A Porta 13 (por Jéssica Marques)

    Chego em casa e está tudo tão normal, igual. A cor acinzentada a qual já me acostumei. A luz cálida que entra pela porta aberta vai perdendo a intensidade enquanto subo os três lances de escada anti derrapante. Subindo observo a porta do apartamento 13. Ela me intriga. Passo por ela como sempre, fingindo não dar importância. Mas agora é diferente. Quando já estava eu a subir pelo meu terceiro e último lance de escada, ouço os passos de alguém que sobe apressadamente. Disfarço, pois quero saber quem é. Me parece tudo tão enfadonho que anseio por uma novidade qualquer. É uma freira. Rápida e apressadamente ela destranca a porta 13 e entra, deixando aberta atrás de si. 

       Sinto a curiosidade me consumir, talvez eu possa fingir que estava apenas fechando a porta para ela e finalmente ver alguns centímetros do tal lugar. Eu já havia visto uma senhora entrar e sair algumas vezes, imaginava ser alguma solteirona morando sozinha. Mas a presença da freira, com a chave da porta, me deixou apreensiva. Voltei dois degraus de maneira rápida e silenciosa e me dirigi à porta entreaberta. O primeiro cômodo, idêntico em todos os apartamentos do prédio, estava vazio, e era possível observar os tacos novos no chão, tão limpos e encerados como os da minha casa nunca estiveram. Ouço um som vindo do próximo cômodo, a cozinha. É algo como uma criança resmungando, parecendo um bebê com fome. Sigo em frente, mesmo sabendo que não deveria e que me arrependeria depois. 

      Vejo a freira que acabara de entrar, ela está em pé, com uma pequena bacia na mão, na qual há um líquido vermelho vivo que me dá arrepios. A seu lado, sentada em uma pequena cadeira e com uma colher na mão, está outra freira. Mas o que me fez prender a respiração foi a presença que tornou a cena ainda mais exótica e perturbadora: um bebê, com cerca de 9 meses, eu diria, sentado confortavelmente no colo da segunda freira, apreciando à colheradas o tal líquido que lhe era entregue. Não era uma criança como as que eu já havia visto. Era mais bela, chegava a ser fascinante. Eu jamais havia me deparado com uma criatura tão bonita em minha vida. Era o rosto mais angelical que eu poderia imaginar. Porém, bastava um segundo fixo em seus olhos para mudar de ideia. Eram tão vermelhos quanto o líquido na bacia de metal. Talvez o reflexo deste intensificasse a cor. E seus olhos me olharam, profundamente me olharam, o que chamou a atenção das irmãs, que automaticamente notaram minha presença. 

       Foi tudo muito rápido, agi sem pensar, instintivamente. Olhei para a porta por onde havia entrado, mas estava fechada. Entre mim e a saída pela varanda estavam as freiras, a me olhar interrogativamente, como quem diz: "O que quer aqui?". Fui o menos sensata possível no momento, e corri pelo corredor em direção aos quartos. Desesperada, sem saber o que fazer, fui até o fim do corredor, entrando no último e maior quarto. Estava mobiliado de forma simples, até normal demais para aquele lugar. Uma cômoda, encostada na parede à direita da porta, com objetos pessoais, como escova de cabelos e porta-retratos, um guarda-roupas pequeno de madeira à esquerda e, na parede oposta, uma cama. Estava desarrumada e cheia de cobertores. Me aproximei devagar, sem saber o que fazia, e a vi. Estava deitada confortavelmente e com uma expressão alegre. Me olhou, de uma maneira que não pude interpretar e disse:
- Posso ajudar?
- Não sei.
- Sente-se.
      Me sentei na cama, já não me importava mais com o que havia visto há pouco, quase me esqueci do motivo de estar ali. Era como um ímã para o qual não se pode parar de olhar, um passeio por minhas memórias mais secretas e talvez impuras. Eu já nem respirava mais. E se respirasse, seria a ela, a criatura que me avaliava com um sorriso no rosto e as mãos nas minhas. Foi quando começou a se aproximar devagar, me deitando com delicadeza. Eu estava seduzida e embebecida com o aroma mais doce que já havia sentido. Seus lábios seguiram em direção ao meu pescoço, roçando levemente. Agora eu não temia mais nada, não me lembrava sequer de meu nome, eu era ela, eu era dela. Quando voltou-se em minha direção, foi que senti seus lábios nos meus, e uma dor tão profunda quanto se possa imaginar. Eram dentes cravados em minha boca e, ao me ver coberta de vermelho, súbito percebi qual era o conteúdo da bacia. Era o que eu possuía também, e que ela agora bebia em mim.

Escrito por Jéssica Marques, do Caramelo de Limão
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Quer ter o seu conto publicado no E.E.? Mande para autoradoblog@live.com (ah,tem que ser um conto curto,ok?).

Comentários

  1. Engraçado que, enquanto eu estava revisando, comecei a ler freneticamente. Me preocupou,a princípio, o tamanho do conto...Mas o clima de tensão manteve certa cadência na leitura. Aliás, você juntou o profano e o divino numa história - e ficou ótimo desse jeito!

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  2. Adorei, eu só não entendia a presença das freiras,ficou muito bom,me envolveu tanto que quase não vi o texto todo sumir
    beijos

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  3. Muito bom, texto bom é desse tipo: te prende. Mantem o nível, tem começo-meio-fim. E deixa aquele gostinho de quero mais.

    Beijos
    Jhosy

    http://meninamsicaeflor.blogspot.com.br/

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  4. uooow! O texto ficou grandinho, mas me prendeu de verdade. Adorei o jeito que a Jéssica foi narrando os fatos. Eu me pus em seu lugar, sem saber o que fazer quando as freiras a viram em seu apartamento e no final quando a suposta vampira cravou seus dentes nela. #tenso
    -xoxo

    s2juuh.blogspot.com.br

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  5. Oie Jéssica!

    Parabéns pelo conto! Eu gosto de textos longos em que a narrativa prende a minha atenção e eu consigo me imaginar no lugar do personagem. Ficou muito bom mesmo!

    Beijus e uma ótima semana para você!
    ;***
    anereis.
    mydearlibrary | bookreviews • music • culture
    @mydearlibrary

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  6. Sempre fico meio assustada com textos longos para ler pelo pc, mas sempre que venho aqui, não me assusto. Sei que o texto vai surpreender. Muito bom, Parabéns!

    http://inspiracaoentrelinhas.blogspot.com.br/

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  7. veremos, minha querida, veremos. obrigada pelas palavras afáveis que sempre deixas no meu cantinho :)

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  8. você sempre escreve contos tão envolventes, que mesmo longos, prendem a gente do começo até o fim. Muito bom, parabéns!

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  9. Gosto, esta leitura é viciante.

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  10. Ual! Muito obrigada mesmo a todos vocês... Eu tenho esse jeito meio frenético mesmo de escrever, eu acho (:

    Então, deem uma olhada no resto do blog. Espero que gostem!

    Valeu mesmo, Emilie, por me dar este espaço.

    Beijo

    Caramelo de Limão

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  11. Teve partes que não entendi,mas adorei o texto *-*
    vestindo-ideias.blogspot.com.br

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  12. Freira diabólicas.
    Bela estória.
    E tu morreste ou viraste uma delas? rss

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  13. Que história ótima, perfeita!!!
    Quando li sobre o líquido vermelho por "instinto" já veio em minha mente "essa criança só pode beber sangue!!! Será que é uma vampira bebê?".
    E o legal é que a personagem corre e quando chega no próprio quarto se depara com a criança que bebe do sangue dela, uau!!!
    A criança realmente hipnotiza, e faz o leitor querer saber o resto da história!!!
    Beijos
    sogarotasteen.blogspot.com

    PS.: Desculpa por não ter retribuído a sua visita antes!

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  14. Uau! Que conto fantástico! São raras as vezes que encontro algo tão bem escrito, ele foi desenvolvido perfeitamente! Amei.

    http://florescerepalavrear.blogspot.com.br/

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  15. QUE MEDOOOOOOOOO! Sério. hahahahaha, me arrepiou até a nuca, eu não fico tão assustada assim desde Edgar Allan Poe. Que sensação estranha ao ler esse conto ;x medo medo medo.

    Parabéns à convidada, ficou incrível.

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  16. Noossa amei a história, mas que final triste :( coitada beberam sangue dela tbm :( mas adorei, a história fascina, beijinhos

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  17. Muito bom, poderia estender essa história Jessica e torna-la um livro. Você tem uma forma de envolver o leitor ao seu texto incrível, de principio pensamos que texto enorme. Mais logo vemos, que é maravilhoso e mereceu o tempo que passamos o lendo. Até mais, http://desventuras-em.blogspot.com.br/

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  18. sim sim, suzi :D

    uuau! esse texto me fez prender do começo ao fim, caramba :D

    texto muito bom :D parabéns Jéssica :)
    concordo com o comentário acima, devia torná-la um livro :D

    ps: fiquei hiper curiosa pra saber o que as freiras tinha nessa história ;s ahuahuah

    beijos
    japona.mairanamba.com

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  19. Muito bom, arrepiante, cheio de mistério, cercado de suspense. Adorei o uso das freiras nos personagens.

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  20. Confesso que no começo fiquei com um pouco de medo, mas no final ficou até um pouco 'erótico'. Parabéns.

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  21. Ao terminar de ler fiquei "OH My God" '-' Sem palavras!!

    Adolecentro

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  22. Que interessante esse conto, envolvente, apreensivo e misterioso. Lembrou-me levemente o enredo
    de um filme que adoro "O Bebê de Rosemary".

    Eu gostaria que o texto fosse mais longo para eu poder ler mais, passou rápido demais rs

    http://omundoemcenas.blogspot.com.br/

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