Nulo

    Ela era a escolhida. Tanto tempo de estudos e dedicação a levaram àquele momento. Estava decidido. Ninguém poderia ser melhor para a missão. Data marcada. Uma nave espacial pequena. A família ficou preocupada por ela não levar ninguém junto. “Minha filhota num cubículo, sem proteção”. Mas ela era uma moçona... Ao menos era o que gostaria que a mãe compreendesse.

     Um bolo. Balões. SURPRESA!! Todos sorrindo e parabenizando a conquista da inteligentona da família. Os sorrisos logo transformaram-se em choro. A mulher mal aparecia em casa, e na única vez que dá as caras... É a última vez. “Quem sabe dá um problema no foguete e ela volta mais cedo” - algum tio tentou ser otimista. Porém, nem todo otimismo do mundo impediu que o veículo decolasse. Uma grande chama  foi o último adeus que a doutora deu ao seu lar azulado.

         O grande galho branco desmantelou, dando forma a um pequeno cruzador. A nave saltou pelo espaço, seguindo reto em direção ao fim do Universo. O que haveria após as infinitas estrelas e galáxias? Era o que a moça pretendia descobrir na viagem. Enquanto observava os vários riscos brancos sendo desenhados na escuridão infinita, ela pensava sobre as possibilidades... O progresso... Os prêmios... A sabedoria. Abafou a ansiedade e se preparou para a hibernação. Travou as coordenadas. Piloto automático. Entrou numa cápsula e virou picolé de cientista. Conseguia sentir o objeto atravessando as camadas. Passando pelas galáxias. De repente viu um clarão. Ficou assustada. Talvez fosse apenas um sonho novo começando. Um túnel. Planetas, satélites e anéis passando por ela. Piscando e piscando e piscando e piscando e girando e piscando. 

             O gelo não parecia mais tão frio. A capsula parecia mais espaçosa que antes. Ela podia abrir os olhos. E ela viu. As massas explodindo e atravessando barreiras. Os moldes e as formas que tomaram. As luzes acendendo. O preto e branco ficando colorido. O pequeno virando gigante. Todos os pequenos pontinhos brancos sendo posicionados e alinhados. A pintura estava pronta. E continuou crescendo e colorindo. Pôde ver cada criatura, cada espécie, cada família, cada criatura viva anos luz distantes. Todas acreditando em um sonho. O sonho de encontrar vida além da órbita. Fora de seus respectivos planetas. Nada importava mais. Casa. Terra. Parentes. Pesquisas. Prêmios. Ela apenas ficou lá, dentro de sua cápsula, assistindo tudo evoluir no vácuo do espaço.


Comentários

  1. Que bonito seu texto! Sempre achei que uma pessoa, para poder viajar para o espaço, tem que ter uma mente muito forte, para não enlouquecer depois de ver o universo e o seu tamanho. Acho que quando uma pessoa chega lá acontece o que aconteceu com a mulher do seu texto, as coisas param de ser tão importantes, como os prêmios e etc.

    ResponderExcluir
  2. Nossa, Felipe, esse é seu conto mais curto depois da "Diva". E você falando que estava sem vontade de escrever, inspiração e etc. As coisas funcionam de forma diferente pra você: quando está iinspirado, as ideias fluem de tal modo que fica difícil não capitular as histórias. Já nos momentos "menos inspiradores", escreve contos curtos. Mas, sabe o que tem de legal nos seus contos? Eles prendem o leitor. É uma coisa bem armada e simples. E, ah, você tem melhorado muito nas descrições (taí algo que não sei fazer bem). Então, pra resumir: bem-vindo de volta!

    P.S.: Continue escrevendo, mesmo que os textos não lhe agradem. Se a gente para, fica difícil voltar.
    P.S.2: Mudei a imagem que colocou pra ilustrar o conto, muitas luzes fazem os olhos doerem (sorry about this, aliás). Espero que tenha gostado dessa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, mentora ^^ Não pararei de escrever, jamais. Faz bem pra mim <3

      Excluir
  3. aauuaha, ah é um pouco assustador sim Emi, parece que os corpos vão sair andando sério ahauhuaha
    que lindo, parabéns Felipe, ótimo conto! :)

    beijinhos :*
    japona.mairanamba.com

    ResponderExcluir
  4. Lindo texto, adorei, muito bom quando faz os textos baseado na fotos :) ficou ótimo, beijinhos

    ResponderExcluir
  5. Peço desculpas aos leitores do blog também. Não bato bem das idéias, e as vezes me excluo pelos motivos mais ridículos. E pelo visto não sou bom em diferenciar as histórias boas das ruins XD Mas agradeço pela paciência e atenção. Obrigado, e aguardem por mais.

    ResponderExcluir
  6. Adorei! Bem diferente do que eu já li, acho que por isso gostei. :D

    Beijos! <3
    http://www.quaseatoa.com/

    ResponderExcluir
  7. Ah que conto incrivel! Tava com saudades de blog viu.
    Queria ir pro espaço, mas tenho medo. haha Pude sentir a adrenalina e o coração pulsando forte conforme lia, da forma como o dela deve ter feito conformo o foguete ia, ia, ia e as coisas apareciam gradativamente em sua frente. Amei!

    Voltei com o blog, caso haja interesse. rs http://denovomaisumavez.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  8. Ótimo conto!
    Às vezes 'sumir' não resolve nossos problemas.
    Toda vez que tenho problemas em casa, quero ir para o espaço.. mas sei que não vai resolver nada =/

    bjs
    Nana - Obsession Valley

    ResponderExcluir
  9. Adorei ;D
    Nunca li um texto assim, temos que prestar a atenção para entendermos. Ficou muito bom!
    Ás vezes é bom estar um pouquinho distante da realidade, para percebemos o tamanho que é o Universo e o brilho das estrelas!
    Beijos,
    Nati,
    http://nataliascholze.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  10. Saudações


    Ótimo conto, Felipe.
    Embora não fosse o tema do mesmo, achei a obra bem sentimental.


    Até mais!

    ResponderExcluir
  11. acho incrível um texto simples, relevante e despretensioso como esse. aparecer por aqui é sempre uma surpresa. difícil é escolher o texto mais interessante.

    ResponderExcluir
  12. que bonito! cheguei ao final e pensei "e agora? queria que esta história tivesse uma continuação...", mas não tem e é isso que a torna tão interessante. acho que lhe atribuí o meu final imaginário :)
    um beijinho grande <3

    ResponderExcluir
  13. De forma clara e simples o texto se torna a cada palavras incrível. Muito bom. Até mais, e um ótimo fim de semana.
    http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  14. Nossa! Que lindo! Me vi dentro dessa cápsula contemplando todo esse colorido no espaço. Parabéns! Me fez ficar presa ao texto.
    Descreveu tudo com muita singularidade, detalhes, despertou interesse, e nos fez entrar na sua órbita! Parabéns!
    Assim que der, aparece no meu blog.
    http://www.borboletra.com/

    ResponderExcluir
  15. Ta aí uma coisa que eu sempre quis fazer! Se eu tivesse paciência, gostaria de estudar muuuuito para ser a pessoa adequada para essa missão, mas acho que eu morreria de medo de não conseguir voltar pra casa depois...
    -xoxo

    www.s2juuh.blogspot.com.br

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Teste de Coragem

Dois gatos

Teto de verniz