Diário Invisível


Dia 1: Não lembro o que aconteceu. Nem como fui parar lá. Estava frio e molhado. Não conseguia enxergar, apenas segui reto. Nada me atingiu, mas podia dizer com certeza que haviam obstáculos no meu caminho.

Dia 2: Consigo ver melhor. Fui parar no subterrâneo. Um amontoado de pessoas se empurrando pra lá e pra cá. Vagões enormes de metal faziam um barulho irritante quando passavam. Por mais irritante que fosse, não sabia explicar como eu podia escutar e ver tudo. A noção de um corpo próprio não existia para mim. Será que eu deveria falar com eles? Ninguém me enxerga.

Dia 14: Até o momento não tive interesse em falar com alguém. Todos parecem tão ocupados. Preciso ir para a escola. Estou atrasado pro trabalho. A janta vai esfriar. Vou perder o ônibus. Meu filho foi atropelado. Minha bolsa. Passa a carteira. Antes que comprem o último da loja. Ninguém me vê.

Dia 25: Uma moça no carrinho de lanches. Tantos famintos apressados. Ela faz o melhor que pode. Os lanches são deliciosos. Não faz diferença. Escuta grosserias, pega o pagamento e agradece sorrindo, como se nada tivesse acontecido. O dia todo. Quando chega a hora de sair do cubículo e olha para trás, sorrindo. Olhou bem para a minha direção. Será possível... que ela me viu?

Dia 47: Tenho a observado por algum tempo. Ela não tem muito. Não mora com ninguém. Não além do cão. Um cômodo. Pouca comida. Seu único entretenimento é acariciar o bichinho enquanto escuta as notícias pelo rádio. Ou ler. Livros é o que não falta naquele aperto.  Gosto quando ela lê em voz alta para o cão, pois também posso escutar e aprender. Tentei pegar um livro, mas as coisas vivem me atravessando por aqui.

Dia 96: Tentei falar com ela. Não me escutou. Ela anda muito triste. Queria poder abraçá-la. Escutar seus problemas, por mais que eu tenha observado todos eles de perto. Acariciar sua cabeça. Ela não me vê.

Dia 220: ... Tão rápido... Do nada... Uma bala... Um latido... Sangue... E o criminoso foge com os poucos cacarecos que ela tinha. Ela nunca pôde me ver

Dia 417: Ainda estou aqui... é barulhento, mas ainda parece um lugar vazio. Sem ela aqui. Ninguém percebe que estou no quarto vago.

Dia 900: Entrou um novo inquilino. Ele é bobo. Bobo e feio. Não gosto dele. Ele não pode me ver.

Dia 914: Fiquei com raiva. Muita raiva. Fiquei com tanta raiva que o inquilino me viu. E não gostou do que viu. Ele ficou aterrorizado. Pálido. Chorando. Eu sou tão feio assim? O que eu sou? Onde estou? Queria poder me ver.

Dia ?????:.................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. Vejo você




Comentários

  1. Primeiro: Felipe, tenho que te manter escrevendo. PRECISO. Sei que deve ficar de saco cheio de tanto eu pegar no seu pé. (Tudo a seu tempo, eu sei). Mas sempre irei insistir: porque você tem talento. É o que vivo repetindo: você é melhor do que eu. Aliás, faz muito tempo que me ultrapassou. Quanto mais longe (melhor conseguir se expressar, criar, e expandir o seu horizonte criativo), melhor! Enche essa mãe aqui de orgulho! ;___;

    Segundo: Como você me aparece com um conto surpreendente desses? Adorei <3. Esse final com inúmeras reticências, dando a entender que acabou ali, é tão seu (lembra o "Morte 3x4")!

    Só uma coisa: fiquei curiosa pra saber quem era a mulher. Alguém que o fantasma conhecia?

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    Respostas
    1. Não. Só uma estranha mesmo. Pensei em fazem um final com eles dois, mas a história ficaria linear, e não teria um impacto tão legal quanto a das reticências . Agradeço por continuar puxando a minha orelhinha e insistindo que eu escreva. Só podia ser mamis <3

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    2. Tem razão, não teria o mesmo impacto. Algumas histórias ficam melhor se não forem continuadas. O legal é deixar a coisa no ar, pro leitor ler e pensar "será...?". Ah, você está se acostumando a escrever histórias curtas - isso é bom. (^∇^)

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  2. Caraca, adorei!!! E achei ótimo o final, a história começou tão distante de nós, sem nem mesmo que o leitor compreendesse para onde iria e no final chegou em nós! Fiquei com pena do fantasma, a solidão é um dos sentimentos que mais me tocam, talvez porque eu me sinta só vez em sempre.

    Adorei Felipe, escreva sempre... que sua escrita é massa!!!

    Pandora

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  3. Nossa, primeira vez que venho aqui e me deparo com esse texto de deixar o leitor sem fôlego.
    Você escreve muito bem, e o que mais me chamou a atenção é que quando comecei a ler, eu não estava entendendo muito bem, mas conforme a gente vai lendo .. vai entendendo. Ficou ótimo!
    Achei o fim triste, emocionante! Vou passar a acompanhar seu blog, adorei a forma como você escreve.
    Parabéns Felipe, escreva sempre.
    Beijos :*

    http://withoutidea.com

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  4. Lembrou-me demais creepypastas. A aflição do protagonista com essa distância que foi proposta entre ele e os outros personagens é o melhor. Angustiante.

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  5. Oie =)
    nossa, que texto!
    Bem escrito e elaborado, e quanto suspense, e esse final que deixa tudo no ar?!!
    Beliscões carinhosos da Máh-
    Cantinho da Máh
    @Maaria_Silvana

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  6. CARAMBA, escreve muito bem !
    No começo da história eu meio que não entendi, mas fui tomando o enredo aos poucos...

    Beijos - Uma outra estação

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  7. Daqueles contos que fico sem saber o que dizer. UAU. Sem mais.

    www.fernandaprobst.com.br

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  8. Confuso no começo, e quando a gente entende e acha que vai para uma direção, vai para outra e acaba, bem ......... Gostei muito.

    Thoughts-little-princess.blogspot.com

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  9. Nossa, primeira vez que venho aqui e ja me encantei. Gostei dmsssss.

    http://beggar-fashion.blogspot.com.br/

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  10. Sim... o tipo de conto que prende um leitor do início ao fim! É o que costumo dizer em meus comentários clichês, mas uma coisa clichê não precisa ser sinônimo de falta de sinceridade, e dessa vez posso estar até sendo mais sincera que das outras vezes. Enfim, deu para entender que eu amei cada dia relatado desse diário invisível, né? Parabéns mesmo pela escrita.

    Beijos ♥ Jeito Único

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  11. Lindo texto, porém triste.
    No começo dele, pensei que fosse um texto relacionado ao Holocausto.
    Mas, adorei!
    Beijos <3

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  12. Eu fiquei me perguntando: o que se passa?
    às vezes tudo acontece como um flash. Aparentemente não vemos nada, mas no final das contas conseguimos ver o que é possível enxergar. é a solidão, o fantasma que está perto e conseguimos ver, sentir.
    Não sei se é por esse caminho que se passa a história, mas foi por aí que entendi, rs. E curti

    M&N | Desbrava(dores) de Livros

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  13. Poxa, primeira vez que visito o blog e me deparo com esse conto surpreendente! Adorei a história contada em dias e a forma como você escreve. O final foi demais, não dava para perceber que acabaria assim.
    To seguindo!
    Beijos - http://otoemduvida.blogspot.com.br/

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  14. Gostei do texto, deu para sentir inquietação, angustia, e surpresa. Gosto de texto que nos surpreenda, que começam de uma forma e terminam de uma totalmente diferente. Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  15. Ok, simplesmente pensei que ia acontecer algo, estava tão longe e depois, BAM.
    nossa O.O
    sem mais, adorei. Você escreve muuuuito bem. Não pare com isso. e.e

    Beijão.
    Larissa

    - Vitamina de Pimenta -

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  16. Genial!
    Queria poder fazer um comentário decente mas, poxa, é "simplesmente" genial. Ponto.

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  17. Adorei o texto, deu um arrepio aqui o-o
    Tu escreve muito bem, continue u-u ♥
    Beijnhos ♥
    http://mydreamsofasummernight.blogspot.com.br/

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  18. Eu não sei o que dizer nem o que pensar. Está sem dúvida muito bem escrito e desenvolvido. Na verdade, fico contente que a coisa entre o fantasma (?) e a mulher não se tenham desenrolado pois o foco seria outro.
    Esse texto está perfeito
    querosabertudo-k.blogspot.com

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  19. Meu deus, que texto perfeitooo.

    Xx
    overdosederosa.blogspot.com.br

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  20. Fiquei olhando pra trás depois do ~vejo você~ hsuaehauh sério. :O
    Adoreeeeeei! Leitura gostosa e que me prendeu a atenção, e sinceramente, dava pra tirar um livro em cima disso. Que tal? :3

    Beijooo.
    http://www.quaseatoa.com/

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  21. Adorei, dava um livro! Continue escrevendo ;)
    Cat Girl

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  22. O tipo de texto que é tão bem elaborado que a gente pode ter vários tipos de interpretação ao longo da leitura: "Será que é isso? Ou seria aquilo?". Maravilhoso!

    P.S.: Sobre o texto lá do blog "Heroine", de fato foi um acontecimento real :D

    beijo

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  23. Senti um frio na espinha (é assim que se fala?!) quando fui chegando no final do texto. Fiquei indignada porque as respostas estavam na minha frente mas não queria aceitar tudo o que estava acontecendo.
    Ótimo texto =)

    Beijos,
    www.procurei-em-sonhos.com

    ResponderExcluir
  24. WOW! Você escreve MUITO bem! O final foi imprevisível e, na minha opinião, foi isso que o deixou melhor! Parabéns :D
    http://thaynacamila.blogspot.com.br/

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  25. Sen-sa-ci-o-nal!!! Mais, por favor... : )

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  26. Que perfeito! Você escreve MUITO bem! Eu só não entendi uma coisa, quem ele viu nele? Sabe? Não entendi direito o final "vejo você", afinal... Quem ele viu? Ai, tá me matando de curiosidade!

    xx,
    www.likeparadise.com.br

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  27. Nossa!!! Incrível esse texto! Parabéns! Por favor, continue escrevendo! Estou arrepiada até agora rs

    (desconstruindoaspalavras.blogspot.com.br)

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  28. Uau! Não esperava mesmo por esse final. Esperava que ela fosse aparecer e conseguir ver ele. Não sei. Nada parecido com isso. Gostei muito! Quero mais. haha

    lenisebruna.blogspot.com.br

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  29. Ficou muito bom! Me lembrou algum filme ou anime (não sei) que vi que falava que fantasmas ficavam mals depois de um tempo e acabavam se perdendo. Ainda estou tentando entender o último dia haha'

    Gostei das reticências, acho que ficou melhor assim ^^

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  30. Que demaaaaaaaaaaaaaaais! Raramente temos a visão do "fantasma" a respeito do humano... Me senti num universo paralelo. Muito bom, parabéns!

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  31. Instigante e intrigante e de tão bom que é!

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  32. Nossa. O texto não me deixou angustiada, ou com medo. Mas achei bastante melancólico. Costumo considerar um texto bom quando o acho original. Costumo considerar um texto foda quando me surpreende. E costumo considerar o texto perfeito quando rola uma identificação, digo, quando sinto ali alguma coisa que me parece genuína. Como se eu fosse a unica leitora daquele texto que entendeu realmente o que o autor quis dizer. Sei que não é um sentimento verdadeiro, afinal, muitas outras pessoas tem total capacidade de compreender. Mas a morte da mulher que lia para o cachorro me trouxe uma tristeza muito grande. Maior que o normal, uma vez que se trata só de um conto. Calma, Mari Mari.

    obs: Queria dizer pra Emilie que adorei o blog que ela me indicou. O autor é deliciosamente dodoizinho da cabeça e o site vive abordando meu tema favorito, que é a perversão sexual, em especial a própria necrofilia. Me identifiquei perdidamente. E não vou nem falar das referências ao romantismo gótico. hha

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  33. Muito bom mesmo o seu texto, me prendeu completamente. É estranho, é original, é lindo. Realmente me surpreendeu bastante e eu tenho certeza de que se você continuar á escrever assim, realmente vai longe.
    cronicasdeumlunatico.blogspot.com.br

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  34. Saudações


    Este conto foi deveras soberbo.
    Muito lhe felicito pelo mesmo, nobre Felipe.


    Até mais!

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  35. Quando eu crescer vou querer escrever igual você *-*
    http://teoremasdeana.blogspot.com.br/

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  36. Nossa, isso foi muito bom, de verdade. :)
    Eu li achando que eles iriam se encontrar no final quando ela morresse ou só que ela fosse ver, mas ai.. eu fiquei meio que interessada/com receio do final. Isso dava uma ótima história, eu acho, mas cm certeza dava um conto sensacional!

    Pale September

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