Morte 3X4

Quando o mundo se tornar confuso, me concentrarei em fotografias. Quando as imagens se tornarem inadequadas, me contentarei com o silêncio”. Ansel Adams

           Era uma noite densa. O quarto estava mais abafado que o normal. A poeira irritava meu nariz. Apesar disso, não me dava o trabalho de limpá-lo. Telefone toca. Venço a preguiça e atendo. Uma mulher quase rouca falava. Alguém morreu. Um parente do qual não me lembrava. Recebi um endereço. Na manhã seguinte fui para uma mansão. Estilo gótico. Gárgulas me observando. Céu avermelhado. Poluição? A mesma moça que ligou me recebeu. Explicou o falecimento do homem. Alguns detalhes do testamento. Meu nome constava. Ele ficou sabendo de meu trabalho, então acho apropriado e me deixou uma câmera. Antiquada. Lente fixa. Totalmente analógica. 

       A mansão também ficou para mim. O velho não tinha filhos, e menos ainda amigos. Como desfrutávamos da mesma arte, acabei sendo a pessoa mais próxima. Discordei do raciocínio dele, porém aceitei tudo sem me queixar. A moça trabalhava na casa. Disse que estaria disponível a qualquer pedido meu. Busquei minhas coisas e me mudei. Logo testei a câmera. Fotografei algumas pessoas num parque. Retornei e revelei o filme. Susto. O filme todo continha imagens de pessoas mortas. Nenhuma das fotos que fiz. Será possível que peguei um filme usado sem saber? Não. Pegadinha do parente já do outro lado? Talvez. Uma senhora com o pescoço quebrado, próxima de uma escada. Um corpo em chamas. Um idoso deitado, parecendo dormir. Um jovem com a garganta cortada, numa lixeira. Apenas imagens de atrocidades. Ignorei as imagens. Um noticiário na TV. Um garoto foi encontrado numa lixeira, degolado. Fui checar a foto na mesma hora. O jovem não estava mais lá. Não morto ao menos. 

        Diferente da anterior, uma imagem de um garoto sorrindo para a câmera apareceu. A imagem que deveria ter aparecido na revelação. O tempo passava, e as imagens mudavam para sua forma original conforme as pessoas morriam. Abandonei a câmera e parei de trabalhar. Fiquei traumatizado. Tentei destruir a máquina. Impossível. Não sei que magia negra, ou seja lá o que for existia naquilo. Só sei que nada poderia destruí-la. Acabei tendo uma idéia. Usando essa informação, talvez eu pudesse ajudar as pessoas. Impedir que elas morressem como as imagens previam. Pode ser esse o motivo do velho ter me deixado a câmera. Fotografei mais algumas pessoas, e iniciei minha missão.

      Entrei na vida delas do nada, conversei com elas. Intervi em suas atitudes, e me joguei contra acontecimentos que pudessem cumprir com a revelação do filme. Entretanto, elas não deixavam de morrer. Eu voltava para a mansão, achando que encontraria uma foto apagada, ou algo assim. Não. Tudo o que acontecia era uma morte diferente surgir no papel. Inevitável. Desisti. Por que impedir algo tão natural? Tantas pessoas morrem no mundo o tempo todo, mas poucas são recordadas pela eternidade. Foi quando eu percebi. Aquelas imagens não eram uma maldição. Elas eram arte, assim como qualquer fotografia. Uma dádiva no mundo. Eu consegui registrar momentos únicos de pessoas no momento de suas mortes, isso muito antes delas acontecerem. 

          Me maravilhei tanto. Lágrimas de felicidade caindo. Eu me tornei um santo. Um vidente. O escolhido. Não conseguiria descansar enquanto não fotografasse a morte de todos. Enfeitei um quarto com várias das fotos feitas com a câmera do fim. Resolvi chamá-la assim, levando em conta seu poder maravilhoso. E não fui informado de nenhum nome, me satisfiz com “Câmera do Fim”. Amava ficar sentado, observando as imagens mudando conforme o destino de todos se aproximava. Me sentia um ser divino vigiando os meros mortais. Era lindo. Evitava falar da câmera ou das fotos. Às vezes, eu explodia com alguém e gritava algo do tipo “Pelo menos não sou eu que vou ficar preso num buraco, vadia!” ou “Vai se ferrar, torresmo!”. Ninguém entendia.Então, tanto faz.

        Fiquei curioso e me fotografei. Eu deitado numa maca. Água preenchendo tudo. Afogado. Fiquei paranóico. Me afastei da água. Evitei hospitais. Passei a me cuidar melhor. Até um dia em que bebia Vodka gelada. O copo escorregou da minha mão. Instintivamente me lancei para pegar o objeto no ar. O copo se estilhaçou no chão. O impulso me fez pisar nos cacos. A dor dos cortes me moveu para trás. Quando percebi a escada atrás de mim, já era tarde. Um desequilíbrio breve. Os degraus abaixo parecendo me puxar. Me entrego. Golpes pelo meu corpo rolando. Termino minha jornada todo torto no andar de baixo. 

          A cuidadora vê a cena e chama a ambulância. Em minha dor, suplico para que não deixe me levarem. Sou ignorado. Me colocam na maca. Eu congelo de medo. Sinto a ambulância se movendo em alta velocidade. Os trancos me deixam em desespero. De repente sinto um choque no veículo. Flutuo um pouco por um tempo e sinto outro choque mais violento. Não pode ser. Não. NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO. Água começa a entrar na cabine. Não consigo me mexer, estou preso na maca. Caímos num rio? Bem provável. Agora estou aqui. Deitado. Uma maca. Água gelada cobrindo meu corpo. Bolhas saindo das narinas. Um sufocamento desesperador. Será que a imagem já está mudando? Será que alguém ficará com a câmera depois de mim? Queria tanto saber como a foto real ficou. Tanto. Às vezes, eu pen–…………………………………………………………………………………………………………………………………………^


Comentários

  1. Como já li porque esse conto foi postado noutro lugar, só irei copiar o meu comentário:
    Deve ser verdade aquela história de que os filhos superam os pais *pão postiça orgulhosa*.
    Felipe,estou aqui,sem palavras para esse seu conto. Está lindo de tão bom! E adorei esse final com as reticências,dando a entender que o personagem morreu ali. Lógido que imaginei que o conto tinha tudo a ver com você (estudante de fotografia). Mas,sabendo daquele seu lado "sombrio",fiquei com um pouco de medo que, no meio do conto, aparecesse um Jack Estripador (não que isso fosse acontecer,só estou falando...).


    P.S.: Pra quem ler isso,é a Emilie (só que com o nome verdadeiro-q).

    ResponderExcluir
  2. Caaaaaaaaaaara, que conto!
    Os fatos passaram rapidamente mas cada ação foi muito bem explicada. Gostei muito, a escrita está ótima!
    Beijo!

    ResponderExcluir
  3. Ai, por que eu tinha que ler esse conto a 01:15 da manhã? Agora vou ficar impressionada. Ai, se eu tivesse uma câmera dessas, eu nunca me fotografaria. Iria ficar paranoica igual ao seu personagem.
    Conto maravilhoso!

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

    ResponderExcluir
  4. Que medo! Muito bem escrito, gostei, mas deu medo, hehe :* beeijinhoos


    http://deborah-alana.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Que conto , que medo !!!!! Fiquei imaginado se um dia tivesse uma câmera dessas ou sairia fotografando todas as pessoas que encontrasse e ficaria igual ele e além disso como seria saber sua morte e mesmo tentando evita-lá a qualquer custo , não teria jeito.

    http://relembrandosonhos.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  6. Oh Gosh, ficarei impressionada também depois de ler esse conto, que macabro, o cara acabou gostando do poder da máquina de tirar fotos antes das pessoas morrerem, quer dizer, do poder dela fazer as pessoas que eram fotografadas morrerem D: Mas muito bem escrito o conto <3

    Beijos
    Meu outro lado

    ResponderExcluir
  7. Adoro histórias que falam em mansão, sempre viajo decorando a tal mansão em meu pensamento, rs.
    Bjus e um ótimo início de semana!

    Rafaela
    www.rafaelando.com

    ResponderExcluir
  8. ai que medo
    '-'
    nem quero ter uma camera dessa KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKkk
    adorei o conto mimi ^^
    http://garotoonerd.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  9. ADOREI MUITO ISSO *O* é o tipo de coisa que eu gosto de ler xD

    ResponderExcluir
  10. Caramba, que conto! =O
    Quanta mudança de perspectiva, que fim!
    Totalmente surpreendente.
    Até mais ;D

    ResponderExcluir
  11. Muito bom esse conto! Adoro essas coisas meio surreais, sabe? Parabéns para o moço que escreveu.
    Um beijo, @pequenatiss.

    ResponderExcluir
  12. Nooh... muito bem escolhida a frase de inspiração pro conto! Adorei! :)

    ;*

    ResponderExcluir
  13. Nossa! Eu realmente ficaria bem paranóica. Mas, como um todo, eu imaginei esse conto se transformando em um roteiro cinematográfico. Tipo a nova continuação de Premonição.

    ResponderExcluir
  14. Minha professora quer que eu aprenda a fazer contos, acho que vou me inspirar nesse blog kkkkk
    bjbj
    vitrine-maria.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  15. Daria um interessante filme de terror, ou suspense! Gostei bastante.

    ResponderExcluir
  16. As pessoas não conseguem se controlar. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde o infeliz ia tirar uma foto se si mesmo e ia dar merda. Haha
    Adorei o texto.
    Se eu tivesse uma câmera assim, só ia ficar tirando foto de mulher gostosa pra ver se elas iam ser mortas sexy.

    OBS, pra Emilie: Gata, eu não fico mal com os comentários. É claro que não fico totalmente "foda-se", pq ninguém gosta de ser chamado de doente, mas no geral eu sou sincero no blog, e recebo isso de volta.

    ResponderExcluir
  17. Aplaudo você de pé (mesmo você não vendo) No caso do conto, eu não me acharia uma criatura divina, ficaria muito medo, e acho que nem me fotografaria, caraca muito criativo, cada parte chama a atenção do leitor, e a parte do torresmo foi muito engraçado! Parabéns Felipe!

    Emilie seu blog sempre com ótimo conteúdo!!!!!!!!!!!!!

    meninasapeca-ms.blogspot.com

    ResponderExcluir
  18. wao! conto muito bom, parabéns ;D

    ResponderExcluir
  19. Que texto é esse hein? Maravilhoso. O final deixa a gente com gostinho de quero mais!!! Amei, amei, amei...

    Parabéns, vc escreve maravilhosamente bem!

    Esperando a sua visita. Bjus!

    http://inspiracaoentrelinhas.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Área interpretação livre: Faça comentários pertinentes ao texto. O que custa ler e opinar? Estou aceitando todas as teorias possíveis e interpretações mirabolantes (contanto que sejam sobre o conto).
Sem comentários superficiais, ok?: Se vier com um "adorei o texto", "interessante" (ou mesmo, se expressar de forma sucinta e sem significado) seu comentário não será aceito. E, nunca mais visitarei o seu blog. u.u
Prefira usar "Nome/Url" ao preencher a box de comments. Fica fácil na hora de retribuir.
Os comentários serão respondidos nesse post. Para ser avisado da resposta, selecione "Notifique-me", logo abaixo da caixa de comentários.

Postagens mais visitadas deste blog

Dois gatos

Teste de Coragem

Teto de verniz