adorei o texto, meio grande rçrç, mas muito bom. Parabéns Catarina. Tem post novo lá no blog, passa lá.
    Abraços,

    J. A. Santos
    http://j-a-santos.blogspot.com.br/

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  10. Seu texto realmente é grande, mas eu não consegui parar pela metade, li tudo e adorei. A calmaria, a melancolia. Me conquistou em todos os sentidos. Adorei.
    cronicasdeumlunatico.blogspot.com

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  11. Achei tudo uma dolorosa partida, mas a vida é feita disso e a gente não sabe o que vai vir pela frente

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  12. Me fez pensar,
    em como será. Quando eu for e tiver que voltar!
    :/ :/ :/
    Muito bom esse post

    "O problemas de gostar de algo diferente,
    é estar num lugar aonde todos gostam da mesma coisa a penas.
    Oque as pessoas não conhecem elas destroem" (Respondendo a sua pergunta)

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  13. Muito bacana o blog. O texto é um tanto quanto melancólico, bonito. Eu sou uma traça devoradora de livros: biografias, ficção, crônicas, ... tudo!
    Tornei-me fã.
    Um grande abraço.

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  14. Adorei o texto. Quem nunca perguntou e se? Mas infelizmente as vezes não tem como voltar atras.

    Blog Prefácio

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  15. O que eu comento agora? Não achei o texto grande, gostei dele, queria mais. Ficou muito bonito, não sei o que dizer... Acho que o comentário da Suzi diz tudo o que pensei, de uma forma o texto é triste, mas dá a entender que eles poderiam se encontrar novamente, e levando para o lado da vida, poderia ser uma metafora para barreiras que a gente não consegue passar por medo do desconhecido, de não conseguir. Enfim, gostei muito do texto, ficou lindo demais!

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  16. O destino sempre trás supresas para nós, Emilie obrigada pela visita beijos.
    http://www.lucimarestreladamanha.blogspot.com.br

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  17. Não achei longo, pelo contrário, tava tão bom de ler que foi fluindo rápido.
    Cheguei ao final e simplesmente adorei!

    Beijos.
    http://viciosemtres.blogspot.com.br/

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  18. - E cá estou, com os meus longos vestidos e estes colares de pérolas que parecem revelar o preço da minha felicidade...Lindo, delicadamente sensual, um mimo, em cada linha deliciei-me a pensar e tentar interpretar o q escorria de cada uma delas, gostei muito deste texto intenso e bem quentinho e dxo pra vc beijinhos e beijinhossssssssssssssssssss

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  19. Olá :D

    Então... perdão a ausência ): Estive um pouco ocupada e um tanto desanimada com o blog. Tenho cultivado coisas que tem me consumido muito também haha. Mas prometo estar por aqui com mais frequência (:
    Conto maravilhoso da Catarina! Os acasos da vida nos fazem pensar sobre como os caminhos seriam se diferentes, né? adorei!

    beijo

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  20. Emilie, vi que vc costuma publicar contos de outros autores e, depois de ler com bastante cuidado as regras, te enviei um material meu por e-mail. :)
    Agora parando de falar de mim, o texto da Catarina. Amei o jeito narrativo dela, adorei o clima de esperança q o texto deixou pra mim no final. E adoro metáforas envolvendo passaros. Na verdade,eu adoro passaros, adorar as metaforas é consequência. rs

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  21. É tão bom de se ler que nem percebemos o tamanho do conto. E sabe, amo quando me identifico com o texto... e às vezes parece que foi escrito pensando em algo que eu mesma passei haha
    Esse "e se" da vida que faz com que persistimos em algo do passado... na maioria das vezes eu não gosto de ficar pensando nisso, porque nunca achamos que fizemos do jeito certo.
    Beijos - http://otoemduvida.blogspot.com.br/

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  22. Lindo texto, mas triste. Não acho que seja muito grande, um bom tamanho para dizer o que precisava ser contado.

    petalasdeliberdade.blogspot.com

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  23. O pior arrependimento é justamente aquilo que não fizemos.
    Nunca saberemos como seria.
    Belo texto.

    Histórias, estórias e outras polêmicas

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  24. Achei um conto ótimo! A história flui de uma maneira gostosa de ler...
    E realmente o post ficou maiorzinho do que costumo ver por aqui, haha. Mas acho que isso não é um problema né?

    Beijoos.
    www.quaseatoa.com

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  25. "Deixou de se questionar. Ainda queria saber, mas julgava não precisar."- loved.
    Adorei. Mostra o que muitas pessoas sentem depois de sairem de um relacionamento e é um sentimento tão inocente e verdadeiro...
    Gostei mesmo
    querosabertudo-k.blogspot.com

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  26. Lindo, simplesmente lindo, um pouco incomodo talvez pelo momento em que me encontro na vida, de estar tão fácil de me relacionar com a personagem, fácil, mas não realmente me relaciono, porque não querer recordar baixinho, por negar a cor da melancolia.

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  27. Acho legal a oportunidade que vocês dão de outras pessoas compartilharem seus escritos.
    É uma forma de conhecermos e de divulgar o trabalho dela.
    Adorei. Espero outros contos de Luna.
    Aaaaaah, outra coisa... Estou participando de um Book Tour, você poderá ganhar dois livros. É só se inscrever e concorrer. Entre em contato comigo e, se quiser ter a chance de ganhar, se inscreva: desbravadoresdelivros@gmail.com
    M&N | Desbrava(dores) de Livros

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  28. Se é uma palavra tão simples mas repleta de significados, né? Amei a palhinha de sua escrita que você nos deu. <3
    Abraço,
    www.livroserabiscos

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  29. Lindo esse texto *-* Cada dia mais impressionada com os talentos que são convidados a escrever pro seu blog!
    vestindo-ideias.blogspot.com.br

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  30. Lindo,lindo,lindo!! Uma história super enternecedora!! Gostei imenso de ler!! Beijinhos fofinhos!!

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