00:00h - Parte 2





A Terra da Meia Noite. Seres de variados tipos e aparências vagam por essa eterna noite, vivendo sobre o mundo paralisado, sem que as pessoas tenham noção de sua existência. Assim explicava Raptor para Jade sobre o plano em que ela veio parar por via de uma maldição invocada contra a própria mãe, Maria. Desde deuses a meros amigos imaginários, qualquer criatura já imaginada pelo homem é facilmente encontrada. Eram tempos difíceis. Habitantes sendo devorados. Morte. Guerras entre gangues. Cada um fazendo o que achava melhor para garantir a própria sobrevivência ou a de um grupo. Isso nas ruas desoladas, onde apenas os desafortunados e famintos se encontravam... Como Raptor. Além das alturas, dos arranha-céus, ficavam os mais afortunados. Deuses gregos, vampiros e bruxos andam muito populares além das roxas nuvens. De tempos em tempos a escala muda. Muitos fazem de tudo para subirem. No fim acaba sendo uma “escolha da natureza”. Houve uma época, por exemplo, em que os deuses egípcios dominavam a área. E num certo dia, todos caíram do céu. Sem motivo nem nada. Apenas caíram. Alguns foram devorados pelos famintos que estavam por perto. Outros se esconderam onde puderam, até desaparecerem do plano. Os habitantes mal sabem sobre sua própria origem. Lembram-se apenas de terem surgido em algum lugar do plano. Uns dão certeza que foram criados por homens. Outros que os homens são suas crias. Indiferente disso, todos lutam para alcançar a glória eterna nos céus. Bom, nem todos. O raptor apenas queria viver em paz. Não se importava com títulos ou poder. Apenas ser deixado quieto, em seu canto, longe dos conflitos e confusões. O que acaba se tornando impossível durante a procura por alimento e abrigo. Vivendo como um nômade, trocava o tempo todo de quarteirão. Entrava em brigas para competir pela carne de algum corpo em putrefação. Agora as coisas complicaram-se mais. Carne crua não parecia o alimento apropriado para uma menininha perdida em busca da mãe. Para o bem dela, achava melhor até não se envolver em nenhum conflito. O que menos queria era horrorizar a garota com mutilação e morte, mesmo que isso custasse ao dino passar fome.

Perguntavam por toda parte, procurando boatos sobre a mãe da tímida. Um Curupira pendurado de ponta cabeça disse ver uma sombra carregando um corpo monocromático por aí. Um Narval encalhado disse ter visto um homem-cão negro carregando uma mulher, em direção ao sul. Um ser das sombras, metade homem, metade cão...  Dino lembrou de ter ouvido uma história sobre alguém com a mesma descrição raptando outros moradores, mas nunca humanos. Ninguém nunca tem contato direto com ela... E quem já teve, evita entrar em detalhes com medo de também serem capturados apenas por mencioná-la. Quem seria esse monstro sorrateiro? Perdido em seus pensamentos, o raptor percebe ter perdido a menina de vista. Encontrou a menina no próximo quarteirão, sentada no paralelepípedo, segurando o braço arranhado. Ela ergueu as mãos, abrindo uma bandeja de plástico com alguns filés de carne crua. “Tome” falava ela oferecendo o alimento. “Sei que está se segurando até agora por minha causa. Não quero que passe fome. Achei um caminhão sendo descarregado aqui perto e bem... Como ninguém podia me ver nem se mover, peguei algumas coisinhas.” Raptor, agradecido, se prostrou em respeito a menina. “Ora seu, pare.” Acariciou a cabeça escamosa do amigo. O dino comeu a carne, enquanto a tímida devorava uma maçã que encontrou no meio do carregamento. Embora uma força estranha impedisse os habitantes de interagirem com o reflexo do mundo humano que pairava pelo mundo, Jade era livre para fazê-lo, desde que fossem objetos. Um problema resolvido. Se esconderam em um beco desocupado. Jade arrumou um pouco de papelão no chão e deitou. Raptor cobriu a menina com uma das asas para aquecê-la e ambos adormeceram.

A menina abriu os olhos. Viu que o amigo ainda adormecia. Apesar dele ter insistido antes para que ela não se afastasse, se arrastou para fora da asa, sem acordá-lo, pegou uma caixa vazia por perto e foi ao local do descarregamento mais uma vez. Colocando os produtos dentro do papelão, sentiu um calafrio. Escutou vozes abafadas e se virou, não encontrando ninguém. Seguiu o som. Nadinha de nada. Ao decidir retornar ao caminhão, foi surpreendida. Uma criatura negra com cabeça de cão flutuava perto dela, de braços cruzados. Sentia ser fitada por seus grandes olhos vermelhos. Em pânico, a garota correu, derrubando toda a mercadoria. O ser logo teletransportou-se em frente a moça num piscar de olhos. Ele apenas ficava lá, flutuando e a fitando, enquanto balançada a cauda. Começou a sentir muito frio. A imagem ficava distorcida aos poucos em que o cão esticava sua mão em direção à vítima. Então raptor apareceu para proteger sua princesa perdida, porém o mostro era demasiadamente rápido. Deu um arranhão no dino e ele caiu, retorcendo-se de frio e dor no mesmo instante. Quando tudo parecia perdido, um lençol branco desceu dos céus. Jade viu uma luz forte e apagou.

“Deuses caídos podem ser catastróficos, não?” uma voz chamava a atenção da criança, embora o clarão a impedisse de enxergar. “Não. Você não está morta. Seria um completo desperdício se você falecesse. Não posso dizer o mesmo de seu amigo escamoso.” Jade tentava interagir com a fêmea voz, porém seu corpo não reagia. “Não se esforce. Posso ler seus pensamentos, isso basta. Quer que eu cure ele, correto? Eu não costumo fazer as coisas de graça, mas considerando quem confrontou, posso te dar um presentinho... Anúbis. O antigo embalsamador egípcio. Que dia terrível o que ele caiu. Quando encontrou sua amada Anput mutilada... Os desafortunados com pedaços de sua carne e seu sangue espalhados pela boca e mãos. Foi uma execução. Nenhum deles foi poupado pelo ceifador. Desde então passou sua vida escondido, planejando sua tenebrosa vingança contra os novos deuses. E agora rapta diversos habitantes deste universo para alimentar seus poderes e ascender novamente. Eu sei... Sua mãe. Posso sentir como a ama tanto. Um sentimento forte e imenso de fato. Ninguém pode derrotá-lo Jade. Os que reinam os mortos não podem morrer, infelizmente para você. Entretanto, com um pouco de esforço, talvez consiga resgatar sua progenitora. Ora o que estou dizendo... Anúbis se move quase na velocidade da luz. E seus poderes só aumentam. Está tão poderoso que mesmo pessoas ele consegue capturar... Como sua mãe. Eu tive sorte em conseguir te salvar a tempo.” O clarão desapareceu e a garota se viu flutuando na órbita da terra, bem próxima da Lua. Seu protetor também estava lá, aparentemente curado. “Onde eu estou? Ora menina tola, não reconhece a Lua quando vê? E pensar que faço parte da sua vida desde que nasceu.” A grande esfera iluminava o casal. De lá do alto, eram capazes de ver os dois andares da Terra da Meia Noite. Enquanto a festa reinava por cima, a desgraça mantinha-se abaixo. A tímida sentiu-se triste por todos. “Não tenha pena deles... Se soubesse o que cada um fez... E ainda fazem. Até mesmo seu parceiro fez coisas horríveis. Eles não merecem sua misericórdia. Ah... Você insiste... Eu posso dar o poder para levar Maria embora... E custará algo. Algo que desejo muito. Estou cansada de somente orbitar sobre um planeta tão maravilhoso... Apenas observando e nunca fazendo nada. É tedioso... Depressivo. Quero andar por aí... Viajar. Viver. Ter um corpo de verdade ao invés desta carcaça pálida e rochosa. Proponho o seguinte... Eu a ajudo a levar sua mãe de volta, e em troca me entrega seu corpo. Você o Satélite e eu a garota tímida. Que tal? Tem certeza? Se tentarem tudo sozinhos podem não sobreviver. Menos ainda sua mãe. E posso garantir que ninguém que encontrarem lá embaixo terão vontade de ajudar. É minha única oferta. Eu prometo que cuidarei da sua querida... E sempre poderá assisti-la daqui de cima para garantir que eu cumpra minha parte. Apenas pense sua resposta agora... Sim ou Não?"


---------------------------------------------------------------------------------------------------Imagem: http://browse.deviantart.com/art/Moon-17004892

Comentários

  1. Sim também.
    Mas aé ficar como satélite até quando?!?!?

    Beijos
    Pâmela Rodrigues
    Blog: Liste & Realize
    Página no Facebook

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  2. Eu digo sim para a Terra da meia noite!

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  3. gente, muuuuuuuuuito instigante. você simplesmente não pisca ao ler.

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  4. Uau! Muito, muito bom mesmo! Comecei a ler e só percebi que o capitulo tinha acabado quando reparei que estava lendo os comentários de tão envolvida com a história que eu fiquei.

    Parabéns!

    Beijos e uma ótima semana;***

    Ane Reis - mydearlibrary

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  5. sempre com palavras doces. parece que não sou a única a encantar :)

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  6. Muito bom o texto, acho que a resposta seria sim, mas ficar satélite até o fim, seria meio triste, não sei ... beijos

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  7. Contos sempre muito bem escritos :)
    Acho que se queremos uma continuação a resposta para a pergunta deve ser sim.


    Tecido Doce

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  8. Uau! Nossa, estou pasma, como é bom, estou mega curiosa com a continuação, o tamanho do conto me assustou, mas fui lendo e nem percebi o tempo passando, adorei a ideia central, super original *.*

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